Por Arthur Cagliari, Victor Rezende e Gabriel Roca — De São Paulo
02/02/2024 05h02 Atualizado há 5 horas
Sinais de desaquecimento do mercado de trabalho dos EUA se somaram a preocupações adicionais em torno da saúde do sistema financeiro americano e desafiaram a postura cuidadosa adotada pelo Federal Reserve (Fed, banco central americano), que praticamente descartou cortes iminentes nos juros. Ao contrário do que se desenhava no início da sessão, o dólar perdeu força de forma generalizada, o que deu apoio ao real, e as taxas futuras de juros também caíram, alinhadas aos Treasuries.
O comportamento do Fed e as apostas em torno da política monetária americana têm direcionado a dinâmica dos mercados ao redor do globo desde o fim do ano passado. O rali dos ativos de risco entre novembro e dezembro, diante da possibilidade de cortes antecipados nos juros nos EUA, deu lugar a um cenário mais cauteloso, reforçado pela manutenção do viés mais “hawkish” (duro) do Fed quanto a um desaperto nos juros.
Com a indicação explícita do presidente do banco central americano, Jerome Powell, de que deseja ver “mais dados bons” antes de reduzir os juros, o mercado passou a trabalhar em um modo dependente de dados, que já impôs desafios ainda ontem à visão do Fed. O aumento significativo no número de pedidos semanais de seguro-desemprego acionou um sinal de alerta sobre o desaquecimento do mercado de trabalho e se aliou aos temores relacionados aos bancos regionais americanos.
O banco regional New York Community Bancorp (NYCB) viu suas ações voltarem a sofrer na sessão de ontem, o que destoou por completo do desempenho positivo das bolsas em Wall Street.
“Após o desastre dos bancos regionais em 2023, os agentes do mercado têm uma maior consciência de qualquer dado que possa ser um precursor do início de uma crise de crédito sistêmica. Isso explica o motivo de as notícias do NYCB alimentarem novas preocupações com estresse financeiro”, afirma o economista-chefe para EUA da Mizuho Securities, Steven Ricchiuto. “Para nós, porém, a situação desse banco é um evento único.”
“A solidez financeira da economia dos EUA sugere um fluxo livre e ininterrupto de liquidez” — Steven Ricchiuto
Na visão de Ricchiuto, “a solidez financeira da economia sugere um fluxo livre e ininterrupto de liquidez”. “Enquanto a liquidez procurar o próximo melhor retorno em vez de se esconder para preservar capital, a economia deverá permanecer ancorada numa trajetória sólida de crescimento”, afirma.
Enquanto os papéis do NYCB amargaram perda de 11,13% e puxaram para baixo as ações de outros bancos regionais, o índice Dow Jones subiu 0,97%; o S&P 500 avançou 1,25%; e o Nasdaq teve alta de 1,30%. No Brasil, o Ibovespa ganhou 0,57%, aos 128.481 pontos.
“O mercado voltou a se preocupar com uma crise de liquidez. Embora eu não ache que seja o caso, como em março do ano passado, as incertezas despertam lembranças”, diz o chefe de câmbio da tesouraria da XP, Andrei Basilio, ao notar, ainda, que o dólar perdeu força globalmente. No mercado doméstico, a moeda americana era negociada a R$ 4,9151, em queda de 0,45%, no fim da sessão.
O dólar se ajustou em queda em um movimento alinhado ao dos Treasuries: a taxa da T-note de dez anos se manteve abaixo de 4% durante toda a sessão e encerrou o dia cotada a 3,878%. Nos juros locais, a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central ficou em segundo plano. A taxa do DI para janeiro de 2029 passou de 10,235% para 10,19%.
Na visão de Basilio, mesmo que a possibilidade de um corte nos juros americanos em março tenha diminuído, o viés otimista do mercado em relação ao futuro ciclo de flexibilização do Fed se mantém. “Se você for olhar a precificação dos Fed funds para o fim deste ano, ela está até mais baixa hoje [ontem] do que estava antes da decisão. O mercado entendeu que o Fed está confiante com seu trabalho, que a inflação está convergindo e que os cortes virão”, afirma, ao apontar a chance de um ciclo mais extenso.
Embora os ativos locais tenham surfado a onda positiva derivada dos Treasuries, o principal destaque do dia foi o real, que deu prosseguimento à valorização do dia anterior, mesmo com o tom mais duro do Fed. O movimento se explica por fatores técnicos, já que, na quarta-feira, o investidor local ampliou posição vendida (aposta na queda) em dólar via derivativos em US$ 2 bilhões e o estrangeiro reduziu posição comprada (aposta na alta) em dólar em US$ 2,16 bilhões.
“Estou construtivo com o real. Nosso setor externo está tranquilo e o BC manteve o tom, sem mostrar pressa em cortar os juros, o que ajuda a moeda, já que nosso juro real vai continuar alto”, diz. O ponto de dúvida fica com a questão fiscal, na medida em que Basilio lembra que o posicionamento do investidor local está muito “pesado”.
“Março vai ser o divisor de águas para o nosso câmbio. Hoje a grande posição vendida em dólar vem do investidor local, e sabemos que este investidor é mais sensível à questão fiscal porque é quem olha mais a filigrana”, explica Basilio. “Pode gerar uma volatilidade porque uma possível insatisfação do investidor tende a levar a mudanças no portfólio, com diminuição de risco no Brasil, cortando o real, que é hoje a grande aposta”, avalia o executivo. (Colaboraram Eduardo Magossi, Augusto Decker e Matheus Prado)
Fonte: Valor Econômico