Com o recente rali no mercado de ações americano e os spreads de crédito — diferença de rendimento entre títulos corporativos e públicos — próximos das mínimas históricas nos EUA, Jeffrey Hawkins, sócio e responsável por crédito e “special situations” da Bain Capital, avalia que esses mercados estão “subestimando todos os riscos”. Assim, o executivo diz preferir adotar uma abordagem mais cautelosa no momento, o que diverge do consenso de mercado, que está “olhando para além das turbulências de curto e médio prazo”.
“Seja no mercado de ações ou no mercado de crédito, há uma subestimação de todos os tipos de riscos, sejam macroeconômicos, geopolíticos ou orçamentários”, afirmou Hawkins em entrevista ao Valor, concedida durante visita ao Brasil. “Eu não diria que esses fatores não importam, mas acredito que os investidores estão olhando além desse risco.”
No mês de setembro, que costuma ser de baixa movimentação no mercado de ações, o rali das bolsas americanas ganhou força, com os índices registrando sequências de recordes de fechamento. Os ganhos têm sido liderados pelo setor de tecnologia e impulsionados pela perspectiva de cortes de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), que retomou seu ciclo de afrouxamento monetário, em pausa desde dezembro do ano passado. Parte do mercado vê espaço para um avanço ainda maior dos principais índices acionários de Wall Street.
Hawkins afirma que parte desse otimismo no mercado de ações é sustentado pela tese dos investimentos em inteligência artificial, embora ainda tenha dúvidas em torno do quão rentável essa tecnologia pode ser para as empresas. “Ainda existe a percepção de que grande parte do que estamos vendo com a IA e muito da inovação que ocorre nos Estados Unidos vai permitir que atravessemos este período turbulento.”
Já no mercado de crédito, Hawkins se diz surpreso com a maneira como os spreads diminuíram neste ano nos EUA e avalia que esse movimento parece exagerado. Houve uma queda forte dos spreads tanto na categoria “high grade” (investimentos com alto grau de segurança) quanto entre os “high yield” (com maior risco). De acordo com dados da distrital de St. Louis do Fed, os spreads de crédito “high yield”, que chegaram a 4,61 pontos em abril, tiveram queda expressiva e agora estão em torno de 2,80 pontos.
“Os spreads estão entre os menores da história. Sentimos que o mercado está, de certa forma, precificando um cenário otimista demais”, diz. Ele avalia que uma abertura dos spreads é esperada daqui em diante, embora não saiba dizer exatamente quando, por conta da incerteza no cenário econômico. “Acho que é realmente difícil quando você olha para a visão macroeconômica geral nos EUA. Há tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo, que é complicado entender qual será a direção”, afirma Hawkins.
Ele observa que a inflação americana tem sido mais persistente do que se esperava, enquanto o mercado de trabalho tem se mostrado mais fraco. Ao mesmo tempo, o executivo se questiona por quanto tempo as tarifas comerciais, que superaram suas expectativas, devem se refletir sobre a economia americana. “Em 25 anos, nunca vi um nível tão grande de incerteza em tantos aspectos diferentes… Sentimos que a melhor postura é simplesmente adotar uma posição mais conservadora.”
Diante disso, a abordagem da Bain Capital, que tem US$ 185 bilhões sob gestão, tem sido de “esperar para ver”, buscando investimentos mais seguros no mercado de crédito, especialmente em empresas com rating “B” e “BB”. Os spreads dos papéis que têm essas notas de crédito, inclusive, têm operado em níveis bastante próximos aos de empresas com classificação “BBB”, em torno de 1 ponto percentual sobre os Treasuries, também de acordo com dados do Fed St. Louis.
“Se olharmos para a curva de crédito, em nossa visão, você não é suficientemente remunerado para ir até as ‘CCC’ [nota que indica maior risco]. A diferença entre esses números não é grande o suficiente e estamos esperando um ponto de entrada melhor para um capital mais arriscado”, enfatiza Hawkins.
“Estamos investindo em áreas que chamamos de reservas de valor, onde podemos investir de forma a não ficar totalmente fora do mercado, mas ainda assim gerar cupom que não desvalorize tanto caso o cenário global enfraqueça.” De acordo com o executivo, esse tipo de abordagem permite fazer uma rotação para créditos de maior rendimento quando surgir oportunidade.
No momento, Hawkins vê boas oportunidades de crédito nos setores aeroespacial, de aviação e de defesa, com empresas bem posicionadas diante do atual panorama de incertezas. “Houve uma falta de produção na cadeia de suprimentos da aviação nos últimos anos, então há uma enorme demanda por aviões e serviços de aviação. Por isso, estamos apostando nesse segmento, assim como nos setores aeroespacial e de defesa”, afirma.
Fonte: Valor Econômico


