A escolha do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) de mencionar a desaceleração da economia brasileira como um movimento que que está somente no início foi adequada, na avaliação de economistas ouvidos pelo Valor. Embora na comunicação anterior à decisão tenha havido uma participação maior das discussões sobre um desaquecimento econômico, o comunicado buscou deixar a questão contida e continuou a dar peso para a dinâmica inflacionária, que levou o colegiado a indicar um novo aumento na Selic em maio, o que surpreendeu boa parte dos participantes do mercado.
No texto da decisão de política monetária de ontem que o conjunto de indicadores econômicos “tem apresentado dinamismo, ainda que sinais sugiram uma incipiente moderação no crescimento”.
“O trecho do comunicado em que o BC poderia ser mais ‘dovish’ [favorável à flexibilidade no aperto monetário] seria na parte da atividade econômica”, diz o economista-chefe da Truxt Investimentos, Arthur Carvalho. “Em declarações recentes, os membros do Copom pareciam estar mais preocupados com a perda de força da economia brasileira; eles vinham dando muito peso para a desaceleração. Mas, no texto da decisão, afastaram preocupações que o mercado tinha com isso e adotaram o tom certo”, afirma. “O adjetivo ‘incipiente’ dá uma ideia de algo inicial, ainda incerto. Depois, o texto promete um ajuste de menor magnitude, o que é compatível com o mandato.”
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O diretor de pesquisa econômica do Banco Pine, Cristiano Oliveira, tem opinião semelhante, embora acredite que, aos poucos, o desempenho da economia doméstica deve ganhar mais força dentro do colegiado. “O comunicado é apropriado, dada a incerteza no cenário global”, afirma. “O texto também mostra que, na função de reação do BC, a atividade tende a ganhar um peso relevante nas próximas decisões”, avalia, considerando que o tom do documento foi mais “neutro” que o esperado.
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Para o economista do Pine, se a autoridade monetária tivesse optado por dar mais ênfase aos “sinais incipientes”, o mercado poderia precificar corte de juros para as reuniões para além de maio. “O BC está sendo cauteloso. Esses sinais da atividade podem ou não se confirmar. Por isso que o BC não deu ênfase”, observa.
A economista Daniela Lima, da Kinea Investimentos, avalia que, apesar de não dar destaque no texto à questão da desaceleração, houve, sim, uma mudança na comunicação dos integrantes do BC nos últimos meses. “O discurso entre reuniões se alterou, com eles indicando que o juro já está bastante contracionista”, diz. “Ao falar do efeito defasado, eles resgatam um pouco disso. É como se dissessem ‘olha, já fizemos bastante coisa’”, acrescenta. “Está claro que estamos perto do fim do ciclo, a dúvida é o quão perto desse fim. Parte do mercado talvez achasse que estivesse até mais perto antes da decisão.”
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De acordo com Lima, investidores tinham a leitura de que o BC poderia reescrever o balanço de riscos e não dar “guidance” (orientação). “Nesse sentido, o texto foi mais conservador porque alterou muito pouco em relação ao comunicado anterior.
Por conta disso, na sessão de hoje, a economista da Kinea espera que os juros de curto prazo tenham um ajuste para cima, da mesma forma que, pelo diferencial de juros, o câmbio pode ter apreciação. “Ainda mais porque o Federal Reserve [Fed, banco central americano] adotou um tom mais ‘dovish’ [favorável ao afrouxamento monetário].”
Oliveira, do Pine, afirma que a sinalização do BC foi clara de que o ciclo está no final e diz acreditar que existe um prêmio na curva de juros que poderia cair para os vencimentos para além de maio. “O mercado tende a acreditar que o ciclo deve encerrar entre 14,75% e 15%”, diz.
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A leitura do chefe de pesquisa macro da Kínitro Capital, João Savignon, é de que a autoridade monetária buscou ter margem para diferentes cenários em meio a incertezas. “Ele buscou flexibilidade para além da reunião de maio e diz que vai depender da dinâmica de inflação e dos dados. Ele procura flexibilidade diante desse cenário mais incerto e que se aproxima do fim do ciclo”, avalia Savignon.
Carvalho, da Truxt, diz manter, por ora, seu cenário de projeção de Selic a 15% no fim do ciclo. “Depois desta decisão, me sinto bem confortável com meu cenário. Há mais espaço para subir um pouco essa taxa final do que cair. Para a próxima reunião, espero que o BC eleve a Selic em 0,50 ponto percentual, mas esse comunicado deu grau de liberdade maior para o colegiado.”
A economista da Kinea diz também ver uma redução nesta graduação mencionada por Carvalho. “O BC vai esperar os dados de desaceleração da atividade se materializarem para fazer esse sinal de fim de ciclo”, diz. “Por isso, não descarto que na próxima reunião o colegiado faça o exercício sobre o caminho de seu modelo diante de Selic constante.”
Fonte: Valor Econômico


