A mudança na comunicação do presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, diante da piora no cenário externo e da percepção de aumento nos riscos fiscais domésticos em abril, foi a senha que o mercado encontrou para apostar na redução do ritmo dos cortes de juros já na reunião de quarta-feira do Comitê de Política Monetária (Copom). O cenário de uma flexibilização mais lenta, inclusive, já é adotado por dois terços dos participantes do mercado, segundo pesquisa feita pelo Valor.
Dentre as 118 instituições financeiras consultadas pela reportagem, 78 esperam um corte de 0,25 ponto percentual na Selic, ao passo que outras 40 ainda veem espaço para uma redução de 0,5 ponto.
O número mais recente mostra uma tendência de aumento, nos últimos dias, das projeções que contemplam um corte de juros menor. Na pesquisa anterior do Valor, realizada entre 18 e 19 de abril — data posterior à mudança do tom de Campos Neto —, 54% dos participantes do mercado viam um corte de 0,5 ponto, enquanto 46% projetavam redução de 0,25 ponto.
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Incerteza em alta faz mercado ver potencial de dissenso no Copom — Foto: Imagem Valor Econômico
O mês de abril foi marcado por uma piora expressiva no ambiente externo. Dados de inflação acima das estimativas de consenso nos EUA e números de atividade resilientes empurraram para frente as apostas nos cortes de juros pelo Federal Reserve (Fed). Além disso, o aumento das tensões geopolíticas deu força ao dólar e aos preços do petróleo, o que ampliou o pessimismo dos agentes em relação ao processo de desinflação à frente.
De maneira adicional, o anúncio de revisão das metas fiscais pelo governo ampliou a percepção de risco em torno da trajetória da dívida, contribuindo para que o dólar encostasse em R$ 5,30.
Em meio à deterioração do cenário esperado pelo Copom, Campos Neto veio a público em meados de abril e desenhou uma árvore de possibilidades para o desfecho da próxima reunião. Na prática, a comunicação serviu para abandonar a indicação emitida na decisão de março, de que mais um corte de 0,5 ponto era tido como adequado. Esse cenário, inclusive, só voltaria à mesa caso houvesse uma redução das incertezas.
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Fernando Honorato, do Bradesco: “A comunicação do BC levou o mercado a acreditar que a preferência é pelo corte de 0,25 ponto” — Foto: Ana Paula Paiva/Valor
“De acordo com o nosso modelo que replica o do BC, alguma piora no câmbio e das expectativas de inflação tendem a ser compensadas por uma Selic mais alta no Focus. Isso deve manter a projeção de inflação do Copom de 2025 mais ou menos em 3,2%, o que não representaria uma piora acentuada no cenário esperado pelo comitê”, afirma o economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato Barbosa.
Além disso, nas últimas semanas, a inflação corrente no Brasil revelou surpresas positivas, com os núcleos comportados. Assim, apesar de os fatores indicarem que ainda haveria espaço para um corte de 0,5 ponto, o Copom deve entregar uma redução mais modesta nos juros, na visão do economista do Bradesco.
“A comunicação do BC levou o mercado a acreditar que a preferência dele é por um corte de 0,25 ponto. Eu até compreendo o 0,25 ponto como uma opção tática para ‘comprar tempo’, já que o cenário global se alterou e os cortes de juros do Fed foram postergados. Mas o BC deveria continuar indicando que ainda existe espaço para o afrouxamento monetário. Não faria sentido ele cortar 0,25 ponto e emitir uma sinalização que o ciclo está chegando ao fim. Ainda tem espaço para um afrouxamento monetário grande”, diz Honorato.
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Roberto Padovani, economista0chefe do Banco BV, ainda espera redução de 0,5 ponto na Selic nesta semana — Foto: Carol Carquejeiro/Valor
Já o economista-chefe do Banco BV, Roberto Padovani, argumenta que a “última milha” do processo de desinflação global deve provocar custos à atividade. Assim, uma desaceleração na economia americana, que deve chegar pela restrição monetária, deve se juntar a um crescimento fraco na Ásia e na Europa, gerando um ambiente de preços menores de commodities.
“Além disso, acreditamos que a taxa real de juros no Brasil está excessivamente elevada, e não vemos motivo para desacelerar o ritmo dos cortes neste momento. Como o ambiente global é desinflacionário, os riscos são menores”, aponta Padovani, que ainda sustenta um corte de 0,5 ponto no cenário base.
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Ivo Chermont, economista-chefe da Quantitas — Foto: Leonardo Rodrigues/Valor
“A decisão foi fortemente direcionada para um corte de 0,25 ponto e o Banco Central deixou isso muito claro”, diz o economista-chefe da Quantitas, Ivo Chermont, para quem o ciclo de cortes de juros deve terminar com a Selic em 10,25%. Ele nota que Campos Neto elencou três principais fatores — fiscal, global e expectativas de inflação — e todos pioraram desde março, o que justifica a redução no ritmo de flexibilização da política monetária.
“O Campos Neto não pareceu nada tranquilo com a questão fiscal e nada mudou nos últimos dias; o regime de volatilidade do câmbio mudou e, por isso, não dá para confiar tanto que o número da tela é um novo nível e isso é reflexo da volatilidade do cenário global; e as expectativas de inflação subiram e devem incomodar ainda mais o BC. Por que o Campos Neto tomaria o custo de ser duro e dar um corte de 0,5 ponto? Não acho que seja a feição dele fazer isso agora”, afirma Chermont.
fonte: valor econômico


