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Depois de um hiato em que a volatilidade dos mercados com os juros altos persistentes afastou emissões externas, os bancos de investimento aguardam uma nova leva de captações de empresas brasileiras. A visão geral é que companhias com vencimentos nos próximos dois anos precisam começar a olhar o mercado externo, algo que deverá se traduzir em até sete emissões até o final de julho, momento em que o mercado se fecha para o período de férias no Hemisfério Norte.
No mercado, nomes como Marfrig, JBS e Rede D’Or são apontadas como candidatas a aproveitarem esse momento. Também é esperado que empresas que vinham se aproveitando da boa fase dos títulos isentos no mercado local voltem a olhar o exterior diante das mudanças das regras para essas emissões. Outra expectativa gira em torno de um novo movimento do Tesouro, que deve voltar a acessar o mercado externo neste ano, em uma emissão sustentável.
Miguel Diaz, diretor do Santander para a área de renda fixa externa, lembra que o espaçamento das emissões de abril até aqui reflete principalmente o período em que as empresas estavam atualizando seus dados financeiros relativos ao primeiro trimestre do ano e que o mercado está, no momento, bastante positivo para novas emissões. “Houve uma expectativa do mercado em relação aos juros, ao que o Fed [o banco central dos Estados Unidos] está indicando. A consequência disso é que a volatilidade baixou muito nas últimas semanas e isso incentiva as empresas a tomarem a decisão”, afirma o executivo. “Na nossa visão, o mercado está muito bom”, comenta, lembrando que existe um prêmio de risco dos emissores de países emergentes, garantindo demanda pelos papéis. “Temos condições, no geral, para todos os tipos de emissores”, completa Sandro Marcondes, que comanda a área de renda fixa no Santander Brasil.
Segundo Diaz os bonds das empresas do “pelotão de elite”, ou seja, os emissores frequentes do país, estão com performance bastante positiva no mercado secundário, com fechamento dos spreads, o que também os posiciona como potenciais emissores na atual janela.
Outra sinalização positiva para as empresas brasileiras é a demanda vista em operações recentes da América Latina, diz Alexandre Castanheira, chefe da área de mercado de dívida do Citi. Nas últimas semanas, por exemplo, a AES Chile acessou o mercado externo com uma captação de US$ 530 milhões, com US$ 1,9 bilhão de demanda. O Chile também emitiu um título soberano de US$ 2,1 bilhões com “book” de US$ 9,5 bilhões. “O mercado continua aberto e com apetite dos investidores. Fora isso, o swap de dólar para real está bom, o que indica um momento interessante para captações”, afirma.
Diaz, do Santander, lembra que, apesar de os riscos com as eleições americanas no segundo semestre já estarem mapeados, companhias podem preferir antecipar suas emissões para a atual janela.
Para Samy Podlubny, chefe da área de dívida do UBS BB, algumas companhias já descartaram a possibilidade de emitir em meio às eleições nos Estados Unidos e devem acessar o mercado internacional de dívida principalmente na janela de setembro, que se abre após o fim das férias. Ele também acredita que a operação do Tesouro, ainda sem data, deve servir de chamariz, principalmente para os emissores mais tradicionais. A oferta será a segunda do Tesouro envolvendo títulos sustentáveis. A primeira foi feita em novembro de 2023.
Gustavo Siqueira, responsável pela área de mercados de capitais de renda fixa do Morgan Stanley, diz que a mudança das expectativas do mercado em relação ao início do corte de juros nos Estados Unidos fez com que algumas transações voltassem para a gaveta. Mas a sua percepção é que as empresas com vencimentos mais curtos devem começar a preparar suas emissões, com o foco no chamado “liability management”. “Não será uma leva de emissões oportunistas”, diz Siqueira, referindo-se a captações de empresas que, mesmo sem pressão, se aproveitam do bom momento do mercado para lançarem suas emissões.
O executivo do Morgan Stanley aponta que é preciso levar em consideração o mercado local, que segue aquecido e absorvendo a necessidade de capital das empresas. Sua visão é que, se o Treasury retomar níveis vistos no início do ano, momento em que o mercado de bonds se aqueceu, mais empresas devem partir para as captações externas.
No entanto, o mercado local segue forte e vai absorver parte das necessidades das empresas por capital. Assim, enquanto há menos clareza em relação à curva de juros nos Estados Unidos, as companhias continuarão voltando os esforços para o mercado brasileiro, segundo Podlubny, do UBS BB. “O mercado está extremamente líquido e ganhando profundidade de volume e de prazo. Para a grande maioria dos emissores, o local está atendendo bem às necessidades do dia a dia”, diz. Em situações específicas, porém, como fusões e aquisições, o mercado externo pode ser o melhor caminho para a captação, afirma.
De janeiro até agora, foram concluídas 13 ofertas brasileiras no mercado de dívida em dólar, que movimentaram cerca de US$ 11,6 bilhões. A mais recente foi da Movida, que captou US$ 500 milhões, no dia 4 de abril. Além de nomes tradicionais, como Cosan, CSN e Raízen, três empresas estrearam no mercado de bonds. A 3R Petroleum fez uma emissão de US$ 500 milhões e a Ambipar, especializada em gestão de resíduos, levantou US$ 750 milhões. O debute de uma brasileira no mercado de bonds não ocorria há dois anos.
Fonte: Valor Econômico
