O mercado consolidou a aposta de que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deve encerrar 2025 muito próximo do teto da meta inflacionária, de 4,5%, após estouro da meta em 2024 (4,83%). Economistas consultados pelo Projeções Broadcast consideram que a moderação dos preços de alimentos, o movimento de apreciação cambial, e a redução do preço da gasolina pela Petrobras na última semana ajudaram a aliviar as estimativas para o ano.
A mediana da pesquisa Projeções Broadcast indica alta de 4,51% para o IPCA do ano, resultado menor do que o apontado pelo mais recente boletim Focus, que teve a estimativa intermediária para inflação de 2025 reduzida de 4,70% para 4,56%. Economistas não descartam mais uma redução da mediana do Focus na próxima divulgação. Até setembro, o IPCA acumula alta de 3,64% no ano e de 5,17% em 12 meses.
O cenário atual para a inflação é mais benigno do que o mercado desenhava no início do ano, sobretudo pelo movimento da taxa de câmbio no final de 2024. Para efeito de comparação, a mediana para o IPCA 2025 do Focus chegou a atingir 5,68% em março.
Moderação no preço dos alimentos ajudou na queda da inflação Foto: Alex Silva/Estadão
Diretores do Banco Central reforçaram ao longo do ano o desconforto com a desancoragem das expectativas de inflação, um fator importante para determinar quando o Comitê de Política Monetária (Copom) deve iniciar o processo de afrouxamento monetário.
Caso o IPCA de 2025 cumpra, de fato, o limite da meta, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, estaria dispensado de escrever mais uma carta ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, sobre os motivos que levaram ao estouro da meta de inflação.
No início do ano, a projeção para o IPCA de 2025 do head de macroeconomia da Kínitro Capital, João Savignon, era uma das mais altas do mercado, de 6,5%, muito influenciada pela perspectiva de uma taxa de câmbio mais depreciada. Hoje, o economista aposta em uma alta de 4,46% para a inflação no ano, abaixo do teto da meta.
Além da dinâmica mais favorável da taxa de câmbio, a inflação de bens industriais e alimentos, na esteira da queda dos preços das commodities, foi o “grande diferencial” para a revisão na estimativa, segundo ele. A expectativa é de bandeira amarela na tarifa de energia elétrica em dezembro — se for verde, a estimativa deve sofrer um decréscimo de 10 pontos-base.
Para o economista Fabio Romão, da 4intelligence, o IPCA deve encerrar o ano em 4,52%, em um cenário que prevê bandeira tarifária amarela em dezembro. Segundo ele, a estimativa do ano perdeu força neste mês devido à redução do preço da gasolina pela Petrobras, mas já vinha dando sinais de moderação. A alimentação no domicílio, por exemplo, chegou a rodar em 7,5% em maio, e pode fechar em 4% em 2025.
“Tivemos uma boa safra, a gripe aviária momentaneamente também derrubou os preços das carnes, o câmbio ajudou bastante e o próprio tarifaço de Donald Trump ajudou a tirar força de algumas cotações”, aponta.
A estrategista de inflação da Warren Investimentos, Andréa Angelo, projeta hoje o IPCA de 2025 a 4,3%. “Mas poderia ir para 4,2% com a bandeira tarifária amarela vigente já a partir de novembro”, afirma.
Na avaliação de Angelo, além de tendência de queda para o IPCA com a possível bandeira amarela em dezembro, existe outro ponto que pode contribuir para a desaceleração da inflação: os bens industriais. Segundo ela, está em curso um repasse do câmbio apreciado de forma mais rápida nesses itens, o que ainda pode ter impacto na dinâmica de preços da Black Friday no fim do próximo mês.
“Temos uma coleta de eletroeletrônicos da Black Friday e vimos uma redução de preços já na semana passada. Mas não conseguimos explicar se esse movimento está relacionado ao câmbio ou à concorrência de produtos chineses que estão vindo para cá”, analisa a estrategista.
IPCA menor eleva aposta de corte na Selic em janeiro
O IPCA dentro do teto da meta de inflação — de 4,5% — ou muito próximo dela eleva a aposta pelo início do ciclo de flexibilização monetária já em janeiro, segundo economistas, embora esse não seja o cenário-base da maioria.
O mercado de trabalho resiliente e a inflação de serviços em níveis altos — ainda que esteja em desaceleração e apresentando uma melhora qualitativa — podem ser um freio para o Banco Central na decisão de reduzir ou não a taxa Selic em janeiro.
A economista Andréa Angelo considera que a desaceleração dos serviços aumenta a aposta por uma queda de juros em janeiro, de 0,25 ponto porcentual. Segundo ela, o qualitativo do IPCA mostrou melhora em setembro e na leitura do IPCA-15 de outubro. Contudo, a parte de serviços intensivos no trabalho, ligado ao mercado de trabalho, foi a única que voltou a acelerar neste mês.
Para João Savignon, da Kínitro Capital, o cenário atual para a inflação aumenta a probabilidade de uma eventual antecipação do ciclo de cortes da taxa Selic, mas avalia que ainda é cedo para o Copom baixar a guarda e antecipar o ciclo de redução da taxa Selic. “É preciso aguardar o efeito positivo da dinâmica para gerar uma expectativa inflacionária menor, especialmente para 2027, que é o horizonte do BC. A autarquia precisa consolidar o ganho de credibilidade”, observa. A Kínitro prevê o primeiro corte na Selic entre março e abril, mas não descarta um início em janeiro.
Fabio Romão, da 4intelligence, considera que a projeção do IPCA a 4,5% em 2025 será a mais frequente no mercado, visto que o cenário para ela se concretizar ficou mais provável. “Certamente as apostas de o primeiro corte na Selic ser em janeiro vão crescer, mas ainda não veremos uma moderação no mercado de trabalho neste ano”, observa.
Para ele, o IPCA deve fechar abaixo da meta — a projeção da 4intelligence é de alta de 4,52% —, mas os serviços devem continuar em níveis incômodos para o BC, rodando em 6% no fim deste ano. Para 2026, o economista projeta IPCA de 4,2% e inflação de serviços de 5,4%. “É mais difícil ver uma descompressão em serviços como vimos em alimentação”, diz. A 4intelligence projeta o primeiro corte na Selic em março de 2026, de 0,25 ponto porcentual.
O economista Alexandre Maluf, da XP Investimentos, também avalia que o cumprimento do teto da meta da inflação aumenta a aposta de corte no juro básico em janeiro. “O cenário ainda está aberto, contudo, com as incertezas fiscais e o ciclo de cortes do Federal Reserve”, diz. A corretora mantém o call de início do afrouxamento monetário em março, com uma redução de 0,50 ponto.
Ele também aponta que a melhora qualitativa da inflação de serviços traz certo alívio para o Banco Central. “Existia uma desancoragem, essa inflação de serviços rodou perto de 8%”, diz. “Mas será difícil ver uma inflação consistentemente na meta com tantos estímulos fiscais e de crédito contratados para 2026”, pondera.
Fonte: Estadão

