Por Arthur Cagliari e Victor Rezende — De São Paulo
03/01/2024 05h02 Atualizado 03/01/2024
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O real deve sofrer uma leve desvalorização ao longo de 2024, resultado do menor diferencial de juros em relação aos Estados Unidos, do fluxo comercial não tão robusto quanto o de 2023 e da perda de força da economia doméstica. Esses fatores, que beneficiaram a moeda brasileira no ano passado, podem até continuar exercendo algum suporte para a divisa, mas com uma intensidade menor.
A avaliação no mercado é que ainda há incertezas acerca do processo de flexibilização monetária nos Estados Unidos, e um ajuste de expectativas dos investidores tenderia a fortalecer o dólar globalmente. No cenário local, o risco fiscal no Brasil pode se materializar, caso o tamanho do déficit surpreenda negativamente as expectativas do mercado.
Em levantamento realizado pelo Valor com 89 instituições financeiras e consultorias, a mediana das projeções para o dólar no fim de 2024 ficou em R$ 5,00 – na última sessão de 2023, o câmbio fechou cotado a R$ 4,8525. A pesquisa embute uma amplitude relevante nas projeções, de R$ 1,25. Enquanto a casa mais otimista com o desempenho do real em 2024 (a Persevera) espera que o dólar encerre o ano a R$ 4,25, a mais pessimista com a moeda (o C6 Bank) estima que a divisa americana fechará o período negociada a R$ 5,50.
Ainda que haja distinções nas estimativas, há uma percepção de que, se não depreciar, o câmbio tem pouco espaço para mais valorização, e a sustentabilidade da dívida pública é um fator relevante para esse movimento. “Ainda tem espaço para o real apreciar, mas é bem menor. Tudo depende do fiscal, e a proposta do governo, que é tímida, também não tem sido cumprida”, diz o estrategista-chefe para mercados emergentes do Deutsche Bank, Drausio Giacomelli. “O novo arcabouço é frágil na concepção e provavelmente não será executado. É difícil ver uma apreciação do real assim.”
O banco alemão é uma das instituições que projetam o dólar a R$ 5,00 no fim deste ano, em linha com a mediana das estimativas. “O que aconteceu com o real [no ano passado] foi, em grande parte, um ajuste à desvalorização de 2022 e de antes. Foi um ano bom, mas, antes, tivemos anos horríveis”, diz Giacomelli.
“Ainda tem espaço para o real apreciar, mas é bem menor” — Drausio Giacomelli
Uma das poucas casas a acertar o nível do câmbio no fim do ano passado, a Versa Asset menciona o equilíbrio fiscal como um ponto para compressão de prêmios de risco. “Vemos uma situação delicada e dificuldade de entregar a meta [de déficit primário zero], mas o ponto essencial é pensar que toda essa discussão já está precificada no mercado”, diz o economista-chefe da gestora, Tarik Migliorini.
A Versa mantém visão construtiva em relação ao real e espera que a moeda continue a se valorizar. “Acertamos porque, lá no fim de 2022, já estávamos mais otimistas com a redução dos prêmios de risco internos do Brasil. E, além disso, as contas externas ajudaram”, afirma o economista. Ele, agora, espera que o dólar chegue a R$ 4,70 no fim de 2024.
Ao elencar outros vetores que podem puxar o dólar para níveis mais baixos, Migliorini cita o patamar historicamente ainda elevado do dólar em relação à maioria das moedas e avalia que há uma simetria para um dólar mais fraco, já que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) deve começar a reduzir os juros. “Mais um componente importante foi o setor externo. A balança comercial surpreendeu muito”, diz.
Outra estimativa que ficou bem perto da realidade em 2023 foi a da Troster & Associados. Ao comentar sobre a forte entrada de fluxo via exportações, o economista-chefe da casa, Roberto Troster, diz que a tendência é que o fluxo de capital continue favorável. “As projeções indicam que os preços das commodities devem permanecer no patamar de agora. Se não tivermos grandes questões climáticas, continuaremos exportando”, afirma. “Está esquentando muito, não dá para saber se teremos a mesma supersafra de 2023 neste ano. Por isso, eu diria que o grande inimigo do Brasil hoje é o El Niño.”
O economista diz que, se considerado apenas o mercado à vista do dólar, os fundamentos mostram que o câmbio teria mais espaço para apreciar. “Se você levar em conta que o investimento estrangeiro direto [IED] no país é maior que o déficit de conta corrente, então a tendência seria de ver o real se valorizar, e o câmbio estar em torno de R$ 4,60 por dólar”, afirma. “Mas o mercado futuro é maior e tem mais eficiência que o à vista. Isso explica estarmos com o câmbio acima de R$ 4,85 agora”, complementa, dizendo que sua projeção para o fim deste ano é de R$ 4,80.
Outro ponto que pode continuar beneficiando a moeda brasileira, segundo Troster, é a estratégia de “carry-trade” – ou carrego, operação em que o investidor toma dinheiro emprestado em moeda de um país com juros baixos e aplica na moeda de outro com taxas altas. Para ele, mesmo que ocorra uma redução do diferencial dos juros brasileiros em relação aos americanos, o real vai continuar se beneficiando. “Porque os juros lá foram devem cair também, então mesmo com o estreitamento desse diferencial, ele vai continuar positivo para o Brasil.”
Na mesma linha, o estrategista-chefe do Banco Mizuho para América Latina, Luciano Rostagno, afirma que tanto o fluxo comercial quanto o diferencial de juros podem continuar oferecendo suporte para o real em 2024, mesmo que ambos os fatores passem a exercer menor influência sobre o câmbio. “As exportações foram, sem dúvida, um vetor positivo para o real, porque tivemos uma safra extraordinária de grãos. No próximo ano, ainda que não seja tão grande, a safra vai se manter robusta”, diz. “Com o Fed sinalizando possíveis cortes de juros, a operação de ‘carry-trade’ deve continuar favorecendo nossa moeda. Mas é claro que esse fator tende a perder força porque o nosso BC também vai dar sequência ao ciclo de cortes de juros.”
Rostagno diz projetar o câmbio a R$ 5,00 por dólar no fim de 2024. Na sua leitura, algum ajuste de expectativas em relação ao Fed pode voltar a dar força ao dólar, já que a autoridade monetária americana não deve cortar os juros no prazo que o mercado vem estipulando. “Acho pouco provável que o Fed comece a reduzir as taxas já em março. O BC americano vai aguardar um pouco mais para ter clareza sobre o cenário de inflação.”
O estrategista do Mizuho também menciona a desaceleração da economia chinesa e os riscos geopolíticos como outros motivos que devem pesar sobre o desempenho do câmbio. “Além disso, o crescimento da economia brasileira não parece estar ganhando força. A tendência é que em 2024 tenhamos um Produto Interno Bruto mais moderado em relação a 2023”, afirma.
Fonte: Valor Econômico


