Por Matheus Prado e Arthur Cagliari — De São Paulo
03/08/2023 05h01 Atualizado há 4 horas
Economistas e participantes do mercado se surpreenderam com o resultado apertado da votação do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, que culminou em um corte de 0,5 ponto percentual da Selic por 5 votos a 4. No entanto, há divergências em relação ao peso que o dissenso terá nas próximas decisões do colegiado, ao mesmo tempo em que os agentes já avaliam as chances de o colegiado acelerar o ritmo de cortes nos juros à frente.
A economista-chefe da ARX Investimentos, Elisa Machado, afirma que esperava dissenso, mas não com uma votação tão próxima. Para ela, é notável como o voto do presidente da autarquia, Roberto Campos Neto, desempatou e ajudou a definir o tamanho da flexibilização no juro básico.
“Dissensos são naturais, ainda mais se considerarmos que o comitê agora é composto por diretores indicados por governos de linhas diferentes. A discordância entre os membros poderia até ajudar a indicar o ritmo que o BC vai adotar, mas, como o comunicado já contrata cortes de 0,5 ponto, o peso acabou diminuindo”, diz.
Nessa linha, Machado afirma que, ao reforçar “a necessidade de perseverar com uma política monetária contracionista até que se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas”, o Copom buscou ancorar a trajetória da Selic.
Mas há quem veja repercussões maiores da discordância na discussão de política monetária. O economista-chefe da Exploritas, Andrei Spacov, nota que a diferença entre os votos dos integrantes do Comitê deve servir de alerta. “É um momento ruim para ocorrer essa dissidência. Quase metade dos integrantes não concordou com tal postura, logo após a entrada dois membros novos, supostamente vinculados à esquerda”, afirma. “Foi uma sinalização complicada, porque a metade que discorda era composta por integrantes mais técnicos.”
“Comunicação abre possibilidade para que 0,5 ponto se torne “o piso” de corte da taxa nas próximas reuniões” — Paulo Val
Para Spacov, no entanto, nas próximas reuniões, as decisões devem seguir menos divididas, com maior chance de decisões unânimes. “O que pode acontecer é o mercado querer cortes maiores, porque sabe que o comitê tem agora uma nova composição”, diz.
Talvez, por ter começado o corte em ritmo de 0,50 ponto, diz o economista da Exploritas, o mercado também espere que, na próxima reunião, a redução seja de 0,75 ponto, porque presidentes anteriores começavam o ciclo com um corte inferior à velocidade de cruzeiro e depois aceleravam o passo.
Por ver esse corte mais forte já no início e pela cisão do colegiado, Spacov afirma que o movimento de queda nas expectativas da inflação deve ser contido agora. “Deve dar uma parada nessa dinâmica. A queda nas expectativas vai ficar mais dependente da inflação mesmo agora”, diz. “Ou você é mais duro em sua política e tem a convergência das expectativas ou você é mais agressivo e fica ao sabor dos dados. Não poder ter os dois ao mesmo tempo”, diz.
Nessa linha, o economista-chefe da Occam, Paulo Val, diz que a comunicação da autoridade monetária abre espaço para que o ritmo de 0,5 ponto se torne o “piso” de corte da taxa básica nas próximas reuniões. “É o passo mais provável [cortar 0,5 ponto], mas dá a entender que pode acelerar caso o cenário siga melhorando e que parece pouco provável uma redução no ritmo.”
Por outro lado, Val acredita que o dissenso perde força porque todos os diretores enxergam um ritmo de 0,5 ponto para as próximas reuniões. “A discordância se concentrou no início do ciclo, e não na condução da política”, observa. Além disso, ele nota que o balanço de riscos melhorou, já que deixou de citar temores fiscais e a desancoragem de expectativas de inflação e passou a falar da persistência da inflação de serviços, que é algo “mais leve e amplamente discutido entre economistas”.
A economista-chefe da A.C. Pastore & Associados, Paula Magalhães, também chama atenção para o fato de o Copom ter retirado do comunicado a referência ao novo marco fiscal como uma incerteza. “Não sabemos ainda o desenho final do arcabouço fiscal. Na verdade, pouca coisa se alterou desde a última reunião, e suprimiram isso”, diz. “Creio que fizeram isso para poder fazer esse corte mais agressivo hoje, porque se tivessem mantido isso e, mesmo assim, cortado a Selic em 0,5 ponto não seria algo muito condizente.”
Para ela, a magnitude do corte diverge da parcimônia e da cautela defendidas pelo BC em junho. “O que eles haviam defendido era que iriam observar o cenário com cautela, com atenção na ancoragemdas expectativas mais longas, mas acho que o Copom foi menos parcimonioso do que disse que seria.”
A economista afirma que deve alterar suas projeções para a Selic. A estimativa da casa era de que a taxa básica de juros fechasse o ano em 12,5%. Para o fim do ciclo, Magalhães diz acreditar que a taxa deve ficar em 9,5%. “Não devemos mudar isso a princípio. O que vai ocorrer é que vamos chegar a essa taxa em um ritmo mais rápido.”
Magalhães diz que o mercado pode não pressionar por um corte maior, mas é provável que isso ocorra se o cenário melhorar. “Se tivermos um câmbio mais valorizado e se a inflação surpreender pra baixo, o mercado pode pedir. Aí vamos ver se o BC mantém a palavra.”
A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) divulgou nota elogiando a decisão. Segundo o presidente da entidade, Isaac Sidney, a medida é um primeiro passo importante “para reversão da forte restrição monetária por que passa o país neste difícil e exitoso processo de contenção da escalada inflacionária”.
Fonte: Valor Econômico