Por Marcelo Osakabe, Felipe Saturnino e Anaïs Fernandes — De São Paulo
14/04/2022 05h01 Atualizado há 5 horas
A autoridade monetária brasileira navega no escuro há quase duas semanas sem as últimas edições da pesquisa Focus, que coleta as estimativas dos agentes econômicos para uma série de indicadores importantes na condução da política monetária do país, como inflação (IPCA), atividade (PIB) e juros (Selic). Não significa, porém, que as projeções do mercado não estejam em movimento. Desde o último Focus, publicado em 28 de março e interrompido pela greve de servidores, a inflação oficial de março assustou, o presidente do Banco Central reagiu e o IBGE divulgou indicadores dos principais setores da economia em fevereiro.
Pesquisa do Valor com 74 instituições financeiras e consultorias, realizada ontem, mostra uma projeção mediana para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 7,5% em 2022 e 4% em 2023. As menores estimativas são 6,5% neste ano e 3,4% no próximo, enquanto as maiores são de 8,6% e 6%, pela ordem. No último boletim do BC, cujas respostas foram coletadas em 25 de março, a expectativa mediana para IPCA era de 6,9% em 2022 e 3,8% em 2023. As metas são 3,5% e 3,25%, respectivamente, com tolerância de até 5% e 4,75%, pela ordem. O levantamento do jornal não é diretamente comparável ao Focus, que registra em torno de 130 a 140 respostas, mas ajuda a dar um norte.
“O que levou muita gente a revisar [projeção de inflação] recentemente foi o IPCA de março, a maior surpresa em 20 anos”, diz João Fernandes, economista da Quantitas, em referência à alta do índice de 1,62%. A expectativa mediana do mercado era de 1,32%, segundo o Valor Data. “Antes dele, as revisões estavam apenas se aproximando da mediana, com algumas casas que tinham números menores elevando suas estimativas. O dado mudou essa dinâmica, todas passaram a subir projeções”, afirma Fernandes. A Quantitas prevê IPCA de 8,3% em 2022 e 4,3% em 2023.
Um dos grandes vilões da inflação corrente são os bens de forma geral, os duráveis, como veículos e eletroeletrônicos, e os semiduráveis, como artigos de limpeza, cosméticos e vestuários, aponta Fernandes. A história, diz ele, é bem conhecida: a falta de insumos a nível global, no âmbito da pandemia, estava em processo de normalização, mas acabou agravada novamente pela guerra na Ucrânia e o surto de covid na China.
“A nossa maior preocupação é com o cenário de inflação. Sofremos no ano passado choques localizados que se tornaram altas generalizadas de preços e, em cima desse quadro já preocupante, tivemos mais choques. É por isso que achamos que o IPCA fecha o ano a 8%, porque as pressões estão muito espalhadas”, diz Roberto Padovani, economista-chefe do Banco BV.
Esses choques vão ser mais persistentes do que se imagina devido, por exemplo, aos efeitos secundários da inflação sobre combustíveis e outras commodities, observa Gustavo Arruda, chefe de pesquisa do BNP Paribas para América Latina. “Quando fazemos a conta, vemos que esses riscos estão subdimensionados”, diz ele, que vê IPCA de 8,5% em 2022 e 4,5% em 2023.
No Brasil, acrescenta Fernandes, da Quantitas, há ainda um mercado de trabalho resiliente. “Mesmo entendendo que a Selic mais alta vá levar a uma inflexão dessas pressões em algum momento, o que vemos agora é o custo da mão de obra ganhando tração, em um ambiente de maior demanda por serviços presenciais. Vimos a PMS [Pesquisa Mensal de Serviços] desacelerar no último mês, mas acredito que ainda virão leituras fortes por três ou quatro meses.”
Nesta semana, o IBGE divulgou que os serviços caíram 0,2% em fevereiro, ante janeiro, feito o ajuste sazonal, enquanto o varejo ampliado – que inclui veículos e material de construção e é o que conta mais para o PIB – avançou 2%. No início de abril, o instituto informou que a produção industrial havia crescido 0,7% em fevereiro.
A partir desses indicadores, o BC apresentaria hoje seu Índice de Atividade Econômica (IBC-Br) de fevereiro, que oferece ao mercado uma “temperatura” da atividade no mês, mas a divulgação também não deve ocorrer por causa da greve. Pesquisa do Valor Data com 27 instituições indica que, na mediana, elas esperavam uma alta de 0,4% para o índice.
A pesquisa do Valor captou ontem uma projeção mediana para PIB de 0,5% em 2022 e de 1,2% em 2023, praticamente as mesmas do Focus de 28 de março (0,5% e 1,3%, respectivamente).
Outro problema para a inflação, segundo os economistas, é a percepção de que as expectativas estão desancoradas. “Isso, por si só, leva a uma inflação mais persistente. Mesmo em setores que não são diretamente afetados pela guerra, por exemplo, só a percepção de que o custo de vida está mais alto permite aos agentes repassar mais preço. Embora estejamos um pouco cegos porque não tem ocorrido a divulgação do Focus, a dinâmica das coletas de preço diárias mostra que a inflação não está desacelerando”, afirma Arruda, do BNP.
Quando “o regime na cabeça das pessoas” muda e a economia demora mais a desinflar, a autoridade monetária “precisa buscar quebrar a rigidez do repasse”, diz Fernando Fenolio, economista-chefe da WHG. O presidente do BC, Roberto Campos Neto, chamou a atenção no início desta semana ao reconhecer que o IPCA de março foi uma surpresa e afirmar que “nossa inflação está muito alta”.
“A Selic hoje é nosso ponto de maior incerteza. Recentemente, trouxemos ela para 12,75%, apesar de a ‘matemática’ mostrar que precisaria ser 13,5%, porque a autoridade monetária fazia questão de afirmar que 12,75% era suficiente. Depois do IPCA de março, Campos Neto abriu a possibilidade de uma condução mais austera, mas ainda estamos esperando uma comunicação mais intensa”, diz Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa.
A pesquisa para Selic realizada ontem pelo Valor é diretamente comparável a outra feita pelo jornal em meados de março e não apresentou alteração na projeção de uma Selic mediana de 13,25% ao fim do ciclo de alta neste ano.
“A barra estava alta para a Selic ir acima dos 12,75%, mas era só por causa da sinalização do BC, porque, do lado da inflação, a dinâmica mostrava que os preços iam continuar em aumento acelerado”, afirma Patricia Pereira, estrategista-chefe de renda fixa da MAG Investimentos. Ela revisou sua previsão de Selic de 13,25% para 13,75% após as falas de Campos Neto.
Alguns fatores ainda podem ajudar o BC. Se o câmbio conseguir se manter abaixo de R$ 5, por exemplo, isso pode se traduzir em preços industriais menores, e a atividade, conforme fica mais fraca, também contribuiria para uma capacidade de repasse inferior, sugere Fenolio, da WHG.
A mediana das projeções de câmbio do último Focus estava em R$ 5,25 ao fim de 2022, enquanto a colhida ontem pelo Valor indica exatamente R$ 5. Ainda assim, seria um câmbio mais depreciado do que o nível atual. “Não parece haver muito mais espaço para uma apreciação do real à frente. Os Estados Unidos vão começar a apertar os juros, tem a incerteza doméstica e as commodities já subiram bastante no pico”, diz Pereira, da MAG.
Fonte: Valor Econômico
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