As companhias de capital aberto brasileiras continuaram crescendo durante o quarto trimestre, ainda apoiadas na atividade econômica do país durante os três meses finais de 2024, mas com sinais cada vez mais fortes de uma desaceleração ao longo deste ano. O anúncio das tarifas americanas na semana passada acrescenta incerteza externa a um ambiente interno já conturbado pelo desajuste das contas públicas e juros elevados.
Levantamento feito pelo Valor Data, que considera os resultados de 331 empresas não financeiras e exclui os números de PetrobrasCotação de Petrobras e ValeCotação de Vale, mostra que as receitas cresceram 14,6% no quarto trimestre, para R$ 970,5 bilhões, enquanto o lucro caiu 56,2% na mesma base de comparação, para R$ 26,3 bilhões.
No acumulado de 2024, o lucro do grupo de companhias caiu 4,6%, para R$ 173,3 bilhões, enquanto receita subiu 10,6%, para R$ 3,527 trilhões.
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A dinâmica de resultados mostra uma dicotomia entre o desempenho de empresas que atuam nos setores domésticos do Brasil e as que exportam commodities, dizem analistas. Enquanto companhias que atuam dentro do país ainda se beneficiaram do cenário de consumo elevado e desemprego baixo, as exportadoras enfrentaram volatilidade.
“A temporada do quarto trimestre ficou entre neutra e levemente positiva, porém o lucro líquido cai por causa das empresas de commodities, que puxam essa conta para baixo”, afirma Ricardo Peretti, estrategista da área de ações do Santander. “Contra as expectativas que tínhamos, a maioria veio em linha ou acima do esperado.”
A queda no lucro na comparação anual se deu principalmente por causa de efeitos contábeis da marcação a mercado da dívida em dólar das empresas.
“É um efeito direto no resultado que não tem muito impacto real, enquanto o dólar mais alto [que favorece as exportadoras] demora algum tempo até ser contabilizado nas receitas”, diz Carlos Eduardo Sequeira, chefe de pesquisa do BTG Pactual.
A moeda americana teve valorização de 13,6% nos três meses finais de 2024, impactado pelo aumento da percepção de risco fiscal no Brasil.
No levantamento do Valor Data, 38 empresas que atuam no mercado externo e com commodities tiveram alta de 16,9% no faturamento, chegando a R$ 412,3 bilhões. No entanto, elas tiveram prejuízo de R$ 6,6 bilhões, revertendo o lucro de R$ 18,9 bilhões há um ano, por conta dos efeitos cambiais sobre a dívida em moeda estrangeira.
Em termos operacionais, as companhias exportadoras tiveram resultados sequencialmente mais fortes, com algumas exceções pontuais, como PetrobrasCotação de Petrobras, apoiadas em melhores preços de commodities. Na comparação anual, no entanto, os preços foram menores, afirmam os analistas de bancos.
“As produtoras de petróleo sofreram com os preços do barril sequencialmente mais baixos, mas mineradoras e siderúrgicas tiveram resultados melhores”, diz André Mazini, chefe de pesquisa do Citi. Companhias de papel e celulose também tiveram resultados mistos por conta de preços mais baixos, mas volumes maiores.
Entre as 293 companhias do levantamento que atuam no setor doméstico, houve alta de 12,9% nas receitas, para R$ 558,2 bilhões, enquanto o lucro caiu 20,1% em um ano, para R$ 32,9 bilhões. A última linha dos balanços foi afetada principalmente pela piora do resultado financeiro em meio aos juros altos.
“Esse desempenho [das empresas domésticas] ainda está muito relacionado com a performance da economia no ano passado. Tivemos crescimento do PIB, a situação de pleno emprego se manteve e o consumo foi alto durante as festas de fim de ano”, diz Sequeira, do BTG.
Ricardo Peretti, do Santander, explica que a tendência foi a mesma vista no terceiro trimestre de 2024, com as companhias mantendo um discurso de mais austeridade mesmo que isso não esteja refletido nos números dos três meses finais do ano. “Não tivemos nenhuma grande surpresa negativa.”
As produtoras de petróleo sofreram com os preços do barril mais baixos no período”
As companhias do setor de construção civil foram o principal destaque positivo da temporada, pelo lado das empresas domésticas, dado a força nas operações tanto de companhias que atuam na baixa renda quanto na média e alta renda, explica Mazini, do Citi.
“Tivemos poucos destaques realmente negativos. Talvez dê para apontar as geradoras de energia, em especial as que lidam com ativos renováveis, que sofreram com os ‘curtailments’ [redução de geração] porque temos pouca capacidade de estoque de energia e acaba se tornando perda”, afirma.
Os analistas esperam que os resultados do primeiro trimestre deste ano sejam sequencialmente mais fracos que os dos três meses finais de 2024, já incorporando o ambiente macroeconômico mais incerto no Brasil e as turbulências globais envolvendo as tarifas americanas.
“A impressão que eu tenho é que vai ter uma desaceleração. O quarto trimestre sofreu mais com as incertezas da questão fiscal que geraram um estresse do que de redução de consumo em si”, explica o chefe de pesquisa do BTG. No entanto, ele acredita que uma queda mais forte nos resultados acontecerá somente no segundo semestre.
“A foto que veremos muito provavelmente será parecida com a do quarto trimestre, com crescimento nas empresas domésticas, mas um resultado estável ou até caindo nas exportadoras de commodities porque os preços ficaram estáveis e o dólar foi recuando daqueles níveis altos”, diz Peretti, do Santander.
Mazini, do Citi, explica que a alta dos juros que vem sendo praticada pelo Banco Central, elevando a taxa Selic para 14,25% na última reunião do Copom em março, ainda não será sentida pelas companhias. “Não deve nem ter sinal amarelo nos números das companhias.”
Até mais importante do que os números em si, será a sinalização das empresas sobre o que elas veem sobre o cenário para o resto do ano e o possível impacto que as tarifas anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na última semana, terão nos resultados a partir de agora.
“O investidor estrangeiro está olhando mais o mercado brasileiro por conta dessa volatilidade nos Estados Unidos”, explica Mazini, do Citi. “Há uma leitura, talvez otimista demais, que seja bom para nossa indústria, mas há um risco de recessão global que não pode ser descartado.”
Fone: Valor Econômico


