Até quando o mercado consegue aguentar o desarranjo das contas públicas sem uma piora relevante nos preços dos ativos financeiros?
A pergunta tem sido feita em algumas conversas entre agentes de mercado e a aposta majoritária é de que os agentes devem conseguir aguentar até a eleição presidencial de outubro sem uma grande deterioração no comportamento dos mercados. Há, no entanto, a sensação de que, a cada dia que passa, o problema nas contas públicas aumenta e justifica um prêmio de risco ainda maior nos ativos. Por enquanto, as NTN-Bs têm canalizado melhor essa piora de cenário.
“O mercado deve conseguir levar até a eleição esse desconforto fiscal, mas, no ‘day after’, vai querer saber o que será feito na prática”, avalia o economista-chefe da Oriz Partners, Marcos De Marchi.
E, na medida em que o site de apostas Polymarket continua a indicar cerca de 60% de probabilidade de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, há uma atenção maior a qualquer sinal emitido pelo governo sobre medidas a serem adotadas depois de uma eventual vitória.
Nesse sentido, repercutiu entre os investidores a notícia de que Lula planeja um arcabouço fiscal mais restritivo em seu programa de governo como um aceno a empresários e ao mercado.
Participantes do mercado, porém, têm argumentado que o nível necessário de consolidação fiscal para colocar a dívida pública em trajetória minimamente sustentável já é bastante elevado. Além disso, diante de uma política monetária restritiva e da retirada de estímulos fiscais e parafiscais implementados neste ano, há quem aponte para um PIB bem mais fraco em 2027, o que pode dar a sensação de uma dívida/PIB que cresce a uma velocidade ainda maior devido ao efeito do denominador mais fraco.
“Existe a chance de o PIB de 2027 mostrar um crescimento mais fraco, entre 1% e 1,5%. Falo isso porque a chance de termos uma ressaca é grande, vindo de uma queda significativa do impulso fiscal que estamos vendo agora e de um impulso de crédito que pode ficar bem mais fraco sem as iniciativas do governo”, observa o profissional da Oriz.
Dentro dessa lógica, a dívida/PIB tenderia a subir mais, e não necessariamente o juro real conseguiria cair tão rápido. “Podemos nos ver em uma situação semelhante à do governo Dilma, quando a dívida subiu muito rápido e continuou em alta durante o mandato do Temer. Claro, não será em uma magnitude semelhante, mas existe, de fato, a chance de uma ressaca pós-estímulos feitos neste ano eleitoral.”
E, nesse caso, a investida por ações no lado da consolidação fiscal, diante da possibilidade de um aumento acelerado da dívida/PIB, pode ser ainda mais forte, especialmente se o cenário externo se mostrar mais avesso a mercados emergentes.
Não por acaso, as economistas Mirella Sampaio e Cassiana Fernandez, do J.P. Morgan, mostram preocupação bastante relevante com a condução da política fiscal em 2027, na medida em que as atenções do mercado começam a mirar o estado das contas públicas no próximo ano.
“A formalização das candidaturas durante o período das convenções partidárias (de 20 de julho a 5 de agosto) e o prazo final de registro das candidaturas (15 de agosto) devem deslocar gradualmente o debate para os desafios estruturais da política fiscal, em especial a já conhecida tensão entre o cumprimento formal do arcabouço fiscal e um déficit primário ainda muito distante do necessário para estabilizar a dívida pública”, dizem as economistas.
Em nota enviada a clientes, elas notam uma dificuldade adicional caso a discussão de “pautas-bomba” avance no Congresso antes do recesso parlamentar. “Isso pode ocorrer tanto por meio de perdas recorrentes de receita, como a ampliação do acesso ao MEI e ao Simples Nacional, quanto por aumentos permanentes das pressões sobre as despesas, especialmente com pessoal e benefícios previdenciários.”
Ontem, inclusive, foi aprovada no Senado a PEC que concede a aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde, com impacto relevante sobre as contas públicas. O mercado já conta com a judicialização do tema, diante dos sinais dados pelo governo de que levará a questão para o Supremo Tribunal Federal (STF) diante da falta de compensação fiscal.
“Embora o Tesouro Nacional tenha reforçado recentemente seu colchão de liquidez, avaliamos que os riscos para o terceiro trimestre permanecem assimétricos para pior, à medida que o ciclo eleitoral se intensifica e propostas de impacto fiscal negativo continuam em discussão”, afirmam as economistas. Para elas, é uma assimetria que fica cada vez mais custosa em um contexto de capacidade limitada de absorção da dívida pelo mercado, como mostrou o cancelamento recente de um leilão de NTN-Bs.
Fonte: Valor Econômico


