O mercado já começa a ser mais incisivo nas apostas de que o Banco Central Europeu (BCE) será levado a reduzir os juros de forma mais célere e efetuará um novo corte na taxa de depósito, atualmente em 3,5%, na próxima decisão de política monetária, que ocorrerá em 17 de outubro. As apostas em uma flexibilização monetária mais agressiva vieram após novos sinais de enfraquecimento da atividade econômica, além de a inflação na zona do euro ter ficado abaixo da meta de 2% pela primeira vez em três anos.
Em setembro, o índice de preços ao consumidor na região aumentou 1,8% na comparação anual, segundo dados preliminares da Eurostat, desacelerando após a alta de 2,2% vista em agosto. O núcleo da inflação, que exclui preços mais voláteis, como os de energia e de alimentos, também desacelerou, ao passar de 2,8% em agosto para 2,7% no mês passado.
Além disso, a presidente do BCE, Christine Lagarde, disse em sua audiência no Parlamento Europeu na segunda-feira que a confiança da autoridade monetária em um retorno oportuno da inflação à meta havia aumentado, e que o BCE levará isso em consideração em sua próxima decisão.
“Após uma queda ainda mais profunda do que esperávamos na inflação da zona do euro em setembro, estamos antecipando o próximo corte de 0,25 ponto percentual da taxa do BCE de dezembro para outubro”, dizem os economistas do Deutsche Bank em relatório. Eles agora preveem que a taxa retorne ao nível neutro – aquele que não estimula nem contrai a economia – em meados de 2025, ao estimarem a taxa de equilíbrio da zona do euro entre 2% e 2,5%.
O Citi foi outro banco que revisou sua expectativa para a próxima reunião e agora espera que a taxa de depósito seja cortada 0,25 ponto, para 3,25%, ante projeção anterior de um corte apenas em dezembro. O banco prevê cortes subsequentes em dezembro e até o início do ano que vem, até a taxa chegar a 1,5% em setembro de 2025.
“Nem todos os diretores podem estar totalmente de acordo com a ideia de que a política deve continuar a ser flexibilizada, reunião após reunião, mas esperamos que os dados recebidos exerçam pressão suficiente para garantir que esse seja o caso”, escrevem os economistas do Citi Arnaud Marès, Christian Schulz e Giada Giani, em nota.
Além da inflação abaixo de 2%, os principais indicadores econômicos da zona do euro caíram, sugerindo uma economia bem mais fraca ou mesmo uma leve recessão nos próximos meses, o que pode levar a um corte de juros em outubro, diz o economista Marco Wagner, do Commerzbank, ao revisar sua projeção anterior, que abarcava um corte apenas em dezembro.
O índice de gerente de compras (PMI) industrial da zona do euro caiu de 45,8 em agosto para 45 em setembro, seguindo em contração e destacando a crise do setor, bem como uma perspectiva de crescimento fraco enfrentada na zona do euro, diz o economista Rory Fennsessy, da Oxford Economics. Ele destaca que a atividade econômica na região flerta com a estagnação e as intenções de contratação se deterioram, e com isso o crescimento salarial deve continuar a moderar.
“Adicionaremos um corte de taxa em outubro ao nosso cenário base na próxima revisão de projeções, mas a decisão sobre cortar ou não permanece incerta”, enfatiza o economista da Oxford.
Para Nick Bennenbroek, economista internacional do Wells Fargo, o BCE também deverá realizar cortes nas próximas quatro reuniões para atingir uma taxa de depósito de 2,5% em março do ano que vem. A partir daí, a expectativa é que o banco central realize cortes trimestrais com os juros chegando a 2% em setembro.
Com dados recentes apontando para um crescimento mais fraco e inflação mais suave, o BCE deve buscar um ritmo mais regular de cortes. “O BCE tem indicado cada vez mais em anúncios recentes que os riscos para o crescimento econômico estão inclinados para o lado negativo”, observa Bennenbroek na justificativa de um cenário de flexibilização mais rápida.
Fonte: Valor Econômico
