A resiliência dos mercados de dívida emergentes é estrutural, não um fenômeno cíclico, de curto prazo, segundo avaliação de Pramol Dhawan, diretor da Pimco, asset especializada em ativos de renda fixa. No meio desse grupo, o Brasil é uma economia que mostra boas condições para os investidores de dívida e onde há uma perspectiva de melhora das notas de classificação de risco de crédito do país.
“Há uma melhora real e significativa no crédito [dos emergentes] que queremos destacar para indivíduos e investidores. Não é um ciclo como o observado no início dos anos 2000, que foi impulsionado por commodities”, afirmou o executivo em conversa com jornalistas na sede da Pimco, em Nova York. Se lá atrás o movimento era dependente da China e da alta demanda por matéria-prima, fatores que não estavam sob controle dos países do bloco, o movimento atual é “baseado na solidez dos balanços patrimoniais, em ativos de alta qualidade e na necessidade de diversificação”.
Para o executivo, os mercados emergentes estiveram na vanguarda do aperto monetário, quando foi necessário combater os efeitos inflacionárias da pandemia de covid-19, reagindo nove meses antes das economias desenvolvidas, como a americana. “A palavra ‘transitória’ circulou por um longo período, eles [os bancos centrais] pensavam que a situação iria se resolver sozinha e não precisavam ser tão reativos.”
Dhawan disse haver muita credibilidade na política monetária dos emergentes. “A noção de que a crise dos mercados emergentes é estrutural e não cíclica diz respeito à disciplina fiscal. Argumentamos que alguns dos melhores balanços patrimoniais do mundo, em termos de crédito soberano, estão em mercados emergentes, e não em desenvolvidos. Em outras palavras, há várias economias desenvolvidas que são muito frágeis do ponto de vista fiscal, e nós estamos em uma delas agora”, afirmou, referindo-se aos Estados Unidos, acrescentando ainda França, Bélgica, Reino Unido e Japão.
“Quando os EUA têm uma dívida equivalente a 125% do PIB e registram déficits anuais entre 6% e 7%, fica claro que a trajetória da dívida se torna insustentável muito rapidamente. O fato de os EUA serem uma moeda de reserva levanta a questão de quão rápido essa dívida pode se tornar insustentável.”
Ele citou que os EUA colocaram em prática um estímulo fiscal quatro vezes maior do que o da Europa, durante a pandemia, e a Europa, por seu lado, adotou estímulos muito maiores do que qualquer economia emergente.
Comparativamente, os emergentes adotaram uma política monetária muito restritiva e a fiscal mais disciplinada. “Isso é música para os ouvidos de um investidor em títulos [de crédito], talvez não seja para os ouvidos de um investidor em ações.” Isso importa porque mostra a disposição dos países e empresas de honrarem suas obrigações.
“O Brasil é um ótimo exemplo. Dívida externa muito limitada, reservas muito grandes, quase nenhum risco de crédito no sentido tradicional de relação ativo-passivo, ou descasamento entre moeda forte e passivo, quase nenhum”, argumentou Dhawan.
Apesar do elevado déficit nominal, porque o país paga uma taxa de juros altíssima, do ponto de vista de crédito não há nada que precise ser trabalhado. “Isso significa que as classificações de crédito soberano, da perspectiva das agências, estão em uma grande trajetória ascendente. E é isso que queremos capturar da perspectiva de investidores.”
O executivo mencionou que 2024 já tinha sido um ano recorde de aumento da classificação de risco de crédito em economias emergentes e que 2025 já superou 2024, ao passo que os países desenvolvidos têm sido rebaixados.
Dhawan está do lado dos analistas que acreditam no enfraquecimento do dólar, um ciclo de depreciação que deve durar por vários anos. “O dólar normalmente não se move em períodos de 6 a 12 meses, mas sim em ciclos de 10 a 15 anos. Estamos apenas no início do primeiro ano de um ciclo de depreciação plurianual.”
Após os investidores acumularem um grande volume de capital em ativos em dólares, ele vê uma reacomodação. “Os preços dos ativos americanos subiram, o dinheiro entrou nos EUA, sem dúvida, e há uma grande questão sobre como esse dinheiro está diversificado dentro do país. Será que ficou concentrado apenas nos países de renda mais alta? Há uma grande questão sobre a distribuição desse dinheiro.”
Mas a guerra tarifária do presidente americano, Donald Trump, muda essa dinâmica. A necessidade de diversificar se torna fundamental, algo que não se via desde 2010 a 2012. “Você poderia simplesmente ter comprado ativos americanos, sem proteção cambial, e estaria perfeitamente bem com esse ativo subjacente.”
No chamado “Dia da Libertação”, quando Trump anunciou sua política de taxação de bens importados, em abril, as ações desabaram e os juros dos títulos americanos deram um salto.
“Para um investidor europeu, isso foi pior em termos de perda do que a crise financeira global, foi pior do que [a quebra] do Bear Stearns, do Lehman Brothers ou qualquer outro banco do tipo, porque as correlações [movimentos opostos que neutralizam parte das perdas] não funcionaram como antes.”
E o vaivém cambial superou o movimento dos ativos propriamente. Foi preciso reduzir o risco e ajustar as taxas de hedge. Para o executivo da Pimco, o próprio governo deseja essa desvalorização ao longo do tempo.
Pelos cálculos da gestora, o dólar está 15% sobrevalorizado, é uma moeda cara e há países na Ásia com divisas subavaliadas, caso de Japão (50%), China (40%), Coreia do Sul (25%) e Taiwan (35%) em relação à moeda americana.
“As tarifas são provavelmente um instrumento inadequado, porque, se observarmos a balança comercial bilateral com a China, ela não apresentou mudanças significativas em comparação com a dos EUA”, disse Dhawan. “Uma maneira melhor de lidar com isso seria forçá-los a valorizar a moeda, o que naturalmente enfraqueceria o dólar e causaria mais fluxos de entrada em mercados emergentes e em ativos denominados em moedas locais.”
Foi por causa dessa noção de desvalorização da moeda fiduciária que ativos como ouro e criptomoedas tiveram aumento da demanda e de preços. Foi um ano também em que os ativos em mercados emergentes tiveram ganhos na casa dos 20%.
“Mercados emergentes e moedas locais permitem comprar ativos regidos por jurisdições locais. Moedas fortes, como o dólar, não permitem isso. Isso é novo. Elas podem ser congeladas, podem ser confiscadas”, alertou, acrescentando não se tratar de uma narrativa “venda os EUA, mas sim escolher que partes dos EUA você quer controlar”.
“Não se pode substituir IA e computação quântica. Essas são entidades produtivas muito centradas nos EUA, que não se encontram em nenhum outro lugar. Mas você pode substituir parte da duration em crédito e títulos do Tesouro. Enquanto o prêmio do crédito soberano nos EUA é praticamente zero, há uma cesta emergentes em que o investidor pode obter taxas reais de 3% a 8%, como Brasil, Peru, Hungria ou Índia. E se olhar apenas para o grupo de grau de investimento, há retornos da ordem de 4%.”
“Os mercados emergentes são uma dessas categorias onde você pode ser recompensado por diversificar. E é por isso que vimos fluxos bastante substanciais neste ano.”
Fonte: Valor Econômico


