O mercado de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) passa, há alguns anos, por um momento de mudança. O perfil das empresas e das emissões no mercado primário, principalmente, tem se modificado de forma gradual, e o setor chega a 2025 mais “concentrado” e “seletivo”, na visão de analistas consultados pela Capital Aberto.
Um dos principais fatores para essa mudança se deve à sequência de ajustes regulatórios por parte do Conselho Monetário Nacional (CMN) nos últimos anos, que mudaram as regras para os lastros de CRA e CRI. Com as novas normas, o perfil das emissões passou a refletir com mais fidelidade as cadeias produtivas do setor, com destaque para grãos, híbridos, pecuária, papel e celulose — segmentos historicamente fortes no agronegócio brasileiro.
O cenário é ilustrado pelos dados do Grupo Travessia, que revela que companhias como Eldorado Brasil Celulose, São Martinho, Minerva, BRF e SLC Agrícola figuram entre os principais emissores do ano. Outra característica de perfil nesse mercado é que as operações pulverizadas, com múltiplos devedores, lideram o volume total, evidenciando o apetite dos investidores por estruturas mais diversificadas.
Outro ponto que se destaca, tanto na análise do Grupo Travessia quanto na do sócio-diretor de investimentos alternativos do Clube FII, Felipe Ribeiro, é o movimento de alongamento das emissões, já perceptível em 2024, mas que ganhou ainda mais força em 2025. O pico de vencimentos previsto para 2030 confirma a preferência por títulos com prazos entre cinco e sete anos, mas as grandes companhias puxaram a média para patamares ainda mais elevados.
Ainda de acordo com Ribeiro, o prazo médio das operações indexadas ao IPCA saltou de 9 anos até setembro de 2024 para 17 anos até setembro de 2025 — avanço impulsionado justamente por emissões robustas de JBS, BRF e Minerva.
“Essas companhias conseguiram estruturar séries longas e volumosas, o que distorceu positivamente a média geral”, afirma o especialista.
Apesar do aumento do prazo, o volume médio das séries em IPCA+ recuou, passando de R$ 290 milhões até setembro de 2024 para R$ 204 milhões em 2025, reflexo do maior número de emissões menores. A taxa média também subiu: de IPCA + 7,04% em 2024 para IPCA + 8,02% em 2025, movimento alinhado ao comportamento da NTN-B, sem grande variação no prêmio real oferecido.
Nas operações atreladas ao CDI, por sua vez, o volume médio por série cresceu significativamente — de R$ 83 milhões para R$ 135 milhões —, enquanto o prazo médio permaneceu estável, entre quatro e cinco anos. A taxa média, de CDI + 7%, segue próxima ao nível de 2024, demonstrando, no olhar de Ribeiro, um mercado ainda sensível ao custo de carregamento.
Mencionadas anteriormente, as resoluções nº 5.118 e 5.212 do CMN alteraram profundamente o mercado de CRI e CRA. Até 2024, empresas de outros segmentos — como varejo, locação e alimentação — conseguiam ter acesso ao benefício fiscal desses títulos, mesmo sem ligação direta com o setor.
Agora, somente as companhias cuja atividade principal represente mais de dois terços da receita consolidada podem emitir papéis incentivados. O resultado, conforme explicam os especialistas do Grupo Travessia, é um “mercado primário mais enxuto, composto majoritariamente por operações da cadeia produtiva do agronegócio”.
A exclusão de emissores fora do setor também encareceu o custo de financiamento para essas companhias, que passaram a recorrer a debêntures e instrumentos não isentos de Imposto de Renda. Por outro lado, as operações lastreadas em CPR-F (Cédula de Produto Rural Financeira) ganharam espaço, reforçando a qualidade do lastro.
O conjunto regulatório foi complementado pela Resolução CMN nº 5.121, de março de 2024, que ampliou as possibilidades de lastro ao permitir contratos comerciais vinculados diretamente às atividades-fim — não apenas operações financeiras.
“O novo marco regulatório devolveu aos títulos incentivados sua função original, financiar as cadeias produtivas reais”, afirma o Grupo Travessia. “Ao mesmo tempo, fortaleceu a governança e reduziu a assimetria regulatória entre setores.”
Até o final do ano, a “nova fase” do mercado de CRA deve ser consolidada com ainda mais solidez, se configurando como uma alternativa defensiva em um cenário de juros elevados — até o momento, a taxa Selic permanece em 15%.
Fonte: Capital Aberto