Por Gabriel Caldeira, Valor — São Paulo
23/01/2023 16h56 Atualizado há 17 horas
Uma economia mais resiliente que o esperado na zona do euro deve levar o Banco Central Europeu (BCE) a continuar o ritmo atual de alta de juros para controlar a inflação. É o que tem mostrado dados recentes que afastaram parte dos temores de que uma recessão mais profunda atinja a região em 2023.
Maior economia da zona do euro, o Produto Interno Bruto (PIB) da Alemanha registrou alta de 1,9% em sua leitura preliminar para 2022, número que levantou a hipótese de que a economia do bloco não registrou contração no quarto trimestre do ano passado, como era esperado. O dado ainda vai ser divulgado. Além disso, a melhora da crise de energia e da atividade econômica na China apoiam a perspectiva para o restante de 2023.
Até os dados do fim de 2022 começarem a ser divulgados, o consenso entre economistas era de que a Europa estaria entre as regiões mais afetadas pela crise econômica em curso por conta de sua exposição aos efeitos da guerra entre Rússia e Ucrânia.
Amanhã, as leituras preliminares dos índices de gerentes de compras (PMIs) da zona do euro, Alemanha e França de janeiro serão divulgadas e podem confirmar esse cenário mais positivo. O consenso de analistas consultados pelo “The Wall Street Journal” para o dado composto (que engloba indústria e serviços) do bloco é de alta a 49,7, após registrar 49,3 em dezembro – 1,5 ponto a mais do que os 47,8 de novembro.
Ainda que venha como esperado, o indicador segue apontando contração da atividade – indicada por leituras abaixo de 50. Porém, essa recuperação – apesar de pequena – já é um respiro para os investidores que temiam ter que enfrentar uma recessão enquanto atravessavam um período longo de aperto monetário.
A presidente do BCE, Christine Lagarde, aproveitou o Fórum Econômico Mundial na semana passada para afirmar seu compromisso com a meta de inflação de 2%. Segundo ela, mais aumentos de juros serão precisos e a taxa básica deve permanecer em território restritivo para ancorar as expectativas de preços. Atualmente, a chamada taxa de depósitos do BCE está em 2,0%, e há ampla expectativa para que o BCE a aumente em mais 0,5 ponto porcentual (p.p.) na sua próxima reunião monetária em fevereiro.
Outros dirigentes do BC deram sinalizações similares. No último fim de semana, o presidente do Banco Central da Holanda, Klaas Knot, afirmou que a autoridade monetária europeia deve subir os juros em 0,5 p.p. tanto em fevereiro quanto em março.
“Achamos que a recessão, se houver, será mais branda do que havíamos previsto, mas o aperto monetário pode ser um empecilho para a economia por mais tempo do que pensávamos anteriormente”, resume o economista chefe para Europa da Capital Economics, Andrew Kenningham, em relatório.
Para ele, o suporte fiscal dos governos ao setor de energia apoiou mais as economias europeias do que o previsto. Melhora na produção de bens industriais e preços reduzidos do gás também explicam o salto do quadro econômico, diz Kenningham, que espera melhoria adicional ao longo do primeiro semestre de 2023.
A “grande questão”, segundo ele, segue em como o aperto monetário do BCE vai impactar a atividade à frente. “Os dados recentes, mais a ata da reunião de dezembro do BCE, sugerem que há riscos de alta para a nossa projeção de mais 1 ponto porcentual em aumentos” de juros, completa o economista.
Para os economistas chefe e sênior para a zona do euro da Pantheon Macroeconomics, Claus Vistesen e Mel Debono, o BCE vai elevar os juros em mais 1,5 ponto porcentual até junho, com a visão dos membros que defendem mais apertos se sobrepondo a de dirigentes de orientação mais dovish por conta de um núcleo da inflação persistente – medida que exclui preços de itens voláteis como energia e alimentos.
A combinação de economia mais forte que o esperado e expectativa por um BCE hawkish tem dado suporte ao euro no mercado cambial, especialmente em comparação com o dólar. No último mês, a moeda comum já apreciou mais de 1% ante a americana e se aproxima dos níveis do período anterior ao início da guerra na Ucrânia, em 24 de fevereiro do ano passado.
Vistesen e Debono projetam contração marginal do PIB do bloco no quarto trimestre, de 0,1%. Segundo eles, ainda que o crescimento esteja em desaceleração, os riscos de recessão diminuíram.
Economista chefe do Instituto para Finanças Internacionais (IIF), Robin Brooks rejeita a tese de que a economia europeia deve ter um 2023 mais forte que o esperado, em análise que ele mesmo classifica como “fora do consenso”. Para ele, a crise de energia europeia não ficou para trás e a atividade mostra mais sinais de desaceleração, o que torna a alta do euro e a postura hawkish do BCE “difíceis de justificar”.
Ainda que os preços do gás europeu tenham caído dos níveis “insanos” de agosto, eles ainda estão bem acima do que se via antes da pandemia de covid-19, o que impacta fortemente a competitividade da indústria europeia, alerta Brooks.
“A indústria alemã está passando por uma grande mudança. Setores inteiros de produção tornaram-se inúteis e certas linhas de produtos foram fechadas para nunca mais serem reabertas. Produtos químicos e farmacêuticos são o principal exemplo”, de acordo com Brooks.
Segundo sua análise, essa reorganização da cadeia produtiva na principal economia da zona do euro cria pressões deflacionárias e contracionistas sobre a economia. Por isso, Brooks argumenta que o BCE deve parar de subir os juros, enquanto o euro deveria operar por volta de US$ 0,9, ao invés da cotação atual um pouco abaixo de US$ 1,10.
Jane Foley, estrategista de câmbio do Rabobank, também aponta para a crise energética na Europa como um “risco significativo” à economia da região e ao euro. Segundo ela, um inverno europeu mais brando, alto nível de estoque de gás e habilidade das companhias de cortar o consumo da commodity moderaram a crise nos últimos meses, mas não a solucionaram completamente.
Fonte: Valor Econômico


