Empresas afetadas pela decisão chinesa corriam nesta terça-feira (04) para garantir suprimentos dos insumos, com alguns já antecipando o risco de a China vir a restringir também as exportações de terras raras.
Especialistas industriais dizem que a medida da China — vista como retaliação contra as restrições de exportação dos EUA de produtos de alta tecnologia para as empresas chinesas — provavelmente não afetará imediatamente a produção global de semicondutores e outros produtos, em parte porque Pequim estaria prejudicando sua própria indústria de tecnologia se implementar os controles com muito rigor. Mas soou um alarme para os países que serão atingidos.
O governo da Coreia do Sul realizou uma reunião de emergência para avaliar as consequências das restrições às exportações chinesas de dois minerais, gálio e germânio, e prometeu fazer mais para diversificar suas fontes de materiais essenciais para setores cruciais, como semicondutores. O governo do Japão, por sua vez, disse que está estudando o impacto das restrições. Ambos os países possuem grandes setores de semicondutores que estariam expostos à escassez dos dois minerais.
O Ministério das Relações Exteriores da China disse que os novos controles de exportação, que começam em 1 de agosto, não têm como alvo nenhum país específico. “A China sempre esteve comprometida em manter a segurança e a estabilidade da cadeia de suprimentos global e sempre implementou medidas de controle de exportação justas, razoáveis e não discriminatórias”, disse uma porta-voz do Ministério.
Ainda assim, analistas disseram que as medidas da China, que restringem as exportações dos dois minerais, bem como dezenas de compostos relacionados, parecem ser destinadas a países como EUA, Coreia do Sul e Japão, que restringiram as exportações de semicondutores avançados e tecnologia relacionada para China.
A China extrai e exporta grandes quantidades de gálio e germânio, fornecendo matérias-primas para países como os EUA e o Japão, que os transformam em produtos de alta qualidade, que podem ser usados na fabricação de semicondutores avançados, radares militares, painéis de LED e painéis solares, veículos elétricos e turbinas eólicas. Por outro lado, a China processa outros minerais, como o cobalto, que são extraídos em outros lugares.
“A China atingiu as restrições comerciais americanas onde dói”, disse Peter Arkell, presidente da Associação Global de Mineração da China.
Alguns no setor de metais disseram temer que a China possa adotar novas barreiras às exportações de terras raras, depois de restringir os embarques há 12 anos em uma disputa com o Japão. A China é o maior produtor mundial de terras raras, um grupo de metais usados em veículos elétricos e equipamentos militares.
“Gálio e germânio são apenas alguns dos metais menores muito importantes para a gama de produtos tecnológicos e a China é o produtor dominante da maioria desses metais”, disse Arkell. “É uma fantasia sugerir que outro país pode substituir a China no curto ou mesmo no médio prazo.”
A China produz a maior parte do gálio e germânio do mundo. Em 2022, os principais importadores de produtos de gálio da China foram Japão, Alemanha e Holanda, segundo o site de notícias “Caixin”, citando dados alfandegários. Os principais importadores de produtos de germânio foram Japão, França, Alemanha e EUA.
A Comissão Europeia expressou preocupação, enquanto o ministro da Economia da Alemanha, Robert Habeck, disse que qualquer ampliação dos controles para materiais como o lítio seria “problemática”. O governo holandês disse que o efeito das novas regras dependerá de sua implementação.
Na Alemanha, maior importador europeu de metais, Wolfgang Niedermark, membro do conselho do grupo lobista industrial BDI, disse que os controles mostram o quão perigosa é a dependência que a Europa tem da China. “A Europa e a Alemanha precisam reduzir rapidamente a dependência da China” em matérias-primas importantes, acrescentou ele.
Um fabricante de semicondutores dos EUA disse que estava solicitando licenças de exportação, enquanto um produtor de germânio com sede na China disse que os preços dispararam com o aumento das consultas dos compradores.
As restrições da China são as mais recentes de uma série de medidas cada vez mais controversas relacionadas ao comércio que Pequim e Washington estão lançando à medida que cada um busca dominar as principais tecnologias com aplicações militares e industriais. Eles ampliam a pressão que outros governos e muitas empresas multinacionais já enfrentam em uma tentativa de reduzir o impacto dos crescentes riscos geopolíticos. Governos e empresas de todo o mundo já estão pressionando para retirar parte de suas cadeias de produção e suprimentos da China, enquanto algumas empresas começaram a isolar as operações na China do restante dos negócios globais.
Mais medidas de controle de exportação provavelmente virão. É provável que os EUA liberem nas próximas semanas regras finais e atualizadas relacionadas a restrições à exportação de chips e equipamentos avançados que anunciaram pela primeira vez em outubro, informou o “Wall Street Journal”.
O vice-ministro de política industrial da Coreia do Sul no Ministério do Comércio, Indústria e Energia, Joo Young-joon, disse que o impacto dos últimos controles de exportação da China provavelmente será limitado no curto prazo, mas que as incertezas permanecem. “Não está claro por quanto tempo os controles de exportação da China continuarão e a possibilidade de expansão da proibição para outros itens não pode ser descartada”, disse Joo.
O governo sul-coreano planeja diversificar ainda mais as rotas de fornecimento de materiais-chave e buscar fontes alternativas de materiais para setores que hoje são altamente dependentes de importações de países específicos, disse Joo. Também desenvolverá tecnologias de reciclagem para minerais essenciais como parte de seus esforços preparatórios, disse ele.
O anúncio da China sobre as restrições ocorreu dias antes da visita da secretária do Tesouro, Janet Yellen, a Pequim nesta semana.
“Isso parece um soco da China nos EUA — um alerta sobre o que interrupções nas cadeias de suprimentos podem fazer com a inflação, as taxas de juros e a eleição presidencial”, diz CW Chung, analista da Nomura em Cingapura.
A China pode alavancar suas restrições em discussões com Yellen, de acordo com analistas do Eurasia Group, uma empresa de consultoria de risco. A ação de Pequim também serve como um tiro de advertência “para lembrar aos países, incluindo EUA, Japão e Holanda, que a China tem opções de retaliação e, assim, impedi-los de impor mais restrições ao acesso chinês a chips e ferramentas de ponta”, escreveram analistas da Eurasia em nota aos clientes.
je são altamente dependentes de importações de países específicos, disse Joo. Também desenvolverá tecnologias de reciclagem para minerais essenciais como parte de seus esforços preparatórios, disse ele.
O anúncio da China sobre as restrições ocorreu dias antes da visita da secretária do Tesouro, Janet Yellen, a Pequim nesta semana.
“Isso parece um soco da China nos EUA — um alerta sobre o que interrupções nas cadeias de suprimentos podem fazer com a inflação, as taxas de juros e a eleição presidencial”, diz CW Chung, analista da Nomura em Cingapura.
A China pode alavancar suas restrições em discussões com Yellen, de acordo com analistas do Eurasia Group, uma empresa de consultoria de risco. A ação de Pequim também serve como um tiro de advertência “para lembrar aos países, incluindo EUA, Japão e Holanda, que a China tem opções de retaliação e, assim, impedi-los de impor mais restrições ao acesso chinês a chips e ferramentas de ponta”, escreveram analistas da Eurasia em nota aos clientes.
Fonte: Valor Econômico

