Por Sun Yu — Financial Times, de Kunshan
26/03/2023 19h13 Atualizado há 15 horas
Trabalhadores em um dos centros de exportação mais movimentados da China enfrentam dificuldades para obter emprego enquanto as perspectivas econômicas mundiais pioram e as tensões com os EUA levam fábrica a se transferirem para fora do país.
O município de Kunshan, a 50 quilômetros de Xangai, na Província de Jiangsu, costumava se gabar de oferecer salários até 30% mais altos do que as províncias menos desenvolvidas do interior, graças aos milhares de fornecedores de componentes cruciais de lá.
Com quase 1 milhão de habitantes, Kunshan é conhecido como o município mais rico da China e, só de Taiwan, tem 1.529 fabricantes orientados para exportações.
Mas as empresas de Kunshan têm feito cortes como reação à redução nas exportações, que têm caído — em termos de valor — há cinco meses consecutivos, desde outubro, uma vez que os compradores ocidentais reduziram s encomendas com a alta da inflação e a perspectiva econômica sombria.
Os problemas refletem os desafios que a economia da China, voltada para a exportação, enfrenta no momento em que o país sai de três anos de restrições combater a covid-19 e os responsáveis pela política econômica se esforçam para encontrar um motor de crescimento capaz de compensar o declínio do comércio exterior.
O número de funcionários nas fábricas encolheu e as empresas cortaram os salários em até um terço, de acordo com várias agências de empregos, enquanto os lucrativos bônus por contratação acabaram. Muitas fábricas começaram a recusar candidatos mais velhos, já que a queda nas encomendas criou um excesso de oferta de mão de obra, em uma reversão da tendência da época da pandemia.
A fraqueza do mercado de trabalho foi exacerbada porque os fabricantes taiwaneses, principais empregadores do município, têm transferido sua produção para outros países, para limitar sua exposição às tensões entre os EUA e a China. O governo do presidente americano, Joe Biden, procura garantir as cadeias de fornecimento de produtos e componentes eletrônicos críticos, como os que são montados em Kunshan, por motivos de segurança nacional, e pressiona as empresas americanas e de seus aliados a levarem suas operações de volta para seus países e a restringirem o comércio com a China.
“Kunshan deve sua ascensão ao influxo de fabricantes taiwaneses”, disse Dan Wang, analista para China do Hang Seng Bank China. “Mas hoje essas empresas se tornaram um entrave ao crescimento.”
As pesquisas oficiais registraram um leve aumento na atividade econômica nas últimas semanas, e a manufatura e as exportações subiram, em termos de moeda local, nos dois primeiros meses do ano. Mas essa recuperação ainda não chegou às empresas e aos candidatos a vagas de emprego.
Os salários pagos por fabricantes taiwaneses em Kunshan caíram para menos de 19 yuans (US$ 2,75) por hora, em comparação com os 25 yuans de um ano atrás. Em vez de pagar bônus por contratação de até 10 mil yuans (US$ 1.450), muitas fábricas começaram a cobrar taxas para examinar candidatos.
A Foxconn Kunshan, principal fornecedora taiwanesa da Apple, passou a exigir que os candidatos a cargos de começo de carreira tenham menos de 40 anos de idade, em comparação com o limite de 45 anos de um ano atrás.
“Não temos vagas para tantos candidatos”, disse Chen Jian, recrutador que trabalha com fornecedores de Kunshan.
James Gao, proprietário de um grupo de logística de Kunshan que trabalha com a Foxconn e a Pegatron, outra fornecedora taiwanesa da Apple, afirmou que as remessas caíram em pelo menos um terço no primeiro trimestre de 2023, em comparação a um ano antes.
“Antes nosso motorista tinha problemas para encontrar vaga para estacionar no porto de Xangai”, contou Gao. “Agora metade do estacionamento está vazio.”
Gao acrescentou que algumas das fábricas taiwanesas que são suas clientes e atendem principalmente marcas de produtos eletrônicos ocidentais começaram a transferir algumas encomendas para instalações no Vietnã e na Índia, pois as tensões geopolíticas as incentivaram a diversificar.
“Se antes uma fábrica de Kunshan conseguia uma encomenda de US$ 10 bilhões da Apple ou da Dell, hoje consegue o equivalente a US$ 8 bilhões e o resto vai para o Vietnã”, disse ele.
À medida que a demanda pela manufatura com margens reduzidas míngua, Kunshan começa a buscar investidores estrangeiros com demandas tecnológicas maiores e a se concentrar nas vendas locais para estimular o crescimento. A estratégia atraiu algumas empresas graças à cadeia de fornecimento consolidada de Kunshan e à sua proximidade com Xangai, o maior mercado consumidor de produtos de luxo da China e um centro de pesquisas e desenvolvimento de tecnologias.
Bernd Reitmeier, fundador da Startup Factory, uma incubadora de empresas para fabricantes europeus com sede em Kunshan, prevê que o número de seus membros crescerá este ano, já que mais empresas procuram explorar a segunda maior economia do mundo.
“O que motiva nossas empresas a virem para a China é tornar a manufatura local e vender para o mercado chinês… Como consequência, elas ficam em Kunshan”, disse Reitmeier. “Isso é diferente das empresas taiwanesas que vão se mudar.”
Mas provavelmente o influxo não será suficiente para compensar o déficit dos fornecedores de Kunshan. Em janeiro, o prefeito Chen Liyan disse que o município esperava investimentos estrangeiros de US$ 1,1 bilhão este ano, uma queda com relação ao US$ 1,7 bilhão de 2022. Chen também estabeleceu uma meta de crescimento zero para o comércio exterior em 2023, depois que Kunshan sofreu uma contração de 3% no ano passado.
Segundo uma autoridade local, que pediu para não ser identificada, “precisamos ser mais realistas em relação ao investimento estrangeiro e às projeções de comércio”, dado o ambiente econômico instável. “Os dias de crescimento rápido se foram para sempre.”
Para quem procura emprego, o quadro é sombrio. Wang Liming, um trabalhador migrante de 40 anos da província central de Henan, deparou-se com uma escassez de vagas de emprego e com salários em queda quando chegou a Kunshan este mês.
“Eu achava que o fim da covid-zero tornaria minha vida mais fácil”, disse Wang do lado de fora de uma bolsa de trabalho no centro de Kunshan. “Mas não é o caso. Tive de aceitar grandes cortes de salário para continuar empregado.” (Colaborou Andy Lin, de Hong Kong)
Fonte: Financial Times / Valor Econômico


