O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta terça-feira que é preciso “mexer com o coração do presidente do Banco Central“, Roberto Campos Neto, para que ele baixe mais os juros no ano que vem. Ele também pediu que os governadores pressionem a autoridade monetária nesse sentido. Lula fez os apelos ao discursar em evento sobre a liberação de recursos de bancos públicos para obras em Estados e municípios, no Palácio do Planalto.
“Nós temos que mexer com o coração do presidente do BC: ‘Reduz um pouco o juro, gente’. Os governadores têm que fazer pressão”, pediu.
A fala de Lula ocorre após uma tentativa de aproximação entre ele e Campos Neto mediada pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad. A “trégua retórica” ocorreu após meses de críticas de Lula à atuação do BC e em meio a um movimento da instituição para baixar a taxa Selic.
A taxa Selic atingiu 13,75% em agosto de 2022 e permaneceu assim até agosto deste ano. A partir de então, houve quedas paulatinas de 0,5 ponto percentual nas últimas três reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) e está atualmente em 12,25%.
No evento, antes de Lula discursar, o ministro da Casa Civil, Rui Costa, também pediu que o BC reduza a taxa de juros.
Apesar das críticas de Lula e de seu entorno, parte dos economistas defendia a manutenção do patamar elevado dos juros devido ao fato de que as projeções de inflação se encontravam acima do teto da meta estipulada pelo próprio governo.
No discurso, Lula voltou a defender que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) atue com vetor de crescimento da economia, por meio de empréstimos a obras.
“É preciso mudar a palavra ‘gasto’. Ela não pode ser utilizada com ‘eu vou gastar numa estrada’. Não é gasto é investimento”, afirmou Lula.
Ele disse que o BNDES é parte preponderante do desenvolvimento e do crescimento do país.
“É para isso que existe banco público, é para fazer aquilo que muitas vezes a iniciativa privada não pode fazer”, disse o presidente. “Prefeito não é bandido, governador não é bandido, se tiver as contas em dia, tem direito de ir ao banco pedir pra financiar”, afirmou.
Lula disse, ainda, que o dinheiro do BNDES não é para ser devolvido para os cofres do Tesouro Nacional.
“Na verdade, dinheiro do BNDES é para ir para empresário que quer gerar emprego e pagar salário”, disse. “E não pensem que vai ficar só nisso, não. Se Tesouro não tiver dinheiro [para novos projetos], BNDES vai pagar”, completou.
O presidente defendeu que nem tudo que se investe em custeio é gasto, por que “senão a gente fica amarrado no conceito de estabilidade fiscal”.
“Eu luto pela estabilidade fiscal, mas eu quero estabilidade social. E estabilildade social a gente consegue com geração de emprego”, afirmou
Sobre os investimentos dos bancos públicos, Lula disse desejar que eles se transformem em obras como forma de gerar dinheiro. No evento, ele anunciou financiamentos de R$ 10 bilhões para São Paulo para obras no metrô e a implantação de um trem de média velocidade entre a capital paulista e Campinas. Apoiador do ex-presidente Jair Bolsonaro, o governador Tarcísio de Freitas (PL) estava presente no evento.
“Eu só quero que esses investimentos se transformem em uma coisa concreta, num emprego, numa obra, num salário. É por isso que não pode ter medo de emprestar dinheiro para São Paulo. Se a gente ficar fazendo estatística e chorando porque está ruim, para que a gente é governo?”, questionou Lula.
Por fim, Lula comentou que o governo vai criar as condições para o Brasil crescer. “Este país pode crescer em 2024 tanto quanto em 2023. Nós temos projetos, nós temos empresários. É preciso parar de chorar e se lamentar. O país vai crescer no tamanho da nossa criatividade”, disse.
Segundo Lula, “vai aparecer dinheiro, investimento externo”. “É por isso que nós fomos para Dubai, Catar, Arábia Saudita e Alemanha. Eu nunca vi tanto amor para dar ao Brasil”, disse, ressaltando a importância de o país aproveitar a transição energética. “Se não tiver dinheiro, a gente tem que correr atrás”, defendeu.
Rui Cosa afirmou que o equilíbrio fiscal “não é antagônico” a investimentos que reduzam o “custo-Brasil”. O ministro também voltou a pedir a redução dos juros pelo Banco Central para que a economia cresça no ano que vem.
“Os pessimistas apontavam uma alta do PIB para este ano de 1%, e nós vamos crescer 3%”, disse. “Se BC ajudar com redução mais acelerada da queda de juros, nós vamos melhorar a vida das pessoas [em 2024].”
Rui Costa disse que “investimento em escolas e infraestrutura não é gasto financeiro, é reduzir o custo-Brasil”.
“Um país se desenvolve mantendo absoluto respeito ao equilíbrio fiscal e financeiro. Mas isso não é antagônico aos investimentos que buscam qualidade de vida da população”, afirmou.
Falando sobre as obras do Novo PAC, o ministro disse ter optado por “financiar Estados e municípios dentro de suas limitações de capacidade de empréstimo”
Diante de Tarcísio, ele destacou o financiamento de R$ 10 bilhões para ampliar malha metroviária e construir trem de média velocidade entre a capital paulista e Campinas. “Nós estamos dando a mão para São Paulo”, disse.
Tarcísio, por sua vez, foi instado por Lula a discursar. O presidente queixou-se com seu cerimonial pelo fato de que não havia previsão de discurso de nenhum governador na cerimônia. E convidou Tarcísio ao púlpito.
“Acho que eu fui chamado a discursar porque peguei o maior cheque”, brincou Tarcísio.
Ele lembrou que o financiamento ao trem de média velocidade “é um projeto antigo”
“Vamos ter o primeiro trem de média velocidade no Brasil. E isso estimula outras cidades a fazer o mesmo”, disse. “Estamos estudando o trem Sorocaba-SP; daqui a pouco vou bater na porta do BNDES”, afirmou.
Durante o evento, Lula e Rui Costa criticaram por várias vezes Jair Bolsonaro por não atender governadores de oposição, criando uma saia-justa para Tarcísio.
O governador, no entanto, aparentava estar confortável na cerimônia e não esboçava reação no momento das críticas de Lula e Rui Costa.
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Presidente Lula — Foto: Cristiano Mariz/Agência O Globo
Fonte: Valor Econômico


