/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2024/l/k/KcqfMAQMWjFab9BcsTHQ/foto05pol-202-nisia-a11.jpg)
Após a turbulência enfrentada nos últimos meses, com a ofensiva do Centrão pelo seu cargo, uma epidemia de dengue sem precedentes e a cobrança pública do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a ministra da Saúde, Nísia Trindade, vive uma fase de redenção junto ao Palácio do Planalto. Por orientação de Lula, a “Nísia 2.0” busca uma marca que a torne popular e dê visibilidade aos dados positivos de sua gestão.
Com a consultoria informal do marqueteiro do presidente, o publicitário Sidônio Palmeira, de assessores e profissionais de marketing, a ideia inicial é agregar à sua imagem o “conceito de família”, por meio de uma das políticas do ministério. Pesquisas internas mostraram que o programa com mais aderência junto à população, em todas as faixas de renda, é o Farmácia Popular, de oferta gratuita de medicamentos na rede credenciada.
Uma fonte do governo revelou ao Valor que o projeto de Lula para Nísia tem como inspiração o legado de Fernando Haddad no Ministério da Educação (MEC) em seus mandatos anteriores – hoje o auxiliar comanda o Ministério da Fazenda. Haddad conduziu uma ampla reforma do ensino superior. Com programas como o Prouni, o número de estudantes matriculados em universidades saltou de 3,5 milhões em 2003 para 6,4 milhões em 2010, segundo o Censo da Educação Superior.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2024/s/o/ZDkmweTAienjRwlwDE7w/arte05pol-201-nisia-a11.jpg)
A mesma fonte relatou que, após ouvir Nísia enumerar realizações de sua gestão, o presidente questionou por que ele não conseguia enxergar tudo aquilo e cobrou visibilidade a sua gestão. Ele ainda a desafiou a melhorar a comunicação do ministério. Entre outras missões, determinou que a ministra viajasse mais pelo país para divulgar regionalmente ações da pasta.
Esta fonte testemunhou cenas de Lula repetindo com Nísia o mesmo comportamento adotado com Haddad no primeiro mandato. Muitas dessas cenas a bordo do avião presidencial, após agendas externas nos Estados com populares.
Após observar o desempenho da auxiliar no palanque, o presidente repetiu lições que deu para Haddad sobre a linguagem corporal e os discursos. Uma sugestão, por exemplo, é não despejar informações sobre a plateia; ela deve escolher um ou dois programas para destacar a fim de que as pessoas assimilem os recados.
Se o Prouni, que oferecia bolsas nas universidades privadas em troca de isenção fiscal, tornou-se uma das marcas de Haddad, a equipe de Nísia analisa se o mesmo poderia ocorrer com o Farmácia Popular, que ao completar 20 anos, ampliou o cardápio de ofertas.
Se inicialmente apenas remédios para asma, hipertensão e diabetes eram oferecidos com gratuidade, a lista hoje contempla medicamentos para colesterol, doença de Parkinson, glaucoma, rinite, osteoporose e contraceptivos, que antes eram ofertados com desconto. O orçamento do programa foi recomposto e 811 municípios com perfil de vulnerabilidade social, atendidos pelo Mais Médicos, foram priorizados para novos credenciamentos – 94,4% nas regiões Norte e Nordeste.
O divisor de águas na gestão da ministra foi a reunião ministerial de 18 de março, quando ela enfrentava um turbilhão de problemas, e ouviu de Lula, na presença dos colegas, uma cobrança enfática sobre a crise dos hospitais federais no Rio de Janeiro e o relacionamento com o Congresso, motivo de queixas do Centrão. Em reação, a ministra emocionou-se, chorou, reclamou do comportamento misógino de alas do parlamento, e foi amparada pela primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja.
A principal crise naquele momento, todavia, era o crescimento exponencial dos casos de dengue, que gerou números inéditos da epidemia, como as mais de 3 mil mortes e mais de 5 milhões de casos confirmados até maio, recordes da série histórica iniciada em 2000.
A iniciativa da ministra de anunciar que o governo ofereceria a vacina contra a dengue, a Qdenga, ao público foi interpretada no Planalto como um tiro no pé porque as doses fabricadas pelo laboratório japonês eram insuficientes para atender os brasileiros. A informação de que apenas crianças e adolescentes de 10 a 14 anos seriam imunizados recaiu como um balde de água fria na população e respingou na popularidade de Lula.
Desde então, todavia, a ministra reagiu. A primeira medida foi implementar um choque de gestão no ministério, com a demissão de secretários, e até da chefe de gabinete, Márcia Motta, que era um quadro de sua confiança da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Para o lugar dela foi José Guerra, indicado pelo secretário-executivo da pasta, Swedenberger Barbosa. “Berge”, como é conhecido, trabalhou com Nísia na Fiocruz, mas também é ligado a Lula, de quem foi assessor especial nos mandatos anteriores.
Até o momento, uma das principais conquistas da pasta foi retirar o Brasil da lista dos 20 países com mais crianças não vacinadas no mundo. Segundo o relatório da Unicef/OMS, divulgado em julho, o número de crianças que não receberam nenhuma dose da DTP1 (difteria, tétano e coqueluche) caiu de 418 mil em 2022 para 103 mil em 2023.
Outro dado relevante é que, em meio às campanhas de desinformação que levaram ao risco de reintrodução no país da poliomielite, a cobertura vacinal contra a “paralisia infantil” saltou de 71,2% em 2022 para 85,5% em 2023.
Atendendo a um pedido expresso de Lula, a ministra reestruturou o programa Mais Médicos, que tinha 13 mil profissionais em atuação no fim de 2022, e agora dispõe de mais de 25 mil, um aumento de 92% em 1 ano e meio.
Em ano de eleições municipais, o Valor questionou o presidente do Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (Conasems), Hisham Mohamad Hamida, sobre o desempenho da ministra na visão dos prefeitos e o relacionamento com a pasta. Para Hisham, o problema crônico, mas que extrapola qualquer governança, é o subfinanciamento da saúde. Ele criticou o congelamento de R$ 4,4 bilhões do orçamento da pasta imposto pelo Ministério do Planejamento.
Hisham elogiou a iniciativa da ministra de criar o Programa Nacional da Redução de Filas para cirurgias eletivas, que haviam sido suspensas na pandemia. Explicou que o programa deu previsibilidade na gestão orçamentária. Antes, pelo modelo de mutirões, às vezes o recurso esgotava e era preciso desmobilizar as equipes antes do previsto.
Dados do ministério mostram que, em 2023, a fila foi reduzida em 60%, com a realização de 4,2 milhões de cirurgias. No ano anterior, foram 3,5 milhões. Os procedimentos mais demandados são cirurgias oftalmológicas, de hérnia e retirada da vesícula.
O presidente do Conasems ainda saudou a atualização de repasses para a rede de urgência e a melhoria do diálogo na relação tripartite (municípios, Estados e União). Em contrapartida, reclamou do descumprimento de acordo em relação aos repasses complementares para pagamento do piso da enfermagem, que deveriam sair de um fundo extraordinário, mas estão saindo do fundo comum da atenção básica à saúde.
Ele ressalvou, ainda, que apesar de alguns avanços pontuais, os gargalos continuam enormes: ainda faltam médicos em municípios em locais remotos e nas periferias. Ele cobrou a falta de um complexo industrial farmacêutico para fabricação de insumos e questionou o papel dos laboratórios públicos diante dessa lacuna.
Fonte: Valor Econômico