O leilão de Certificados de Potencial Adicional de Construção (Cepacs) da Operação Urbana Faria Lima, realizado nesta terça-feira, 19, atraiu algumas das principais incorporadoras e gestoras de recursos do mercado imobiliário paulistano. Entre elas estão JHSF, Even, RFM, HBR, Jacarandá Capital e São José, conforme apurou o Estadão/Broadcast. Outras ficaram de fora por causa da insegurança jurídica com o vaivém de ações judiciais às vésperas do certame.
O Estadão/Broadcast apurou que a JHSF deve usar os títulos para ampliar a área do Shops Faria Lima, centro comercial com lojas de grifes e restaurantes em construção na esquina da Av. Brigadeiro Faria Lima com a Rua Leopoldo Couto de Magalhães. O complexo tem inauguração prevista para daqui a dois anos, aproximadamente.
Já a HBR arrematou 1,8 mil Cepacs, o que representou um desembolso em torno de R$ 32 milhões, para tirar do papel um prédio de escritórios na Rua Chipre, em parceria com um sócio.
A gestora Jacarandá tem uma área equivalente a dois quarteirões na região do Largo da Batata, onde planeja criar um novo complexo imobiliário. A Even e a sua investida RFM são voltadas ao mercado residencial de alto padrão, que se encaixa bem nos entornos da Faria Lima. A Even tem apostado também em empreendimentos multiúso de grande porte, como foram os casos dos complexos com o Fasano Itaim e o Faena. O último, em obras.
A São José, por sua vez, confirmou a compra dos títulos para regularizar o residencial de luxo Saint Barths, no Itaim Bibi — alvo de embargo e multa no ano passado justamente por não ter apresentado os Cepacs devidos.
Ao todo, foram vendidos 94,8 mil títulos no leilão, o equivalente a 57,6% da oferta disponível. Os títulos saíram pelo valor mínimo da oferta, R$ 17,6 mil. Com isso, o certame movimentou R$ 1,668 bilhão, o que representa a maior arrecadação já registrada em leilões do gênero na cidade.
Entre as corretoras, a Ágora liderou as ordens de compra, movimentando R$ 666 milhões. Em seguida vieram Genial, com R$ 443 milhões; BTG Pactual, com R$ 430 milhões; e XP, com R$ 69,1 milhões.
Insegurança jurídica afastou investidores
O ambiente nos dias que antecederam o leilão causou insegurança jurídica e deixou de fora parte dos investidores. “Eu acho que a insegurança jurídica afastou uma parte dos compradores”, comentou o presidente da consultoria CBRE, Adriano Sartori.
Opinião semelhante foi compartilhada pelo diretor de Transações da Biswanger, Sérgio Belleza. “Com uma taxa de juro de 15% e o cenário político, já havia uma ‘intraquilidade’ grande. E aliado a isso, tivemos insegurança jurídica no fim de semana”.
Pelo lado positivo, agentes do mercado respiraram aliviados pelo fato de não ter havido ágio no leilão, uma vez que os títulos já tinham um valor considerado alto. Uma disparada nos preços poderia colocar em risco a viabilidade dos empreendimentos.
O problema, na visão de investidores, foi a liminar concedida na sexta-feira, 15, pelo Tribunal de Justiça, suspendendo um dispositivo legal que conferia um bônus de construção para cada Cepac, conforme foi aprovado há um ano pela Câmara Municipal e sancionado pela Prefeitura.
A liminar atendeu contestação do Ministério Público que enxergou nesse bônus um mecanismo irregular, com poder de causar perda de arrecadação. Só no fim da tarde de segunda-feira, 18, véspera do certame, a liminar foi derrubada, após pedidos de reconsideração da Prefeitura e da Câmara Municipal, que defenderam a legalidade do processo de revisão da legislação.
O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, considerou “positivo” o resultado do leilão, apesar das sobras de títulos e da ausência de ágio. Entretanto, admitiu que o resultado poderia ter sido melhor se não fosse a insegurança jurídica.
“A gente não pode dizer que não foi um leilão que teve um grande sucesso. Esse foi um valor bastante elevado”, afirmou Nunes, em entrevista à imprensa, na B3. “Mas, talvez, pudesse ter sido um resultado até melhor”, acrescentou o prefeito.
Nunes criticou o Ministério Público por ter apresentado um pedido de liminar contestando uma legislação municipal aprovada há quase um ano. “Temos de ter segurança jurídica. A lei foi aprovada em 2024. Naquele momento já houve vários ataques do MP, tiveram decisões colegiadas pelo Tribunal de Justiça que mantiveram a lei do jeito que ela está”, afirmou.
Vitrine
O diretor-presidente do BB-BI, Geraldo Morete, também elogiou o resultado do leilão a despeito dos solavancos nos dias anteriores. O BB-BI foi o coordenador-líder da oferta na Bolsa. “O leilão de hoje pode ser considerado ruim? Eu acho que não, uma vez que o valor atingido foi o maior de todos”, enfatizou Morete.
O banco quer, inclusive, aproveitar a “vitrine” proporcionada pela cidade de São Paulo e fechar mais contratos de ofertas de Cepacs com prefeituras ao redor do País.
Fonte: Estadão