Um dia após o Banco da Inglaterra (BoE) ter promovido uma intervenção no mercado de Gilts, os títulos da dívida britânica, os juros globais voltaram a subir e apagaram parte da queda observada na quarta-feira. Enquanto o retorno do Gilt de dez anos saltou para 4,1425%, o rendimento da T-note de dez anos subiu para 3,788%.
Parte do aperto nos juros globais ontem se deu após os pedidos de seguro-desemprego nos Estados Unidos ficarem bem abaixo das expectativas. A leitura de que a economia americana continua aquecida tem motivado o mercado a projetar juros ainda mais altos à frente nos EUA e por um período prolongado.
Na medida em que um aumento do hiato no mercado de trabalho foi uma das pré-condições necessárias mencionadas pelo presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, para apoiar uma desaceleração no ritmo de alta de juros, “não é surpreendente que a curva de juros tenha reagido a esses dados”, aponta a equipe de estrategistas de renda fixa do J.P. Morgan em relatório enviado a clientes.
“Navegar a economia em direção a um caminho mais sustentável exige taxas de juros mais altas e uma redução no ritmo da atividade econômica e do mercado de trabalho”, afirmou a presidente da distrital de San Francisco do Fed, Mary Daly, ao participar de evento em universidade. Ela, porém, ressaltou que induzir uma recessão profunda “não parece garantido pelas condições atuais, nem é necessário para atingir nossos objetivos”.
Já a presidente da distrital de Cleveland do Fed, Loretta Mester, apontou que o banco central americano tem de fazer o que for preciso para garantir a estabilidade de preços. “Vamos continuar aumentando as taxas de juros e segurá-las até a inflação cair”, disse.
Na medida em que os juros globais seguem em trajetória de alta e dão sustentação a um aperto adicional das condições financeiras, os mercados acionários continuam a ser bastante afetados. Em Wall Street, o índice Dow Jones terminou o dia em queda de 1,54% e o S&P 500 perdeu 2,11%. Já o índice eletrônico Nasdaq, mais sensível ao aumento na taxa de depósito, encerrou o dia em queda de 2,84%. Do outro lado do Atlântico, o índice pan-europeu Stoxx 600 recuou 1,67% e o índice FTSE 100, da Bolsa de Londres, perdeu 1,77%.
“Superficialmente, as ações recentes do mercado são assustadoras, mas isso é de fato o que é esperado de um ‘bear market’ [nível técnico definido por uma queda de mais de 20% em relação ao pico recente]”, afirma o diretor de investimentos (CIO) do Julius Baer, Yves Bonzon, em nota. “A queda dos últimos dias é, paradoxalmente, um movimento na direção correta. A última coisa de que precisamos é mais um rali de curto prazo para adiar o fim da crise.”
O cenário externo nebuloso se soma, ainda, às questões internas, na medida em que o primeiro turno das eleições se aproxima e aumenta o tom cauteloso dos negócios no mercado local. O Ibovespa encerrou o pregão em queda de 0,73%, aos 107.664 pontos, menor nível desde 5 de agosto. Já no mercado de câmbio, o dólar subiu 0,87%, para R$ 5,3950.
“Um Fed mais conservador e um Copom neutro, juntamente com o dólar forte e termos de troca fracos, provavelmente exercerão um viés de real mais fraco. Além disso, a aproximação das eleições presidenciais e a volatilidade dos ativos provavelmente devem prejudicar o desempenho do real”, dizem os estrategistas do Société Générale em nota enviada a clientes. O banco francês espera que o dólar seja negociado entre R$ 5,17 e R$ 5,48 no intervalo de um mês à frente.
A volatilidade do câmbio pode se mostrar ainda mais elevada no pregão de hoje, ao se ter em vista não somente a reta final das eleições, mas também a formação da Ptax de fim de mês. A taxa é utilizada pelos investidores como referência na liquidação de derivativos e, sempre no último pregão de cada mês, há uma briga entre os comprados e os vendidos em dólar na formação da Ptax, que costuma causar movimentos ainda mais voláteis no mercado de câmbio.
Se a dinâmica global foi o fator predominante tanto na bolsa quanto no câmbio, os juros futuros destoaram desse comportamento e exibiram queda firme ontem, na esteira de declarações do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. “Na curva do Focus, tem um corte [na Selic] em junho e, usando esse corte em junho, a gente mostra que a gente atinge os objetivos. Não tem grande diferença. O mercado chegou a ter curva com corte um pouquinho mais cedo, mas a gente entende que é uma diferença pequena”, disse Campos durante entrevista coletiva.
Profissionais de renda fixa apontaram que a declaração do dirigente ajudou a tirar um pouco do risco de a Selic ficar parada por ainda mais tempo. “Deu para notar que a curva só cedeu, mas não ganhou inclinação”, disse um operador. A taxa do DI para janeiro de 2024 caiu de 12,91% para 12,88%.
Fonte: Valor Econômico