Por Adriana Cotias — De São Paulo
20/03/2024 05h02 Atualizado há 5 dias
Eduardo Camara Lopes, ex-executivo-chefe de investimentos (CIO) da Itaú Asset Management, se uniu a Denis Jungerman, que comandou no Brasil o fundo de pensão do Estado de Quebec, Canadá (CDPQ), para criar a Jubarte Capital. Em vez de contar com um capital inicial (“seed”) de distribuidores locais, como se viu num passado recente, a nova gestora de recursos ganhou na largada a chancela do historiador econômico Niall Ferguson, pesquisador da Universidade de Oxford, que entrou como sócio.
Entre as atividades que desenvolveu ao longo do tempo, o historiador escocês presta assessoria para gestores sobre riscos geopolíticos e mudanças de comportamento das economias, tem uma consultoria macro que reúne alguns “hedge funds” globais em que investe com clientes.
A Jubarte nasce com uma vertical de fundos líquidos, com um multimercado macro global, e outra de soluções destinada ao universo dos ativos reais. Nesta frente, o plano é atrair o capital externo para temas de interesse crescente do público institucional como energia renovável, descarbonização e segurança alimentar.
A criação da asset vem depois de dois anos consecutivos de sangria no setor de gestão de recursos, com resgates líquidos de R$ 236,5 bilhões. Ainda que alguma reação tenha aparecido no primeiro bimestre de 2024, com captação líquida de R$ 85,0 bilhões, o fluxo foi concentrado em fundos de renda fixa, segundo a Anbima. Os multimercados tiveram saídas de R$ 22,4 bilhões neste ano e de R$ 251,1 bilhões em 2022 e 2023.
Embora este seja um momento mais difícil para se captar, é o ideal para se investir em qualquer classe de ativos, diz Lopes. “Por definição, a abundância de liquidez leva à distorção de preços. Os [títulos] incentivados [com benefício fiscal para a pessoa física] no Brasil vêm sugando o dinheiro que procura os mesmos ativos.” Como consequência, os demais ficaram mais largados.
A visão cíclica para o negócio vem na ressaca da multiplicação de gestoras de recursos que se viu na fase de redução da Selic, de 14,25%, no fim de 2016, até os 2% ao ano, durante a pandemia de covid-19. Depois, veio a escalada dos juros, de volta para os dois dígitos, recomeçando a cair em agosto até os 12,25% atuais – e com chances de baixar mais um degrau na reunião de hoje do Comitê de Política Monetária (Copom). “A gente vem pensando na iniciativa há algum tempo, mas vinha olhando para o ciclo econômico também.”
É essa mentalidade que a dupla Lopes e Jungerman coloca na gestão de recursos de terceiros. A proposta é conectar o investidor local com o mundo e, ao mesmo tempo, o estrangeiro com o Brasil. “Há uma oportunidade única para o país e para o negócio. De um lado, tem o mercado vindo de um momento de aperto de liquidez, e provavelmente, nos próximos dois anos essa liquidez vai voltar para o sistema, aqui e lá fora. E o Brasil tem os ativos que o mundo quer comprar.”
No multimercado, Lopes diz que vai privilegiar a diversificação global, buscando oportunidades nas flutuações das diversas economias, um pegada de internacionalização que desenvolveu nos cinco anos que passou na Itaú Asset – ele deixou a gestora um ano atrás e acabou de cumprir o período de não competição contratual.
A Jubarte montou um time sênior, afirma Lopes, parte vinda do próprio Itaú, a exemplo do economista americano Benjamin Mandel e de Milena Landgraf Tudisco, que era a chefe de alocação global. João Paulo Moura, que foi gestor de risco no Itaú BBA e estava na Mauá é o sócio responsável por operações. No total, são 16 profissionais na equipe.
Na frente de ativos reais, a ideia é buscar grandes projetos e achar o dinheiro certo para financiá-los, tipicamente os fundos soberanos e demais investidores institucionais, como fundações e “endowments” (fundos patrimoniais constituídos para captar e gerir doações).
Lopes diz haver interesse do estrangeiro em temas ligados à sustentabilidade, mas com poucos dedicados a trazer capital de qualidade. “Empresas, governos e investidores, há um grande comprometimento do ponto de vista de capital intelectual e financeiro para o tema da mudança climática e o Brasil é parte da solução. A gente tem quase obrigação de possibilitar o encontro desse capital com as oportunidades no país.”
O Brasil tem tamanho para suportar novos projetos e há grupos locais de altíssima qualidade, acrescenta Jungerman. “O universo de investidores institucionais globais é grande e esse é um dinheiro paciente, mas poucos nomes como o CDPQ vêm fazendo esse trabalho aqui.”
Embora a execução dos investimentos no multimercado macro e na economia real seja muito distinta e requeira times especializados, Jungerman diz que “naquilo que é fungível, na inteligência, há sinergias que beneficiam os dois lados”, afirma. “Tem asset que nasceu no universo dos líquidos e vice-versa. A gente sabe o desafio de fazer os dois, mas há vantagens em desenhar esse modelo desde o começo. Uma combinação bem estruturada tende a ser ganhadora.”
Um exemplo dessa interação, acrescenta Lopes, é a análise sobre os impulsos que o governo chinês pretende dar à economia, com uma meta de crescimento de 5% e um projeto de urbanização popular agressivo, tema de discussão com Ferguson. “O governo tendo mais controle para onde vai o dinheiro direciona o crescimento. Nós [Brasil], como exportadores de commodities, nos beneficiamos no macro, no câmbio, ações, nos juros”, afirma. “Com essa combinação, há apetite para ativo real, uma série de investimentos pode se beneficiar, desde a logística no mundo dos alimentos, portos, tudo se conversa.”
A área de soluções de capital vai ser um laboratório que a depender do desempenho pode ser base para um fundo de crédito em 2025, diz Jungerman. “A economia e os mercados são cíclicos e os produtos e as oportunidades podem ser mais ou menos atraentes dependendo do período. Mas este não é um negócio construído no tranco, para dar uma porrada em dois ou três anos, é um projeto de vida profissional. Em cada área, vamos buscar oportunidades escaláveis, que não estejam super ocupadas.”
O nome Jubarte faz alusão à baleia, um animal gigante, presente em todos os mares e atento aos ciclos de migração. Resume a ambição de olhar para alternativas de investimentos escaláveis, diz Lopes. “É óbvio que é desafiador. Se a gente quisesse o quentinho na sombra seria outro jogo. Compramos um tíquete só de ida, é uma viagem sem volta. Tudo que fiz culminou para estar aqui.”
Fonte: Valor Econômico