Por Anaïs Fernandes — De São Paulo
12/06/2023 05h00 Atualizado há 5 horas
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Grupos mais jovens, menos escolarizados e de renda mais baixa são os principais responsáveis pela queda recente da taxa de participação agregada no mercado de trabalho brasileiro. É o que apontam pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre) em estudo antecipado ao Valor.
A taxa de participação mede a população economicamente ativa – pessoas ocupadas ou procurando emprego, isto é, a força de trabalho – como proporção da população em idade de trabalhar, que no Brasil inclui aqueles com 14 anos ou mais.
Após forte queda durante a pandemia, quando foi de 63,4% em fevereiro de 2020 para 56,7% no trimestre até julho, a taxa de participação no mercado de trabalho brasileiro vinha se recuperando. Chegou a 62,7% em setembro de 2022, ainda abaixo do pico de 63,8% em 2019, mas voltou a cair depois do terceiro trimestre do ano passado, recuando para 61,3% no primeiro trimestre de 2023 – 61,4% no trimestre móvel até abril.
“Essa queda da taxa de participação pode não só atrapalhar a leitura da taxa de desemprego como termômetro da geração de empregos pela economia”, escreve Luiz Guilherme Schymura, diretor do FGV Ibre, na carta mensal de junho, “como pode também reduzir os efeitos benéficos, em termos de PIB e de bem-estar das famílias, de melhoras no funcionamento do mercado de trabalho.”
A redução da taxa de participação afeta a taxa de desemprego. Para um mesmo número de pessoas ocupadas, quando a taxa de participação cai, a taxa de desemprego também torna-se “artificialmente” mais baixa, podendo levar as pessoas a entenderem que o mercado de trabalho está mais aquecido do que de fato está.
“Quando comparamos com outros indicadores, o desemprego está baixo, mas a economia não está tão ‘ativa’ como no passado”, diz Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador do FGV Ibre responsável pelo estudo com Fernando Veloso, Janaína Feijó e Paulo Peruchetti.
A taxa de desemprego efetiva medida pelo IBGE estava em 8,8% no primeiro trimestre deste ano. Considerando uma taxa de participação na média de 2018 a 2019, de 63,4%, seriam 3,4 milhões de trabalhadores a mais na força de trabalho. Se todo esse contingente decidisse procurar emprego e não encontrasse, o desemprego seria, na verdade, de 11,4%, estimam os pesquisadores. “É um cenário extremo, mas a indicação é de que, provavelmente, o desemprego deveria ser maior”, diz Veloso.
A queda da taxa de participação também está relacionado à redução da população economicamente ativa. “A força de trabalho se recuperou e atingiu o nível pré-crise [pandemia], mas a gente não recuperou a tendência pré-crise”, diz Barbosa Filho, em referência à queda desde o fim do ano passado.
“Quando falamos que a taxa de participação caiu, não é que a população economicamente ativa (PEA) cresceu menos que a população em idade de trabalhar, é que a própria PEA está caindo, o que é ainda mais forte. Exceto na pandemia, isso nunca aconteceu na série iniciada em 2012”, observa Veloso, explicando que quedas na força de trabalho, geralmente, ocorrem por questões demográficas.
Em uma segunda hipótese, se a força de trabalho estivesse, no primeiro trimestre de 2023, no ponto sugerido pela sua tendência de crescimento, a taxa de desemprego poderia ter atingido 12,1% em março de 2023, se todos os 4,3 milhões de trabalhadores a mais procurassem emprego e não encontrassem, estima o FGV Ibre.
“A taxa de desemprego tem sido pouco para explicar o mercado de trabalho. Se você olhar só para ela, não vai entender”, diz Schymura.
Outra forma de analisar o mercado de trabalho é observar a relação entre a população ocupada e a população em idade de trabalhar, o que o IBGE chama de nível de ocupação. Com a taxa de participação em queda, essa ótica ganha relevância, segundo Barbosa Filho.
O nível de ocupação atingiu 57,2% no terceiro trimestre de 2022, ainda abaixo do pico de 58,5% em 2013, mas se recuperava do vale de 48,5% entre junho a agosto de 2020, até que também começou a apresentar queda.
“Isso mostra que, apesar de a taxa de desemprego estar baixa, o mercado de trabalho está menos aquecido do que a gente poderia imaginar”, afirma Barbosa Filho.
O nível de ocupação pode ser separado em dois componentes: a taxa de emprego (população ocupada em relação à força de trabalho) e a taxa de participação. Elevações da taxa de emprego podem não significar maior proporção de pessoas ocupadas, caso a participação caia, exatamente o observado no Brasil nos últimos anos.
Entre o quarto trimestre de 2019 e o primeiro de 2023, houve um recuo de 0,4 ponto percentual no nível de ocupação, de 56,5% para 56,1%. Na verdade, a taxa de emprego, ponderada pelo seu peso, teria contribuído para elevar o nível de ocupação em 1,4 ponto percentual no período, mas a taxa de participação deu uma contribuição negativa de 1,8 ponto percentual, resultando na queda de 0,4 ponto percentual do nível de ocupação, explicam os pesquisadores.
Segundo eles, os grupos que mais contribuíram para a queda da taxa de participação nos últimos anos foram os de baixa escolaridade e de menores faixas de renda.
Barbosa Filho nota que havia um movimento mais de longo prazo de queda da participação desses grupos. Mas a queda extrema foi, fundamentalmente, ligada aos efeitos da pandemia no mercado de trabalho, destaca Veloso. Mais recentemente, a saída mais intensa desses grupos do mercado de trabalho, sobretudo a partir do fim de 2022, pode estar ligada ao grande aumento do valor real do Bolsa Família, apontam.
Da queda na taxa de participação entre o quarto trimestre de 2019 e o primeiro de 2023, que foi de 2 pontos percentuais, a contribuição dos grupos “sem instrução e com fundamental incompleto” e “fundamental completo e médio incompleto” foram negativas em 2,4 pontos percentuais e 1,03 ponto, pela ordem. Já os grupos de “médio completo e superior incompleto” e “superior completo” deram contribuições positivas de 0,22 e 1,22 ponto percentual, respectivamente.
Os cálculos levam em consideração o comportamento da taxa de participação dentro de cada grupo educacional – todos registraram queda no período – e o peso de cada grupo na economia.
Na decomposição por renda no período, as três faixas inferiores (até R$ 1.300) deram uma contribuição negativa para a taxa de participação agregada, enquanto as quatro faixas superior deram contribuição positiva.
Olhar apenas o comportamento da taxa de participação de cada grupo é insuficiente, reforça Veloso, e isso fica claro na abertura por faixa etária.
A taxa de participação de quem tem mais de 60 anos, ao redor de 20%, caiu 0,28% entre o quarto trimestre de 2019 e o primeiro de 2023. “A queda nessa grupo específico é muito grande, de quase 10%”, observa Barbosa Filho. “Mas isso é em relação a ele mesmo. Se a gente quiser explicar o todo, temos de levar em consideração que o peso desse grupo é baixíssimo, ou seja, eles afetam relativamente pouco o agregado”, acrescenta Veloso.
A participação está em queda para todos os grupos etários, mas, ao combinar os pesos relativos, os pesquisadores observam que a faixa de 60 anos ou mais dá uma contribuição líquida positiva de 0,23 ponto percentual para a taxa de participação total da economia, enquanto o grupo de 18 a 24 anos oferece uma contribuição negativa de 1,07 ponto, e o de 30 a 39 anos, de 0,86 ponto.
Se a taxa de participação menor no mercado de trabalho se mostrar um fenômeno mais permanente, isso pode ter implicações para o PIB potencial do país, alerta Veloso. Devolver essa taxa de participação a padrões anteriores, diz Barbosa Filho, pode exigir passar por investimentos em qualificação e requalificação da mão de obra.
Fonte: Valor Econômico