Proibidos no Brasil, os fundos negociados em bolsa (ETFs) de gestão ativa entraram na agenda deste ano da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), mas a regra depende de consulta pública e deve demorar. Enquanto isso, a J.P. Morgan Asset Management resolveu se antecipar e lança hoje no país Brazilian Depositary Receipts (BDRs) do ETF JEPI (JPMorgan Equity Premium Income), o maior do mundo na modalidade. “Acreditamos que vai ser um divisor de águas para a indústria por ser o primeiro ETF ativo do Brasil”, afirmou ao Valor Giuliano De Marchi, CEO da gestora para a América Latina.
Para ele, o início do afrouxamento monetário no país e a expectativa de maior volatilidade com as eleições presidenciais tornam o cenário mais favorável para o produto. “O brasileiro deve aumentar sua diversificação e é um ótimo momento para investir em empresas globais”, disse Travis Spence, chefe mundial de ETFs na J.P. Morgan Asset, que fica baseado em Londres. A ideia da empresa, a maior em ETFs de gestão ativa, com mais de cem produtos, é trazer toda a sua linha para o Brasil.
Somente os ETFs passivos são permitidos aqui, ou seja, aqueles que replicam a composição de algum índice, como o Ibovespa ou outro que reúne títulos públicos indexados à Selic, por exemplo. No caso dos fundos ativos, o gestor pode aumentar ou diminuir os pesos dos papéis em carteira, conforme o desempenho de cada um. Funcionam como se fossem fundos mútuos comuns, mas com a diferença de terem as cotas negociadas em pregão, regime tributário diferente e taxa de administração em geral mais baixa, em torno de 0,35% ao ano.
“O crescimento dos ETFs tem sido uma das maiores mudanças estruturais na indústria de gestão de investimentos nos últimos 30 anos”, comentou Spence. Segundo ele, a taxa de crescimento do segmento em geral é de 20% ao ano, enquanto a dos ETFs ativos separadamente corresponde ao dobro disso nos últimos cinco anos. “Estamos vendo ETFs ativos realmente se tornando maioria nos EUA.”
Os BDRs, por sua vez, são certificados negociados na B3Cotação de B3 que representam ações ou ETFs negociados no exterior. Na prática, funcionam como se o investidor estivesse de fato entrando no JEPI. “A experiência do cliente será exatamente a mesma.” O fundo aloca em ações que compõem o índice S&P 500, combinadas a operações com contratos de opções, o que garante rendimentos mensais aos cotistas entre 7% e 9% ao ano em dólares. Em 2025, foram distribuídos 8,33%.
O JEPI informou em dezembro que tinha em carteira Alphabet, Johnson & Johnson, Amazon, Nvidia e Visa, entre outros papéis, com um total de US$ 44 bilhões em ativos. O retorno médio total desde o lançamento em 2020 fica em torno de 12% ao ano. A volatilidade em 2025 foi de 13,39%, frente à taxa de 20,66% do S&P 500. Inicialmente, o JEPI estará disponível no Brasil apenas para investidores qualificados, mas até o fim do ano a J.P. Morgan Asset fará ajustes em seus sistemas para liberar o ETF para clientes em geral.
No mundo, os ETFs somaram US$ 19,7 trilhões em patrimônio líquido, segundo dados da J.P. Morgan, sendo 68% (US$ 13,4 trilhões) nos Estados Unidos no ano passado. A captação líquida foi positiva em US$ 1,229 trilhão no mercado americano, enquanto os fundos mútuos tiveram perda de US$ 613 bilhões. Do total, cerca de US$ 1 trilhão foram para os passivos. Globalmente os ativos também passaram os passivos em número de fundos, com 2,6 mil do total de 4,8 mil.
Spence enumera as vantagens dos ETFs: carteira transparente, liquidez intradiária, por ter a cota negociada em pregão, e valor da cota também claro. Ele compara esses fundos a um streaming de música, em que o usuário quer construir sua própria playlist. “É como o Spotify da indústria de gestão, porque é muito fácil operar os investimentos para todos os perfis”, avalia ele, que vê um crescimento na busca de institucionais pelos ETFs.
Mas, enquanto nos Estados Unidos a classe responde por 30% da indústria de fundos, no Brasil a fatia é de apenas 1%, com R$ 80 bilhões em ativos. De acordo com De Marchi, as altas taxas de juros fazem com que o país seja muito concentrado em renda fixa. Além disso, prossegue ele, não há taxa de rebate para assessores de investimento, porque são negociados em bolsa, o que também reduz as recomendações. “O mercado começará a crescer à medida que mais ETFs estiverem disponíveis”, acrescenta Spence.
De Marchi cita que a indústria brasileira de fundos mútuos corresponde a 3% da global, “o que significa que 97% das oportunidades estão fora do país”. A J.P.Morgan Asset tem hoje sob gestão cerca de US$ 4 trilhões. No Brasil, nos últimos três anos, registrou crescimento de 50% ao ano, mas o peso do país no negócio mundial não chega a 1% (a gestora/ não divulga o volume em reais sob gestão). “México e Chile são maiores e, na minha opinião, isso não faz sentido. O Brasil precisa ser muito maior do que todos esses mercados. O próximo passo nesse processo de desenvolvimento é se tornar mais capaz de acessar mercados globais.”
Fonte: Valor Econômico