O Itaú Private Bank manteve em nível neutro todas as recomendações táticas de suas carteiras-modelo na reunião de setembro do Comitê de Investimentos, avaliando que não houve mudança suficientemente clara no balanço de riscos para justificar alterações de posicionamento. A decisão vale para os dois conjuntos de carteiras do banco: as internacionais, montadas em dólar e distribuídas em quatro perfis de risco, e as locais, em reais.
Nas carteiras internacionais, o banco segue neutro em renda fixa global, crédito global e renda variável global — sem viés relevante em Treasuries, investment grade, high yield americano, crédito de emergentes ou nas quatro regiões de bolsa que compõem a classe. As posições táticas em aberto foram encerradas ao longo de agosto. Nas carteiras locais, a neutralidade se aplica a prefixado, juro real, Ibovespa, S&P em reais e dólar contra o real.
O argumento central da Carta Mensal de Investimentos, assinada pelo estrategista-chefe Thomas Wu, é o que o banco chama de “preço do capital”. Segundo a instituição, agosto trouxe dois episódios aparentemente desconexos — a dificuldade do governo americano em encontrar compradores para sua dívida e a aceleração dos investimentos em inteligência artificial — que contam a mesma história: uma disputa por capital que mantém os juros elevados.
No primeiro caso, a dívida federal bruta dos Estados Unidos passou de US$ 39,987 trilhões em 17 de agosto para US$ 40,047 trilhões no dia seguinte. Em termos econômicos, a mudança é irrelevante, mas o número redondo funcionou como ponto focal. Na mesma sequência de dias, a taxa do Treasury de 30 anos alcançou 5,337% durante o pregão, maior nível desde 2007. O banco cita como fatores de fundo os cortes de impostos aprovados no ano passado, a devolução das tarifas cobradas após o “Liberation Day” e os gastos com a guerra no Irã.
Para Wu, não existe um nível de dívida a partir do qual um país entra em crise. O que existe é uma região intermediária de múltiplos equilíbrios, em que os juros não apenas refletem o risco fiscal, mas podem aumentá-lo: se os credores exigem taxas maiores, a despesa financeira cresce, as contas pioram e a preocupação inicial começa a se justificar. A comparação que ganhou as manchetes — mesmo pagando US$ 1 bilhão por dia, o governo americano levaria cerca de 110 anos para quitar a dívida, sem considerar juros — é tecnicamente inadequada como análise de sustentabilidade fiscal, reconhece o banco, mas foi eficaz como ferramenta de comunicação.
A resposta oficial veio em 19 de agosto, quando o secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou que dobraria as recompras de títulos com vencimentos entre 10 e 30 anos, de US$ 2 bilhões para US$ 4 bilhões por operação. A justificativa foi melhorar a liquidez, mas muitos investidores leram o movimento como sinal de desconforto do Tesouro com a alta dos juros longos. A taxa de 30 anos chegou a cair cerca de 10 pontos-base após o anúncio.
O efeito, segundo o Itaú, foi deslocar o risco, não eliminá-lo. Nos dias seguintes, parte do prêmio migrou da renda fixa para o câmbio: o dólar perdeu valor contra uma cesta de moedas, enquanto ouro e Bitcoin se valorizaram, em uma retomada do chamado “debasement trade”. “O prêmio de risco não desapareceu, apenas mudou de endereço”, resume a carta.
Do lado privado, os resultados da Nvidia frustraram a expectativa de desaceleração do ciclo de IA. A companhia indicou crescimento próximo de 70% para o próximo ano fiscal, contra 44% projetados pelos analistas. As ações subiram mais de 4% no after-market e cerca de 7% no pregão seguinte, acompanhadas pela cadeia de semicondutores. Para o banco, o mercado leu a divulgação menos como surpresa de resultados e mais como evidência de que o ciclo global de investimentos em IA segue ganhando escala — mesmo com as taxas longas americanas próximas das máximas de duas décadas.
No cenário internacional, passados seis meses do início do conflito no Oriente Médio, a atividade global segue resiliente, mas o choque de energia mantém na mesa o risco de aperto adicional de juros. O mercado projeta nova alta pelo Banco Central Europeu em setembro, e o discurso de Kevin Warsh em Jackson Hole preservou a discussão sobre uma elevação pelo Federal Reserve já neste mês. No Japão, a intervenção conjunta com autoridades americanas no iene reduziu a barra para a próxima alta de juros. A China segue com dinâmica de “economia em K”, com demanda externa mais forte que a doméstica.
Em ações globais, o banco nota que os papéis americanos deixaram de ser negociados com prêmio sobre o P/L médio dos últimos cinco anos e passaram a operar alinhados à média. Nas demais regiões desenvolvidas, a exposição maior ao choque energético é fator adverso — na Europa, a expectativa é de crescimento de 13% do lucro por ação em 2026. Em emergentes, apesar de valuations mais atrativos, a concentração em Coreia do Sul, Taiwan e no bloco de semicondutores e IA sustenta a cautela.
No Brasil, o quadro combina desaceleração da atividade, desinflação gradual com expectativas ainda desancoradas para 2027 e 2028, e fragilidade fiscal. O banco avalia que a Selic deve permanecer elevada por período prolongado e que a maior sensibilidade ao ambiente eleitoral tende a sustentar prêmios de risco mais altos em juros, câmbio e ações. Em bolsa local, apesar do valuation descontado frente à média histórica, a concentração da geração de lucros em poucos setores — sobretudo commodities — e a redução do fluxo estrangeiro sustentam a postura neutra.
Fonte Thomas Wu, “Carta Mensal de Investimentos — Setembro/2026”, Itaú Private Bank (Itaú Unibanco S.A.), Comitê de Investimentos de setembro de 2026.


