A perspectiva de uma disputa eleitoral mais acirrada, combinada com a valorização dos preços do petróleo, abriu espaço para a alta da bolsa e do câmbio brasileiro na sessão desta terça. Os juros futuros também foram beneficiados pelo ambiente mais construtivo localmente, embora as taxas no exterior tenham ficado mais pressionadas na sessão.
No fim do dia, o Ibovespa registrou apreciação de 1,30%, aos 179.722 pontos, enquanto o dólar à vista teve queda de 0,47%, a R$ 5,1556. O real foi a segunda moeda que mais avançou no dia, atrás apenas do peso colombiano. Já a taxa de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento para janeiro de 2031 recuou de 14,50% do ajuste de segunda-feira para 14,405% no ajuste de ontem.
As últimas pesquisas de intenção de voto mostraram que a disputa presidencial encaminha-se para um acirramento entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Investidores veem na oposição a chance de mudanças na condução da política fiscal, e isso ajuda a reduzir prêmios de risco nos preços dos ativos brasileiros.
O sócio e diretor de investimentos (CIO) da Armor Capital, Alfredo Menezes, diz que a disputa eleitoral mais acirrada pode ter beneficiado os mercados locais na terça. “Um bom termômetro disso é o pré longo”, diz, fazendo referência aos juros futuros de longo prazo. “As taxas longas dos Treasuries abriram [subiram], e mesmo assim as nossas caíram. Sabemos que os nossos juros longos estão muito ligados à expectativa por um ajuste fiscal. Então uma disputa acirrada pode ajustar o prêmio que há nisso”, afirma.
As ações mais beneficiadas no dia também são termômetros da dinâmica do mercado, diz Menezes. “Os papéis do Banco do Brasil tiveram uma alta forte e não foram beneficiadas pelos preços do petróleo, como foi o caso da PetrobrasCotação de Petrobras”, afirma. “Os preços do petróleo podem ter ajudado de alguma forma o índice e o câmbio, mas o que me parece estar em pauta são as eleições.”
Com o desempenho positivo desta terça-feira, a bolsa brasileira já sobe 2,31% nos últimos dois dias, acumulando ganhos pela 10ª sessão consecutiva.
O chefe da corretora do Scotiabank Brasil, Michel Frankfurt, destaca que a trajetória negativa do Ibovespa ao longo de julho e durante uma parte de agosto deveu-se à percepção de que não haveria uma alternância de poder e à ausência dos investidores estrangeiros, em meio ao período de férias. Há uma semana, no entanto, diz, houve uma virada, com a entrada de quase US$ 1 bilhão em ações locais.
“As pesquisas começaram a mostrar uma melhora do candidato concorrente [Flávio] e o posicionamento em bolsa estava muito leve. Os locais estavam pessimistas, e os gringos estavam tirando dinheiro, na esteira também da competição com a inteligência artificial”, diz Frankfurt. “Você começa a ver as propostas, as indicações, quem formaria as equipes, e isso começou a dar uma animada no mercado.”
Começamos a ver propostas, nomes que formariam as equipes. Isso dá uma animada no mercado”
Mesmo com a valorização, o executivo diz acreditar que há espaço para uma alta ainda maior caso haja uma “forte indicação” de alternância de poder. “As eleições são o principal fator doméstico para os preços dos ativos a partir de agora, ainda que estejamos sujeitos a interferências externas”, aponta. “As empresas estão estranguladas com o futuro do fiscal e, com a melhora do sentimento, o ‘animal spirit’, a economia engata de novo.”
Na parte da tarde do pregão, operadores também mencionaram notícias ligando o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro como outro ponto de suporte aos ativos. “Isso reforça a ideia de Lula fraco, ainda que não seja uma relação tão direta”, aponta um gestor, na condição de anonimato.
Chamou a atenção dos agentes também o fato de o ambiente externo ter ficado menos favorável, e mesmo assim os ativos locais exibirem um bom desempenho. “O mercado está melhorando, diante de eleições mais apertadas e um quadro mais favorável ao Flávio”, diz um integrante da tesouraria de um banco. “O problema vem sendo o exterior, mas, agora, o mercado local está conseguindo se descolar um pouco.”
Este mesmo operador comenta que os resultados do PIB do segundo trimestre ajudaram a reforçar a queda dos juros futuros. Embora a alta de 0,5% do PIB tenha superado ligeiramente a expectativa do mercado, o número foi puxado pelo desempenho surpreendente dos setores agropecuário e industrial, menos ligados à demanda e, portanto, que sofrem menor influência da política monetária do Banco Central.
Sendo assim, o dado alimentou a percepção de uma economia brasileira em desaceleração e deu força à visão de que o Comitê de Política Monetária (Copom) terá espaço para, além da próxima reunião, em 16 de setembro, seguir cortando a taxa Selic.
A expectativa de um BC menos conservador fez o Deutsche Bank alterar o seu cenário-base, que incluía uma pausa do ciclo de cortes com a Selic em 14%, a fim de incluir mais uma redução de 0,25 ponto percentual, a 13,75%. Para a equipe liderada por Francisco Campos, economista-chefe para América Latina, a flexibilização monetária além de setembro dependerá do período eleitoral.
Nesse contexto, o Deutsche mantém a aposta em uma inclinação da curva de juros. A estratégia “provê uma visão clara da leitura de que a ponta longa da curva provavelmente permanecerá sob pressão à medida que a incerteza política ganha cada vez mais destaque, enquanto os juros intermediários podem continuar a reajustar os preços em função de uma postura menos ‘hawkish’ do BC, já que os dados continuam indicando um crescimento mais fraco e uma dinâmica de inflação que melhora gradualmente.”
Fonte: Valor Econômico


