O comandante militar israelense, Herzi Halevi, disse ontem às suas tropas que os ataques aéreos iniciados na semana passada contra o Hezbollah eram uma preparação para uma potencial invasão terrestre do Líbano — pouco depois que as defesas aéreas de Israel interceptaram a primeira tentativa de ataque com mísseis balísticos do grupo militante a Tel Aviv.
“Vocês estão ouvindo os caças; estamos atacando o dia todo. Isso é tanto para preparar o terreno para sua possível entrada quanto para continuar desgastando o Hezbollah”, disse Halevi, que é chefe do Estado-Maior israelense, a soldados próximos da fronteira norte, com o Líbano. “Estamos preparando o processo de uma manobra, o que significa que suas botas militares, suas botas de manobra, entrarão em território inimigo.”
Os comentários foram feitos enquanto diplomatas dos EUA e seus aliados pressionavam por um cessar-fogo imediato. O presidente dos EUA, Joe Biden, e seu colega francês, Emmanuel Macron, buscavam formas de pressionar Israel — em meio à Assembleia-Geral da ONU, em Nova York —, de acordo com fontes familiarizadas com as discussões. Uma delas disse que Biden e Macron estavam buscando uma trégua de 21 dias, durante a qual os mediadores trabalhariam em um acordo de longo prazo.
Antes, Washington discutia com parceiros árabes, como Egito e Catar, uma trégua inicial de até quatro semanas. Mas em nenhuma das conversas ficou clara qual a influência da Casa Branca para desescalar o conflito.
Biden, admitiu ontem à rede de TV ABC que uma guerra total na região era possível. Mas acrescentou: “Ainda estamos em um jogo para chegar a um acordo viável que possa mudar fundamentalmente toda a região”.
A tentativa de ataque do Hezbollah a Tel Aviv, apesar de neutralizada pela defesa israelense, foi a resposta do grupo mais provocativa até agora a uma semana de operações israelenses que ressaltaram o risco crescente de uma guerra total na região. “Hoje o Hezbollah mostrou ter expandido o alcance de seu fogo e mais tarde vocês receberão uma mensagem forte, então, estejam preparados”, disse Halevi aos soldados.
O Hezbollah confirmou ter disparado o míssil balístico Qader 1, o mais destrutivo e de maior alcance do que os foguetes que o grupo lançou até agora e vão pouco além do norte de Israel. Segundo o grupo, o míssil tinha como alvo a sede do serviço de espionagem israelense Mossad, perto de Tel Aviv.
As hostilidades ganharam intensidade na última semana com a detonação de dispositivos de comunicação do Hezbollah e o assassinato de pelo menos 15 comandantes da milícia armada e patrocinada pelo Irã. Desde segunda-feira, os ataques israelenses mataram mais de 500 libaneses — 51 deles, só ontem, segundo o governo do Líbano — e feriram cerca de 2.000 pessoas, segundo autoridades libanesas.
A ONU disse ontem que mais de 90 mil pessoas foram deslocadas nos últimos três dias, principalmente do sul e nordeste do Líbano, bem como do Vale do Bekaa e dos subúrbios ao sul de Beirute. Mais de 100 mil libaneses já foram forçados a deixar suas casas pelos combates no ano passado, e alguns deles estão agora em movimento novamente.
O fato de apenas um míssil ter sido usado, e de ter como alvo o Mossad, sugere que o ataque pretendia ser uma “retaliação simbólica em vez de uma declaração formal de guerra ou um sinal de intenção de escalar para uma guerra em grande escala”, disse Lina Khatib, uma pesquisadora da Chatham House, centro de estudos internacionais de Londres, à agência Dow Jones.
O governo de premiê israelense, Benjamin Netanyahu, diz que a ofensiva não será interrompida até que 60 mil cidadãos retirados do norte de Israel pelos disparos de foguetes do Hezbollah possam voltar para casa em segurança.
O Hezbollah, por seu lado, alega que está atacando o norte de Israel em “solidariedade” aos palestinos na Faixa de Gaza — e diz que só vai parar com os disparos quando um cessar-fogo for alcançado no enclave. Israel mantém uma ofensiva na Faixa de Gaza contra o grupo terrorista Hamas, desde que ele lançou um ataque contra o território israelense e deixou cerca de 1.200 mortos em 7 de outubro de 2023.
O brasileiro Ali Kamal Abdallah, de 15 anos, e o pai dele, Haj Kamal Abdallah, que é paraguaio, foram mortos em um ataque israelense em Kalya, cidade 30 quilômetros ao sul de Beirute, confirmou ontem o Ministério de Relações Exteriores (Itamaraty). Eles tinham se mudado de Foz do Iguaçu (PR) para o Líbano havia cerca de três meses para montar um novo negócio no país.
O Itamaraty disse que está prestando assistência com os trâmites para a liberação dos corpos. Detalhes como a data exata do bombardeio ainda não estão claros.
O chefe do exército israelense disse nesta quarta-feira que as forças estão se preparando para uma possível incursão terrestre no Líbano, depois que o Hezbollah disparou dezenas de projéteis contra Israel, incluindo um dirigido a Tel Aviv.
Dirigindo-se aos soldados na fronteira norte, o chefe do Estado-Maior, tenente-general Herzi Halevi, disse que os recentes ataques aéreos foram projetados para “preparar o terreno para sua possível entrada e para degradar ainda mais o Hezbollah”.
Em uma aparente referência ao míssil apontado para Tel Aviv, ele comentou: “Hoje o Hezbollah ampliou seu alcance de fogo e, mais tarde, eles receberão uma mensagem forte, portanto, estejam preparados”.
Para atingir o objetivo de permitir que as pessoas do norte de Israel voltem para casa, “estamos preparando o processo de uma manobra”, disse ele.
As declarações foram feitas depois que o Hezbollah disparou dezenas de projéteis contra Israel, incluindo o míssil apontado para Tel Aviv, que foi seu maior ataque até o momento e marcou uma nova escalada das tensões após os ataques israelenses que mataram centenas de pessoas no Líbano.
Separadamente, o ministro da saúde libanês disse que 51 pessoas foram mortas e 223 feridas por ataques aéreos israelenses na quarta-feira. Isso se soma aos 564 mortos e mais de 1.800 feridos nos dois dias anteriores, incluindo cerca de 150 mulheres e crianças.
O ministro, Firas Abiad, não informou quantas mulheres ou crianças ficaram feridas na quarta-feira.
O exército israelense disse que interceptou o míssil, que disparou alarmes antiaéreos em Tel Aviv e na região central de Israel, sem que houvesse registro de vítimas ou danos materiais. O exército também afirmou ter atingido um local no sul do Líbano de onde o míssil foi lançado.
O Hezbollah disse que disparou um míssil balístico Qader 1 contra a sede da agência de inteligência israelense, o Mossad, que o Hezbollah culpa por uma série recente de assassinatos seletivos de seus comandantes seniores e pelos atentados da semana passada, nos quais bombas escondidas em pagers e walkie-talkies mataram dezenas de pessoas e feriram milhares, muitas delas membros do grupo político-paramilitar.
O Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários disse que mais de 90 mil pessoas foram deslocadas por cinco dias de ataques aéreos israelenses no Líbano, elevando para 200 mil o número de deslocados desde que o Hezbollah começou a disparar foguetes contra Israel, há quase um ano.
O lançamento aumentou as tensões em uma região que parece estar caminhando para outra guerra total, já que Israel continua a lutar contra o Hamas na Faixa de Gaza.
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Fonte: Valor Econômico
