Autoridades europeias afirmam ter frustrado recentemente vários planos terroristas, alguns envolvendo suspeitos que se faziam passar por refugiados, soando um alarme sobre uma série crescente de ameaças de extremistas.
Em uma investigação realizada em dezembro e não divulgada até agora, as polícias da Áustria e da Bósnia prenderam dois grupos separados de refugiados afegãos e sírios que transportavam armas e munições, inclusive pistolas e rifles de assalto Kalashnikov.
Os investigadores encontraram fotografias de alvos judeus e israelenses na Europa nos celulares de alguns dos suspeitos, sugerindo que eles estavam sendo motivados pela guerra de Israel contra o Hamas na Faixa de Gaza.
Isso seguiu-se à detenção, no fim do ano passado, perto do Natal, de um grupo de cidadãos tadjiques suspeitos de planejar atentados contra a Catedral de Colônia na Alemanha e a Catedral de Santo Estevão em Viena. As duas igrejas ficam lotadas com centenas de visitantes por dia durante as festas de fim de ano.
Então, na segunda-feira passada, autoridades italianas disseram ter detido três palestinos suspeitos de serem membros da Brigada dos Mártires de Al Aqsa, classificada como grupo terrorista pelos Estados Unidos e a União Europeia (UE). Os três estavam preparando um ataque a alvos civis e militares na Europa, segundo informou a Polícia Nacional Italiana.
Investigadores disseram que os três incidentes separados sugerem que a ameaça terrorista na Europa não só está crescendo, como também vem de outras fontes, complicando o trabalho das agências de segurança. Uma onda de ataques que atingiram o continente desde 2015 foi em grande parte inspirada, e em parte direcionada, pelo Estado Islâmico, a milícia terrorista sunita presente na Síria e no Iraque. Agora, a ameaça está vindo não só do Estado Islâmico Khorasan, a organização sucessora do Estado Islâmico baseada no Afeganistão, como também do Irã e seus representantes no Oriente Médio, incluindo o Hezbollah e o Hamas.
A agência de inteligência interna da Alemanha, o Gabinete Federal para a Proteção da Constituição, alertou no fim do ano passado que esses e outros atores estavam sendo incitados pela guerra na Faixa de Gaza e que judeus e instituições judaicas da Europa estavam entre os alvos em potencial.
No fim do ano, a polícia alemã fez batidas em toda a Alemanha, visando o Hamas e seus afiliados. Investigadores alemães e holandeses também prenderam quatro pessoas por supostamente terem recebido ordem do Hamas para estabelecer um esconderijo secreto de armas e atacar alvos judeus em Berlim e em outras partes da Europa Ocidental.
Promotores alemães disseram que o Hamas enterrou armas em pontos pela Europa anos atrás, mas que os suspeitos, todos do Hamas, não revelaram onde.
O Hamas, o Hezbollah e organizações europeias ligadas a eles vêm usando a guerra na Faixa de Gaza para propaganda, recrutamento e captação de recursos, segundo autoridades de segurança da Alemanha. As doações de indivíduos na Europa para o Hamas e o Hezbollah dispararam desde o ataque cometido pelo Hamas em 7 de outubro em Israel, que deixou 1.200 mortos. Os grupos também intensificaram suas atividades na internet e encorajaram protestos contra a guerra em Gaza nas cidades europeias.
Doações na Europa para o Hamas e o Hezbollah dispararam desde o ataque a Israel
Até agora, o Hamas e o Hezbollah usaram a Europa como centro de captação de recursos e porto seguro para seus agentes. Mas as batidas recentes contra o Hamas sugerem que esses grupos agora estejam planejando assassinatos e atos de sabotagem na Europa, direcionados principalmente para alvos judeus e israelenses, segundo afirmam autoridades de segurança de vários países.
Ao mesmo tempo, o caso dos tadjiques levanta preocupações de que grupos terroristas que incluem o Irã e seus representantes possam estar usando, mais uma vez, fluxos de refugiados para a Europa para se infiltrarem na região. A maioria dos terroristas do Estado Islâmico que atacaram Paris em 2015 veio da Síria e do Iraque, fazendo-se passar por refugiados, e mais de um milhão de pessoas em busca de asilo solicitaram o status de refugiado na UE no ano passado, o maior número desde então.
Em novembro, as autoridades alemãs invadiram o Centro Islâmico de Hamburgo e outras organizações na cidade suspeitas de apoiarem o Hezbollah, considerada uma organização terrorista.
O centro, que abriga a Mesquita Imam Ali, de azulejos azuis e localizada em um bairro sofisticado à beira de um lago nessa cidade do norte da Alemanha, é uma das “representações mais importantes do Irã na Alemanha e uma fonte significativa de propaganda do Irã na Europa”, segundo um relatório da inteligência interna da Alemanha divulgado no ano passado. O centro não respondeu a um pedido para comentários. Ele disse em um comunicado no ano passado que está cooperando com os investigadores e demonstrou confiança de que as suspeitas que recaem sobre ele serão retiradas.
O Irã tem um histórico de atacar dissidentes e adversários internos no exterior. Mas mais recentemente, Teerã também tem visado judeus no continente europeu. Em dezembro, um homem germano-iraniano foi condenado por um tribunal alemão a quase três anos de prisão por tentar lançar uma bomba incendiária em uma sinagoga na cidade de Bochum, a mando do governo iraniano em novembro de 2022.
Em 2017, um tribunal de Berlim sentenciou um estudante paquistanês a mais de quatro anos de prisão por espionar o ex-presidente da Sociedade Germano-Israelense em nome do governo iraniano, em preparação para um possível assassinato.
Em uma conspiração frustrada no fim de 2021, mas noticiada apenas no mês passado pela Radio Sweden, Teerã enviou para a Suécia dois agentes que se faziam passar por um casal de refugiados, onde planejavam assassinar três destacados líderes judeus, segundo informaram as autoridades suecas.
Os alvos eram Sakia Pantell, ex-chefe da Federação Sionista; Aron Verständig, presidente das Comunidades Judaicas Suecas; e uma terceira pessoa mantida anônima.
Os supostos assassinos, nomeados como Mahdi Ramezani e Fereshteh Sanaefarid, chegaram à Suécia em 2015, fingindo ser refugiados afegãos, obtendo asilo dois anos depois, segundo as autoridades suecas. As autoridades acreditam que os dois eram agentes “adormecidos” do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, um grupo militar iraniano classificado como organização terrorista pelos EUA, e que foram encarregados dos assassinatos em 2021. A promotoria pública sueca disse que os suspeitos negaram as acusações.
Pouco depois de terem sido ativados por seus mandantes, eles foram presos pelos serviços de segurança suecos, na sequência de uma denúncia de inteligência. A dupla passou meses detida e foi deportada para o Irã em 2022, uma vez que as evidências recolhidas pelos serviços de inteligência não eram aceitáveis em tribunal. Uma autoridade da embaixada do Irã que supostamente mantinha contato com o casal também foi expulsa da Suécia. A embaixada, a missão iraniana na Organização das Nações Unidas (ONU) e o Ministério das Relações Exteriores do Irã não responderam a pedidos para comentários. O SAPO, serviço de segurança da Suécia, também não quis fazer comentários.
Fonte: Valor Econômico


