O Irã advertiu nesta quinta-feira (18) que poderá produzir armas nucleares se Israel atacar suas instalações nucleares, em nova escalada das ameaças entre os dois países e aumento da tensão no Oriente Médio.
Os comentários seguem-se ao ataque aéreo do Irã contra Israel no sábado. As autoridades israelenses disseram que pretendem responder à ofensiva com mísseis e drones lançada por Teerã.
O brigadeiro Ahmad Haghtalab, que comanda a segurança das instalações nucleares iranianas, disse que o Irã poderá mudar o status de sua política nuclear — uma referência à antiga promessa pública do líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, de não construir armas nucleares.
Haghtalab, uma figura-chave da Guarda Revolucionária — a força que domina a política militar e de defesa sob Khamenei —, alertou que o Irã retaliará contra locais nucleares israelenses se Israel atingir instalações nucleares iranianas. Acredita-se que Israel possui armas nucleares, mas o país nunca confirmou isso.
“Se o fraudulento regime sionista quiser usar a ameaça de atacar as instalações nucleares do nosso país como uma ferramenta para colocar o Irã sob pressão, a revisão da doutrina e das políticas nucleares da República Islâmica, bem como o afastamento dos compromissos anteriormente anunciados será concebível e provável”, acrescentou Haghtalab.
O gabinete do premiê israelense não respondeu a um pedido para comentários.
Também nesta quinta-feira (18) os EUA e o Reino Unido impuseram novas sanções aos líderes militares iranianos e fabricantes de drones para punir Teerã por seu ataque aéreo contra Israel no fim de semana. A União Europeia disse que planeja novas medidas contra o Irã para conter suas atividades militares.
“Estamos empenhados em agir em conjunto para aumentar a pressão econômica sobre o Irã”, disse o presidente dos EUA, Joe Biden, em um comunicado, referindo-se aos países do G7. Ele pediu medidas adicionais para “restringir os programas militares desestabilizadores do Irã”.
Apesar da ordem religiosa de Khamenei de 2003 contra o desenvolvimento de armas de destruição em massa, a agência atômica da Organização das Nações Unidas (ONU) e autoridades ocidentais acreditam que o Irã trabalhou na construção de armas nucleares pelo menos até aquele ano.
A comunidade de inteligência dos EUA avaliou nos últimos anos que Teerã não retomou a produção de armas nucleares, mas continuou progredindo em várias frentes para dominar o processo de fabricação dessas armas.
Segundo especialistas, é improvável que Israel ataque instalações nucleares do Irã em retaliação ao ataque da última semana. Sem uma participação ativa dos EUA, um ataque israelense a instalações fortificadas poderia ser bem menos eficaz em atrasar o programa nuclear de Teerã.
Ainda assim, o Irã também tomou medidas para proteger suas instalações nucleares. O presidente da Agência Internacional de energia Atômica (IAEA), o argentino Rafael Grossi, disse a jornalistas na segunda-feira que as instalações iranianas foram fechadas no fim de semana. Elas reabriram na segunda-feira e inspetores retomaram os trabalhos na terça, segundo disse a agência.
As autoridades iranianas já ameaçaram abandonar um acordo internacional de prevenção à propagação de armas nucleares e expulsar inspetores da ONU do país se os EUA ou Israel tomarem medidas agressivas contra ele.
Especialistas nucleares há muito preveem que se Teerã retomar a produção de armas nucleares, fará isso secretamente. O Irã afirma que seu programa nuclear tem natureza puramente civil.
Nos últimos meses, altos funcionários iranianos fizeram uma série de declarações sugerindo que o Irã está muito mais perto de dominar a construção de armas nucleares do que sugerem autoridades ocidentais, o que suscitou novas preocupações da agência atômica da ONU sobre os planos de Teerã.
Qualquer iniciativa de retomar o trabalho com armas nucleares seria um passo altamente arriscado de Teerã. Autoridades israelenses já disseram que Israel agirá militarmente se Teerã produzir material físsil adequado para armas.
Entre as instalações nucleares do Irã estão duas centrais, Natanz e Fordow, de enriquecimento de urânio; uma mina de urânio; e uma fábrica para produzir yellowcake, o ingrediente básico para o enriquecimento de urânio. O Irã também possui fábricas para a produção de centrífugas — máquinas que transformam o urânio em graus de pureza mais elevados — e uma instalação de conversão de urânio na cidade de Isfahan.
O Irã já produziu material físsil suficiente para cerca de três armas nucleares, segundo dados da agência atômica da ONU. No entanto, isso precisaria ser incorporado a uma ogiva e acoplado a mísseis para produzir uma bomba. No ano passado, o general Mark Milley, ex-chefe do Estado Maior Conjunto, disse ao Congresso americano que o Irã poderia produzir uma arma nuclear em alguns meses.
Exportações de petróleo em alta
Apesar das sanções ocidentais, as exportações iranianas de petróleo atingiram o nível mais alto dos últimos seis anos, dando um impulso de US$ 35 bilhões por ano à economia do país, disse a empresa de dados Vortexa.
O Irã vendeu uma média de 1,56 milhão de barris/dia no primeiro trimestre do ano, quase tudo para a China.
De acordo com o chefe de risco geopolítico do Rapidan Energy Group, Fernando Ferreira, os iranianos dominaram a “arte” de contornar as sanções. “Se o governo Biden realmente pretende ter algum impacto [com a imposição de novas sanções], ele precisa mudar o foco para a China”, afirmou em entrevista ao “Financial Times”.
Fonte: Valor Econômico


