A SpaceX, empresa espacial do bilionário Elon Musk, prevê abrir o seu capital na bolsa dos Estados Unidos em junho. Assim, qualquer investidor poderá ser, também, dono de um pedacinho da companhia ao comprar suas ações. Os valores anunciados para o IPO (oferta pública inicial, na sigla em inglês) farão dele o maior de toda a história: US$ 2 trilhões em valor de mercado, com expectativa de captação de US$ 75 bilhões.
Quando o assunto é o homem mais rico do mundo, as cifras envolvidas são sempre astronômicas (com o perdão do trocadilho interestelar). Mas a sua fábrica de foguetes vale mesmo tudo isso? Em busca dessa resposta, procuramos especialistas como o indiano Aswath Damodaran, badalado professor de finanças da Stern School of Business, na Universidade de New York.
Antes, no entanto, vale conhecer melhor o impacto dessas cifras. Mas, se preferir, pode correr o texto para ir direto ao ponto.
Um IPO do tamanho do Brasil
De acordo com a última atualização, o valor do IPO será de mais de US$ 2 trilhões. A título de comparação, o PIB do Brasil, maior economia da América Latina, foi de US$ 2,18 trilhões em 2025.
A oferta promete superar o recorde da petrolífera Saudi Aramco, avaliada em US$ 1,7 trilhão quando realizou sua abertura de capital, com oferta de US$ 29 bilhões em ações na Bolsa de Valores de Riad (Tadawul), na Arábia Saudita, em 2019. E colocaria a SpaceX entre as maiores companhias do mercado de capitais do mundo, à frente de gigantes como Tesla e Meta e próxima do escalão ocupado por Nvidia (avaliada em US$ 4,46 trilhões), Apple e Microsoft.
Alguns dos maiores bancos do mundo – Morgan Stanley, Goldman Sachs, J.P.Morgan Chase, Bank of America (BofA) e Citi – estão atuando como os principais administradores da operação (o sindicato). Outros 16 bancos assinaram contrato em funções menores, incluindo o BTG Pactual, único brasileiro participante.
Informações sobre o lucro, receitas e dívidas da empresa não são públicos. Se o IPO for confirmado, a empresa será obrigada a disponibilizar, em abril ou início de maio, um prospecto público, documento em que constam todos os resultados financeiros no período recente. Até lá…
O que se sabe sobre os resultados financeiros da SpaceX?
A empresa teria gerado cerca de US$ 8 bilhões em lucro operacional (Ebitda) e uma receita entre US$ 15 bilhões e US$ 16 bilhões no ano passado – conforme a imprensa americana. Supostamente, dobrou sua receita de US$ 2,3 bilhões, em 2021, para US$ 4,6 bilhões, em 2022. E depois aumentou em 90%, para US$ 8,7 bilhões, em 2023. Em 2024, a receita cresceu 51%, a US$ 13,1 bilhões.
A fusão com a xAI, dona do X (ex-Twitter)
Em fevereiro, a SpaceX foi fundida com a empresa de desenvolvimento de inteligência artificial xAI, também de Musk. O movimento foi um dos passos para preparar o terreno para o IPO. Para a transação, a SpaceX foi avaliada em US$ 1 trilhão e a xAI em US$ 250 bilhões.
A xAI supostamente registrou um prejuízo líquido de US$ 1,46 bilhão no trimestre de setembro, em comparação com um prejuízo de US$ 1 bilhão nos três meses anteriores. A receita quase dobrou sequencialmente para US$ 107 milhões no período encerrado em 30 de setembro de 2025. A startup de IA adquiriu o serviço de mensagens e rede social X em março do ano passado, avaliando a xAI em US$ 80 bilhões e o X em US$ 33 bilhões.
Dito isso, vale mesmo ‘um Brasil’?
Questionado por e-mail pelo Valor Investe sobre se acha justo o valor de mercado estimado hoje para a SpaceX, Aswath Damodaran, professor de finanças da Stern School of Business, na Universidade de New York, foi taxativo. No popular, foi bem “poucas ideias”.
“Para ser honesto, por que importa o que eu, você, ou qualquer um pensa sobre o preço ser ou não justificado? Quem vai decidir isso é o mercado”, disse. “Se você quer saber o que teria de acontecer para esse preço se justificar, confira a seguinte planilha”.
Nela, há um complexo cálculo de faturamento de equilíbrio (“breakeven revenue”) para o valor de US$ 2 trilhões. Em tempo presente, a empresa de Musk teria que faturar no mínimo US$ 193 bilhões para remunerar investidores e arcar com suas despesas. Considerando que ela atingisse equilíbrio só daqui a cinco anos, esse valor teria que ser de nada menos que US$ 271 bilhões.
Será que “o mercado” estará de acordo com esses números?
Fabio Civiletti, especialista em finanças corporativas e diretor executivo da Iluminus, ressalta que não é possível usar a métrica de fluxo de caixa futuro para entender o valor de US$ 2 trilhões, porque essas receitas não estão dadas.
“Isso acontece com empresas muito inovadoras, que fazem algo que ninguém nunca fez ainda, porque há muito consumo de caixa para desenvolver o novo mercado e só lá frente você terá fluxo de caixa”, diz. “No fim, é sobre os investidores acreditarem na história.”
A falta de informações públicas sobre as finanças da SpaceX não permite reconhecer se o valor veiculado pela imprensa americana é razoável, afirma Bruno Yamashita, coordenador de alocação e inteligência da Avenue.
“Até a divulgação de dados, dependemos das notícias que vão saindo e das rodadas de capitalização privada que estão acontecendo”, diz.
Apesar disso, é possível dizer que a avaliação de US$ 2 trilhões é evidentemente superotimista, à luz do valor anteriormente considerado, no momento da fusão entre a SpaceX e a xAI (avaliadas em US$ 1 trilhão e US$ 250 bilhões, respectivamente), diz Carlos Heitor Campani, professor doutor em finanças e sócio da CHC Finance. Num cálculo generoso, ele explica, o crescimento previsto é hiperdimensonado e a taxa de desconto, que representa a percepção do risco daquela empresa dar errado, é reduzida.
“Nesse caso, o otimismo é elevado ao cubo, porque o risco é necessariamente alto em uma operação como essa.”
Para Nickolas Lobo, especialista em investimentos da Nomad, o maior desafio da SpaceX é que o preço anunciado corresponde na sua maior parte ao potencial futuro, e há um risco de execução nada desprezível no caminho.
“A grande dúvida para o IPO em 2026 é se o mercado aceitará pagar esse prêmio por uma empresa que, embora lucrativa no operacional, ainda consome bilhões em capital para financiar o sonho de ir a Marte. Quando comparamos múltiplos de receita, a empresa estaria negociando algo entre 60 a 90 vezes”, diz.
Há empresas com valor de mercado no patamar dos trilhões nos Estados Unidos, como a Amazon. A diferença é que o faturamento da gigante do e-commerce supera US$ 700 bilhões. “SpaceX ainda joga em uma escala de receita muito menor, mas com um crescimento potencial relevante”, afirma Lobo.
O que faz a empresa espacial de Elon Musk?
Fundada em 2002, a SpaceX é a maior empresa espacial privada dos Estados Unidos e realiza mais lançamentos de foguetes anualmente do que qualquer outra companhia.
Sua rede de comunicações via satélite Starlink é seu carro-chefe. Oferece serviço de internet para indivíduos e organizações, com mais de 9,5 mil satélites em operação desde 2019. Atende mais de 9 milhões de usuários, e gera de 50% a 80% da receita da SpaceX, em valor estimado em US$ 11 bilhões.
Embora cause maior frisson, o lançamento de foguete é apenas seu segundo negócio principal. Os principais clientes da SpaceX nesta área incluem a NASA, o Departamento de Defesa dos EUA, agências espaciais internacionais e empresas de satélites comerciais. Segundo a Reuters, Musk afirmou que a NASA contribuirá com apenas 5% da receita da SpaceX este ano, acrescentando que a maior parte da receita proverá do sistema comercial Starlink.
Um dos mais recentes projetos da empresa é o sistema Starship, projetado para ser reutilizável e construído para transportar tripulação e carga dentre 100 e 150 toneladas. Musk tem propagandeado o negócio, em fase de testes, como capaz de levar a humanidade rotineiramente para Marte. A SpaceX já lançou cinco voos experimentais da Starship no ano passado, dos quais os três primeiros sofreram contratempos complexos e explosivos, enquanto os dois últimos foram bem-sucedidos.
A SpaceX registrou planos para lançar uma constelação de 1 milhão de satélites de data centers de IA movidos a energia solar.
E como pegar carona nesse foguete?
O IPO passa por várias etapas até a empresa ser listada, explica Yamashita, da Avenue. As três primeiras:
- O primeiro é a aprovação regulatória, que começa após o pedido realizado na Securities and Exchange Comission (SEC).
- Em seguida, há o “roadshow”, que é quando a empresa divulga os resultados financeiros e vende a tese a investidores que podem participar da oferta inicial.
- Um chamado “sindicato de bancos” organiza essa oferta. Participam investidores institucionais como gestoras, fundos de pensão, fundos soberanos e fundos endowment (de grandes faculdades, em especial americanas). Elas entram na construção do livro (“bookbuilding”), que é a oferta primária das ações, quando os papéis são criados.
Atualmente, o investidor já dispõe de uma porta de entrada na SpaceX via ETFs que possuem participações privadas na companhia, diz Nickolas Lobo. Fundos listados em bolsa, como XOVR e RONB, funcionam como veículos de acesso indireto. Permitem que o investidor de varejo se exponha à tese antes da abertura oficial de capital, embora carregue junto o desempenho de outras empresas no portfólio.
A participação do investidor individual costuma só acontecer depois da listagem, no mercado secundário de ações, afirma Yamashita. “Como são cifras muito altas, quem consegue participar da oferta inicial são, no máximo, grandes investidores individuais e que tem relacionamentos próximos com os bancos que compõem esses sindicatos. É um acesso restrito”, diz.
Quem são os principais concorrentes da SpaceX?
O setor espacial privado nos Estados Unidos conta com um punhado de empresas, entre elas a do dono da Amazon, Jezz Befos, que fundou em 2000 a Blue Origin. A empresa criou um negócio para transportar passageiros pagantes aos limites do espaço a bordo de seu foguete New Shepard, mas suspendeu seus voos de turismo espacial para redirecionar recursos para seu programa de aterrissagem lunar Blue Moon, com uma missão de superfície não tripulada planejada para este ano.
A Blue Origin tem um contrato de US$ 3,6 bilhões com a NASA que ajuda a financiar o desenvolvimento do módulo de pouso. Em abril de 2025, ela foi premiada com um contrato para sete missões no valor combinado de US$ 2,3 bilhões pela Força Espacial dos Estados Unidos.
Outra do setor é a United Launch Alliance, ou ULA, joint venture da Boeing e da Lockheed Martin. Ela ganhou um contrato da Força Espacial dos Estados Unidos no valor de US$ 5,3 bilhões para 19 missões em abril do ano passado, e seu novo foguete Vulcan teve seus dois primeiros lançamentos em 2024. O Pentágono certificou o Vulcan para missões de segurança nacional em abril, após meses de revisão devido a um contratempo com seus motores de foguete de combustível sólido durante um de seus voos.
Entre as empresas espaciais de capital aberto dos Estados Unidos estão a Rocket Lab (US$ 36,57 bilhões), a Intuitive Machines (US$ 4,02 bilhões), a Planet Labs (US$ 9,67 bilhões) e York Space (US$ 2,83 bilhões). Os valores são de mercado e relativos a 31 de março.
Enfim, em junho veremos se foguete não dá ré mesmo.
Fonte: Valor Investe