Por Marta Watanabe e Lucianne Carneiro — De São Paulo
25/08/2022 05h02 Atualizado há uma hora
Influenciada sobretudo por redução de impostos, e cortes de preços de energia, a deflação indicada pela prévia da variação de preços ao consumidor em agosto veio pior que o esperado pela média de mercado, embora a surpresa altista seja creditada a itens voláteis para os quais parte dos economistas ainda espera desaceleração em agosto.
A melhora de indicadores qualitativos traz perspectiva “menos sombria” para os preços, mas a descompressão aquém da expectativa em alguns bens industriais e alimentos, além de preços de serviços elevados e rigidez do núcleo da inflação, ainda preocupa.
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15) ficou em -0,73% em agosto, menor taxa da série histórica. A deflação veio após alta de 0,13% em julho, segundo o IBGE. O resultado ficou acima da mediana de deflação de 0,83% das 34 projeções de consultorias e instituições financeiras consultadas pelo Valor Data, com estimativas de -1,01% a -0,38%. No resultado acumulado em 12 meses, o IPCA-15 ficou em 9,60% em agosto, ante 11,39% até julho. É o menor resultado acumulado em 12 meses desde agosto de 2021.
Leonardo Costa, economista da ASA Investments, explica que uma das surpresas altistas do IPCA-15 de agosto veio na alimentação no domicílio, com variação de preços não tão baixa quanto se esperava. Ele ainda espera desaceleração maior desses preços ao fim de agosto, com diluição da pressão de leite, alimentos in natura e carnes no indicador cheio do mês.
Alimentação e bebidas foram em sentido oposto ao da deflação do indicador agregado, com alta de 1,12% em agosto. O grupo contribuiu com 0,24 ponto percentual (pp) no IPCA-15 do mês.
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Vitor Martello, economista da Parcitas, diz que, apesar das surpresas altistas, o indicador também mostra que a inflação de serviços parou de piorar e houve queda no índice de difusão de preços, embora os níveis ainda estejam relativamente altos. Ele também destaca a desaceleração de bens industriais, aliada à expectativa de que alimentos sejam beneficiados por clima mais favorável. Isso tudo, diz, sugere que deixamos “a inflação galopante”. Mesmo sem o efeito da “caneta nos impostos”, avalia, há um processo de desinflação.
Gasolina, energia, etanol e passagem aérea foram os quatro itens de maior influência para a deflação do IPCA-15 de agosto. Juntos, tiveram impacto de -1,37 ponto. Sem considerar os quatro produtos, o resultado de agosto teria sido de alta de 0,64%. A maior influência veio da gasolina, que caiu 16,8% e respondeu por -1,07 ponto do IPCA-15. O movimento reflete a redução do ICMS sobre combustíveis, energia elétrica, comunicações e transporte público, definida no fim de junho. A energia elétrica foi a segunda maior influência, como reflexo do ICMS mas também de revisões tarifárias extraordinárias.
Com o dado da prévia, as casas mantêm expectativa de variação negativa no IPCA cheio de agosto. A estimativa da ASA e da Parcitas para o período é de deflação de 0,35% e 0,3%, respectivamente. O Citi destaca em boletim que a deflação agregada não deve perdurar. A partir de setembro, indica, a variação do IPCA deve voltar para o campo positivo. Na prévia de agosto, o banco destaca, além das surpresas altistas em alimentos e cuidados pessoais, desempenho pior que o esperado em comunicação, que veio com deflação de 0,3%, quando a casa estimava -0,9%. A surpresa, diz o banco, sugere que os cortes de impostos podem gerar impacto menor que o esperado ou que o impacto pode demorar mais para ocorrer. O banco mantém previsão de IPCA de 7% em 2022.
Daniel Karp, do Santander, destaca também surpresas altistas em itens voláteis como alimentos in natura e perfumes. Para ele há pequenos alívios em medidas qualitativas que começam a tornar a perspectiva para a inflação “um pouco menos sombria”.
Tatiana Nogueira, economista da XP, mostra preocupação em relação às surpresas altistas. Para ela, há um “sinal de alerta” no desempenho de bens industriais e alimentação no domicílio medido pelo IPCA-15. Em comentário distribuído pela corretora, ela destaca que, de forma geral, a prévia da inflação mostrou quadro pior do que o esperado, com dinâmica de serviços ainda elevada e com a descompressão de bens industriais e alimentos mais moderada que o esperado. No grupo de bens industriais, ela ressalta a surpresa altista com automóveis novos e usados.
A inflação se espalhou menos no IPCA-15 de agosto. O índice de difusão, que mede a proporção de bens e serviços com aumento de preços no período, caiu para 65,1%, vindo de 67,8% em julho, menor taxa desde outubro do ano passado, segundo o Valor Data.
A média dos cinco núcleos monitorados pelo Banco Central foi outra medida qualitativa que indicou melhora, desacelerou para 0,56% em agosto, de 0,72% em julho, segundo a MCM Consultores. No acumulado em 12 meses, o indicador por essa métrica também recuou, de 10,56% para 10,54%.
Roberto Secemski, economista do Barclays, destaca que o núcleo da inflação permanece rígido, com as medidas subjacentes de serviços e bens ainda subindo. O banco revisou ontem sua projeção de IPCA ao fim do ano de 7% para 6,5%, para incorporar os cortes mais recentes nos preços da gasolina pela Petrobras, assumindo também que alguns preços de comunicação ainda serão reduzidos nas próximas leituras. Apesar dessa revisão para baixo, ele destaca que o núcleo da inflação mostra ritmo diferente e deve ficar próximo a 9,5% no fim de 2022.
Fonte: Valor Econômico