Por Eduardo Magossi — De São Paulo
31/08/2022 05h03 Atualizado há uma hora
Dados econômicos mais fortes que o esperado divulgados ontem nos dois lados do Atlântico vieram reforçar o recado passado pelo presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, na sexta-feira em Jackson Hole, de que um aperto monetário mais forte será necessário para desacelerar a economia e derrubar a inflação americana. E Wall Street, mais uma vez, fechou no vermelho.
As bolsas americanas, que vinham mostrando certa resiliência, passaram a sofrer com os investidores fugindo do risco, computando perdas crescentes. O Nasdaq acumula queda de 6% nos últimos três pregões, enquanto o índice Dow Jones amarga perdas de 4,5% no período.
Se o discurso de Powell já havia sinalizado que o Fed pretende seguir firme na alta dos juros por mais tempo, os dados de emprego e de confiança do consumidor divulgados ontem revelaram que a economia segue forte e que serão necessários apertos adicionais para trazer de volta a inflação para a meta de 2%. Na sessão de ontem, o Dow Jones fechou em queda de 0,96%, enquanto o S&P 500 recuou 1,10% e o Nasdaq, 1,12%. No mercado de renda fixa, o rendimento do título americano (Treasury) de dez anos continuou sua escalada, indo de 3,104% para 3,110%.
“Os dados [divulgados ontem] sugerem que a demanda por trabalhadores continua muito elevada historicamente e que o Fed vai ter mais trabalho para eliminar desequilíbrios no mercado”, diz Michael Gapen, economista de EUA do Bank of America.
O índice de confiança do consumidor do Conference Board subiu a 103,2 em agosto, de 95,3 da leitura anterior, de julho. O índice – que mostra a tendência de consumo dos americanos – voltou a subir depois de três meses de quedas consecutivas, indicando que os americanos ainda possuem forte intenção de realizar compras. Já o número de vagas de trabalho em aberto na economia americana subiu para 11,2 milhões em julho, de 10,7 milhões em junho, de acordo com Departamento de Trabalho.
Ao reiterar seu compromisso com a dependência dos dados, Powell fez com que os investidores voltassem a focar no ambiente macro, disse Yung-Yu Ma, estrategista-chefe de investimento da BMO Wealth Management à “Dow Jones Newswires”. “Com o Fed ficando agressivo novamente, a nuvem de incertezas está pesando nos mercados”, afirmou.
O foco do investidor na política monetária também foi impulsionado ontem por comentários feitos por presidentes regionais do Fed. O chefe do Federal Reserve de Nova York, John Williams, afirmou, em evento do “ The Wall Street Journal”, que o aperto monetário deve se estender até o próximo ano e que não vê o Fed cortando juros em 2023. William também disse que a economia segue ainda aquecida e que embora a inflação tenha dado sinais de arrefecimento, o mercado de trabalho segue bastante firme. Ele acredita que para domar a inflação o Fed deveria elevar os juros para um nível restritivo, acima de 3,5%.
Também com um tom mais agressivo, o presidente do Fed de Richmond, Thomam Barkin afirmou que o BC fará o que tiver que ser feito para derrubar a inflação. Barkin também ressaltou que acredita ser necessário levar os juros para o território restritivo e que ainda não vê evidências de uma recessão nos EUA. Já o presidente do Fed de Atlanta, Raphael Bostic, reforçou que ainda é cedo para cantar vitória sobre a inflação e que os juros devem subir mais.
“Apesar do forte aperto já realizado, o Fed provavelmente terá que ir além”, disse Tiffany Wilding, economista da América do Norte da gestora Pimco, em nota. Segundo ela, o ritmo agressivo das altas do Fed levou ao aperto mais rápido das condições financeiras desde a falência do Lehman Brothers em 2008.
Os analistas também projetam uma pressão maior para que Banco Central Europeu (BCE) eleve os juros em 0,75 ponto depois da divulgação dos dados prévios de inflação alemã, que mostrou uma aceleração na pressão de custos, de 7,5% em julho para 7,9% em agosto, e do pior sentimento econômico da zona do euro em 18 meses.
Para a economista-sênior para a Europa da Capital Economics, Jessica Hinds, a economia já mostra que os efeitos positivos da reabertura pós-pandemia estão sumindo no setor de serviços e o alto custo dos preços de energia atingiram a indústria. “Com a inflação devendo permanecer por mais tempo, o cenário é sombrio para a Europa.”
Fonte: Valor Econômico


