Por Mary McDougall — Financial Times, de Londres
09/01/2024 16h15 Atualizado há 16 horas
Muitos investidores vêm alertando governos ao redor do mundo por seus níveis “desenfreados” de endividamento público e pelos exageros nas promessas pré-eleitorais de captação de dinheiro, que ameaçam desencadear uma reação dos mercados de títulos de dívida.
A emissão de bônus governamentais nos Estados Unidos e no Reino Unido em 2024 deverá ser a maior da história, sem levar em conta os estágios iniciais da pandemia da covid-19.
Os países emergentes se somarão à enxurrada de vendas de títulos, após a dívida pública ter atingido um recorde de 68,2% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2023, segundo o Instituto Internacional de Finanças (IIF), a associação mundial do setor bancário.
Os déficits estão “fora de controle e a verdadeira questão é que não há mecanismo para controlá-los”, disse Jim Cielinski, chefe global de renda fixa da firma de gestão de ativos Janus Henderson.
De acordo com Cielinski, a questão se tornará uma preocupação séria para os mercados “nos próximos 6 a 12 meses, como algo que importa muito”.
O Tesouro dos EUA emitirá cerca de US$ 4 trilhões em bônus neste ano, com vencimentos entre 2 e 30 anos, segundo estimativas da Apollo Global Management, acima dos US$ 3 trilhões em 2023 e dos US$ 2,3 trilhões em 2018.
A emissão em termos líquidos, que leva em conta as compras do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) e os papéis existentes vencendo, será de US$ 1,6 trilhão no ano até setembro, segundo cálculos do RBC Capital Markets, o segundo maior período de 12 meses na história. O banco canadense estima que a emissão líquida em 2024-2025 superará os níveis da era da pandemia.
O alto volume de captação de dinheiro provavelmente fará os mercados desviarem a atenção de seu foco mais costumeiro, adivinhar o rumo das taxas de juros, segundo gestores de fundos.
“Estamos verdadeiramente num ambiente desenfreado para a dívida pública em comparação com os séculos anteriores”, disse Robert Tipp, chefe de títulos globais na PGIM Fixed Income. “Todos estão ganhando um passe livre agora, seja nos EUA ou na Itália, mas têm surgido alguns sinais recentes de que investidores e agências avaliadoras de crédito começam a voltar a pensar nisso”.
O Reino Unido, onde há eleições programadas para este ano, deverá ter seu segundo maior ano em colocações de títulos, atrás apenas de 2020, quando o Banco da Inglaterra, autoridade monetária do país, interveio para absorver a oferta no início da pandemia da covid-19. A emissão do banco central em termos líquidos deverá ser cerca de três vezes superior à média dos últimos dez anos.
Keir Starmer, cujo Partido Trabalhista tem uma vantagem considerável nas pesquisas de opinião público, deverá redimensionar para baixo as promessas de captar 28 bilhões de libras esterlinas (US$ 35,6 bilhões) por ano para seu “plano de prosperidade verde”, em meio às preocupações com o nível de dívida pública.
Na semana passada, Robert Stheeman, chefe do escritório de gestão de dívidas do Reino Unido, advertiu em entrevista ao “Financial Times” que “num mundo onde temos dívidas para emitir, a elaboração das políticas econômicas não pode estar divorciada da realidade do mercado”.
Na Europa, dez dos maiores países da região do euro emitirão cerca de 1,2 trilhão de euros em bônus neste ano, perto do mesmo nível de 2023, segundo estimativas do NatWest. O banco, entretanto, prevê um aumento na emissão em termos líquidos – que inclui o impacto do aperto quantitativo e exclui a rolagem de títulos existentes – em torno a 18% neste ano, para 640 bilhões de euros.
A atenção aos níveis de endividamento se dá em um ano historicamente movimentado em termos de eleições, o que aumenta os incentivos para os líderes políticos elevarem os gastos. Enquanto os EUA se preparam para a eleição presidencial em 5 de novembro, não há muitos sinais de apetite por contenção fiscal por parte dos principais concorrentes políticos, segundo investidores.
“Tendo em vista os dois principais concorrentes […] não parece que muita coisa mudará mesmo quando a eleição terminar, e eles continuarão gastando em alto nível”, disse David Zahn, chefe de renda fixa europeia da Franklin Templeton, referindo-se ao presidente Joe Biden e ao seu provável oponente, o ex-presidente Donald Trump. “Em algum momento isso poderia criar um problema para os EUA”.
O déficit orçamentário dos EUA em relação ao PIB deverá oscilar entre 6,5% e 8% nos próximos quatro anos, segundo previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI), um grande aumento em relação aos menos de 4% em 2022. As projeções indicam que os pagamentos de juros devem crescer de menos de 3% do PIB em 2022 para 4,5% em 2028.
O IIF alertou para a série de eleições por vir e para os atuais atritos geopolíticos no mundo emergente, que “levantam preocupações sobre o aumento do endividamento governamental e a disciplina fiscal, inclusive na Índia, África do Sul, Paquistão e EUA”.
“Se as próximas eleições resultarem em políticas populistas destinadas a controlar as tensões sociais, o resultado pode ser um endividamento governamental ainda maior e uma restrição fiscal ainda menor”, destacou o IIF, acrescentando que um aumento repentino nos gastos governamentais durante este ciclo mundial de eleições “pode elevar ainda mais o encargos dos juros para muitos devedores soberanos – já em níveis elevados”.
Fonte: FT / Valor Econômico


