O famoso investidor Michael Burry alertou que a queda do bitcoin (BTC) abaixo de alguns patamares importantes pode ter efeitos em cascata, levando a uma destruição massiva de valor.
Em um post no Substack na segunda-feira (2), Burry argumentou que a criptomoeda original foi exposta como um ativo puramente especulativo, falhando em se estabelecer como uma proteção contra a desvalorização monetária, nos moldes dos metais preciosos. Isso vai contra o argumento de longa data de seus defensores de que a oferta fixa do bitcoin o torna uma opção comparável ao ouro.
Os comentários de Burry vieram no momento em que a criptomoeda caiu abaixo de vários marcos-chave, atingindo no fim de semana o menor nível desde a turbulência induzida por tarifas no ano passado. Ela continuou a cair nesta terça-feira, chegando a ficar brevemente abaixo de US$ 73.000, apagando os ganhos acumulados desde a reeleição de Donald Trump em novembro de 2024.
“Cenários nauseantes agora passaram a estar ao alcance”, escreveu Burry, alertando que, se o bitcoin cair mais 10%, a Strategy, uma das empresas mais agressivas em termos de tesouraria em bitcoin, ficará com prejuízos de bilhões de dólares e encontrará os mercados de capitais essencialmente fechados.
A moeda digital já se desvalorizou em mais de 40% desde que atingiu um recorde no início de outubro. Analistas citaram uma confluência de fatores para a queda, incluindo o desaparecimento de fluxos de entrada, a redução da liquidez e uma perda mais ampla de apelo macroeconômico. Um número crescente de traders nativos do mercado cripto também está menos animado com a economia de tokens, migrando para apostas em eventos à medida que os mercados de previsão ganham força.
O bitcoin falhou em responder a impulsionadores típicos, como a fraqueza do dólar ou o risco geopolítico, ao contrário do ouro e da prata, que subiram a níveis recordes à medida que as tensões globais alimentaram temores sobre a desvalorização do dólar.
“Não há nenhuma razão de caso de uso orgânico para que o bitcoin desacelere ou interrompa sua queda”, disse Burry.
A adoção do token por tesourarias corporativas e por novos fundos negociados em bolsa (ETFs) à vista ligados a cripto não é suficiente para sustentar seu preço indefinidamente nem para evitar consequências devastadoras caso ele caia de forma acentuada, afirmou. Quase 200 empresas de capital aberto detêm bitcoin, observou ele.
Embora isso tenha ajudado a ampliar a demanda, “não há nada permanente em ativos de tesouraria”, escreveu.
Ativos de tesouraria precisam ser marcados a mercado e incluídos nos relatórios financeiros. Se o preço do bitcoin continuar caindo, gestores de risco começarão a aconselhar suas empresas a vender, alertou Burry.
Ele acrescentou que o advento dos ETFs à vista apenas inflou a natureza especulativa do bitcoin, ao mesmo tempo em que aumentou a correlação do token com os mercados acionários. A correlação do bitcoin com o S&P 500 recentemente se aproximou de 0,50, escreveu ele. Em teoria, liquidações passarão a ocorrer de forma agressiva quando as posições em prejuízo começarem a crescer.
Burry acrescentou que os ETFs de bitcoin vêm registrando alguns de seus maiores fluxos de saída em um único dia desde o fim de novembro, com três deles ocorrendo nos últimos 10 dias de janeiro.
Ainda assim, embora Burry alerte para repercussões, a presença das criptomoedas permanece pequena demais para provocar um contágio amplo. O valor de mercado do bitcoin abaixo de US$ 1,5 trilhão, a exposição limitada das famílias e a adoção corporativa restrita sugerem que qualquer efeito no nível geral de riqueza provavelmente permanecerá contido.
Segundo algumas métricas, a bolha de tesourarias em ativos digitais já estourou. A alavancagem do varejo secou, e colapsos anteriores – da Terra/Luna à FTX – não conseguiram infectar os mercados tradicionais. Os otimistas agora apontam para a clareza regulatória e para uma avaliação barata como combustível para uma nova recuperação rápida.
Mas, à medida que o bitcoin continua a cair abaixo de certos níveis-chave, Burry vê isso contaminando mercados mais amplos. Ele citou a queda da criptomoeda como parcialmente responsável pelo recente colapso do ouro e da prata, já que tesoureiros corporativos e especuladores precisaram reduzir riscos vendendo posições lucrativas em futuros tokenizados de ouro e prata.
Esses futuros de metais tokenizados não são lastreados em metais físicos reais e podem sobrecarregar as negociações de metais físicos, causando uma “espiral de morte colateral”, afirmou.
“Parece que até US$ 1 bilhão em metais preciosos foi liquidado no final do mês como resultado da queda dos preços das criptomoedas”, escreveu Burry. Se o bitcoin caísse para US$ 50.000, mineradores iriam à falência, enquanto “os futuros de metais tokenizados colapsariam em um buraco negro sem comprador”, disse ele.
Fonte: Valor Econômico

