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A moeda brasileira registrou um novo dia de perdas expressivas e o dólar encerrou acima de R$ 5,76, maior nível desde março de 2021. A tendência negativa do real em outubro – período em que o dólar já subiu 5,77% – está inserida em um ambiente doméstico conturbado, com incertezas fiscais latentes. No âmbito global, a frustração de investidores com estímulos na China e as perspectivas cada vez mais nítidas de uma vitória do republicano Donald Trump nas eleições presidenciais nos EUA traçam um cenário ainda mais desafiador para países emergentes.
Nesse contexto, o investidor estrangeiro, que vinha sendo uma espécie de última linha de defesa dos ativos locais, também vem dando sinais de menor apetite pelo Brasil. No mercado de derivativos, os não residentes ampliaram as posições compradas em dólar em US$ 10 bilhões em outubro, de US$ 61,8 bilhões para US$ 71,8 bilhões.
A entrada líquida de dólares pelo fluxo cambial ronda os US$ 8,5 bilhões, relativamente baixa, principalmente se comparada ao mesmo período de 2023, quando houve ingresso de US$ 25 bilhões. Com a entrada estrutural mais fraca no mercado à vista, operadores dizem que o mercado futuro ganha relevância na formação da cotação.
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No mercado de juros futuros, o estrangeiro reduziu praticamente pela metade sua aposta na queda das taxas em outubro. O número de contratos passou de 2,6 milhões no início do mês para 1,4 milhão.
A sessão de ontem não foi diferente. Enquanto o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, veio a público anunciar que ainda não há data para a divulgação das esperadas medidas de ajuste fiscal, ampliando a volatilidade sobre o real, outras moedas da América Latina também exibiram desvalorização expressiva com o aumento nas perspectivas de vitória de Trump.
O dólar encerrou o dia em alta de 0,92%, negociado a R$ 5,7610. A divisa também subiu 1,01% contra o peso chileno e 0,92% frente ao peso colombiano. No acumulado do ano, o dólar sobe 18,72% frente ao real. No mercado local de juros, a taxa do contrato DI para janeiro de 2029 saltou de 12,85% para 12,94%.
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Entre os relatos colhidos pelo Valor com participantes estrangeiros do mercado, a piora do cenário global vem sendo um fator determinante na decisão de reduzir as alocações no país, mas os fatores domésticos também têm trazido um certo “cansaço”, à medida que os prejuízos acumulados com as posições otimistas no Brasil vêm aumentando em 2024.
O estrategista global de câmbio e juros do Macquarie, Thierry Wizman, já mantinha uma visão negativa sobre os ativos locais desde o início do ano. “Minha preocupação sempre foi a de que os parâmetros e as premissas do arcabouço fiscal de 2023 não seriam cumpridos e, em algum momento de 2024, veríamos mais receios sobre a sustentabilidade da dívida. E que isso teria um efeito adverso sobre os ativos brasileiros, principalmente sobre o real”, diz.
O Macquarie mantém um preço-alvo de R$ 5,75 para a taxa de câmbio no fim de 2024. Na visão do estrategista, mesmo que o governo consiga entregar a meta de déficit no ano que vem, muitas das medidas anunciadas para ampliar a arrecadação não são recorrentes, e também há questionamentos na forma como despesas são contabilizadas. Assim, segundo ele, o mercado não vai descartar facilmente os problemas referentes à relação dívida/PIB ao longo do tempo.
“Para o próximo ano, ainda achamos que podemos ver o dólar subir frente ao real. Pode não ser um movimento tão grande como o que vimos até este momento, porque muitas das más notícias já foram refletidas no preço, mas estamos falando de R$ 5,90 a R$ 6 em algum momento de 2025”, afirma.
Questionado sobre quais motivos levariam o banco australiano a melhorar a visão sobre o Brasil, o estrategista elencou três fatores. O primeiro seria o fim dos embates entre governo e Banco Central, já que “nenhum investidor quer ver uma situação em que haja risco de captura do BC pelo poder Executivo”. Na sequência, Wizman cita uma perspectiva de maior crescimento econômico da China, que poderia dar sustentação aos preços de commodities, e uma derrota de Trump nas eleições americanas.
Para Joana Freire, gestora da Eurizon SLJ Capital, da Itália, o ambiente no Brasil não tem sido favorável, já que as incertezas fiscais dificultam a normalização das expectativas de inflação e contribuem para o elevado prêmio de risco no país. “Este ano, o Brasil deveria estar numa posição forte face a pares emergentes, dado o elevado ‘carrego’ e graças às reformas estruturais dos anos recentes, que ainda têm repercussões positivas no emprego e no crescimento”, afirma.
No entanto, segundo ela, a falta de ímpeto na agenda de reformas e a percepção do mercado de um fraco compromisso com o equilíbrio fiscal mantêm as taxas de juros elevadas, incentivando a permanência de investimentos em renda fixa e reduzindo a atratividade do Brasil como um destino de investimento global. “Reduzimos a nossa exposição a Brasil em renda fixa local no final do primeiro semestre para uma posição neutra”, relata.
O chefe de estratégia soberana de mercados emergentes do Standard Chartered Bank, Gordian Kemen, vê os ativos domésticos como “baratos”, mas aponta a necessidade de uma solução dos problemas fiscais do país para que os fluxos voltem a se direcionar para o mercado local.
“O resultado das eleições americanas pode causar alguma turbulência nos mercados brasileiros, mas também pode criar um senso de urgência neste fim de ano no sentido de que o governo busque alcançar um quadro fiscal que possa conter o prêmio de risco dos ativos”, diz. “Não há tantos mercados com juros reais tão elevados como o Brasil. Por isso, o desempenho deveria ser melhor, mas não tem sido, e parte disso é por conta de preocupações com questões domésticas”, diz o profissional do banco inglês.
Kemen diz que o fato de o real estar barato após a depreciação recente pode conter uma volatilidade mais forte após a eleição americana. “Por conta desse prêmio [de risco] elevado, do preço barato e das posições mais ‘leves’ [menor aposta no real contra o dólar], o efeito do resultado das eleições americanas no real pode ser limitado. Mas não dá para garantir que não vai ter mais um ‘sell-off’ [depreciação mais forte] do real com uma possível vitória do Trump, porque haverá um movimento global de valorização do dólar”, avalia.
Para Alejandro Cuadrado, estrategista do banco espanhol BBVA, o real já vinha enfrentando dificuldades desde o segundo trimestre do ano e, no fim do terceiro trimestre, a liquidação da moeda começou a parecer excessiva. “Os ‘valuations’ melhoraram para justificar posições compradas em real em movimentos mais extremos. Pegamos uma dessas ondas de recuperação em agosto, mas mais recentemente não tivemos tanta sorte”, diz. “As eleições nos Estados Unidos, as oscilações das commodities e o ‘sell-off’ contínuo dos juros locais não ajudaram a situação”, diz.
O estrategista vê exagero no prêmio de risco embutido nos ativos locais, mas reconhece a dificuldade de “operar Brasil” neste ambiente de volatilidade. “As taxas terminais próximas de 13% em um horizonte infinito parecem altas demais. Mas os juros movendo-se numa direção unilateral com grandes saltos, com ou sem dados [que justifiquem os movimentos], fazem com que eles se tornem ‘não-negociáveis’. E isso repercute na maioria dos outros mercados”, afirma.
O banco americano Wells Fargo espera uma taxa de câmbio de R$ 6,50 no primeiro trimestre de 2026, diante de uma perspectiva negativa para o crescimento econômico da China que pode afetar os mercados emergentes. O economista da instituição, Brendan McKenna, avalia ainda que, após o mau desempenho do Partido dos Trabalhadores nas eleições municipais, cresceu o risco de uma expansão fiscal nos anos de 2025 e 2026.
“Com a piora das finanças públicas e as preocupações quanto à permanência do arcabouço fiscal, combinadas com uma mudança de postura do BC para cortes de juros no segundo semestre de 2025 e a piora do desempenho econômico da China, pode ocorrer uma forte pressão de depreciação sobre o real no próximo ano e em 2026”, diz.
Há ainda importantes instituições financeiras que mantêm uma visão otimista sobre os ativos locais. É o caso da BlackRock, maior gestora de ativos do mundo. Segundo seu estrategista de renda fixa na América Latina, Benjamin Souza, o mercado precifica um ciclo de aumento da Selic mais forte do que o necessário para trazer a inflação de volta à meta de 3%. Isso, aliado ao fato de que boa parte do mundo está cortando juros, torna as taxas locais atrativas. “No contexto de que não há muitos países que estejam fazendo esse tipo de alta de juros, em uma base relativa, o Brasil está prestes a ter o juro real mais atrativo do mundo”, afirma.
Na sua avaliação, o que falta para o investidor estrangeiro enxergar o potencial de ganhos com a renda fixa brasileira é passar o período atual de incertezas marcado pelas eleições presidenciais nos Estados Unidos.
Para ele, a preocupação com a dívida “não é uma história apenas brasileira”. Embora reconheça que o cenário fiscal da América Latina é desafiador, Souza destaca dois pontos positivos para o Brasil. Primeiro, o reconhecimento do governo de que há necessidade de um ajuste fiscal; e em segundo, o resultado das eleições municipais, que apontou uma vitória do centro contra os “extremos”, o que pode reduzir as chances de medidas populistas na área fiscal.
Fonte: Valor Econômico
