Fármacos desenvolvidos nos últimos 60 meses representaram 30% do total da receita da Eurofarma em 2023 — Foto: Divulgação
Para as empresas da indústria farmacêutica e das ciências da vida, o processo de inovação é bastante longo. São anos de pesquisa e desenvolvimento até um novo medicamento chegar às prateleiras das farmácias ou aos hospitais. Inovar, para este segmento, significa, na ponta, salvar vidas. Encontrar novos tratamentos permite controlar sintomas, curar e prevenir doenças. Não é por acaso que o ranking Valor Inovação Brasil apontou o setor como o que mais prioriza ser inovador e o que mais investe em inovação.
De acordo com estudo da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma) sobre o cenário de pesquisa clínica no país, o Brasil reúne condições para ser um dos líderes mundiais não somente pelo tamanho e diversidade da população, mas também por ter recursos humanos capacitados. Em 2022, o país figurava na vigésima colocação no ranking mundial de pesquisa clínica, com apenas 2% dos estudos. Para a Interfarma, com o melhor aproveitamento de seu potencial, o Brasil poderia saltar para a décima colocação.
A Eurofarma, líder da categoria no ranking, tem na inovação um dos pilares estratégicos. “A criação de medicamentos inovadores com moléculas próprias é uma jornada de longuíssima duração. Para isso, fortalecemos o negócio atual para criar caixa e investir em inovação”, diz Martha Penna, vice-presidente de inovação da empresa. Os genéricos são os grandes geradores de caixa da multinacional brasileira, que também investe em medicamentos incrementais, licenças e parcerias em medicamentos com patentes. Mais recentemente, formou um fundo corporativo de investimento focado em empresas inovadoras de biotecnologia. Ao todo, serão investidos até US$ 100 milhões em biotechs que tenham projetos em fase inicial de descoberta e desenvolvimento de medicamentos.
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Desde 2023, seis empresas receberam aportes. “Investimos em fases muito iniciais, em medicamentos que ainda não foram para fase clínica ou irão em breve. E normalmente adquirimos um pedaço da empresa”, explica, acrescentando que o objetivo é entrar em companhias que estão fazendo descobertas farmacêuticas em mais um modelo de se aproximar de inovação. Em 2023, a Eurofarma destinou R$ 615 milhões a pesquisa e desenvolvimento, mais que em 2022 (R$ 590 milhões) e 2021 (R$ 400 milhões) A área de inovação, liderada por Penna, tem em torno de 750 pessoas. Fruto disso, os fármacos desenvolvidos nos últimos 60 meses representaram 30% do total da receita da companhia em 2023. Moléculas patenteadas como evogliptina, delafloxacino e cenobamato resultaram do processo de licenciamento em parceria com outras farmacêuticas. A outra face da inovação na Eurofarma está a cargo da área de Rodrigo Fernandes, diretor de empreendedorismo e digital, cujo objetivo é manter a competitividade da companhia e garantir os melhores serviços para pacientes, médicos e farmácias.
Também brasileira, a EMS tem as principais frentes de inovação ligadas a medicamentos genéricos de alta complexidade; à inovação incremental (novas associações e formas farmacêuticas); a biotecnológicos (em parceria com a Bionovis, empresa de alta tecnologia na qual a EMS possui participação); e à inovação disruptiva (radical), por meio da presença da empresa nos Estados Unidos. No Brasil, o centro de P&D em Hortolândia (SP) recebe investimentos de 6% do faturamento anual e soma 656 funcionários. São cerca de R$ 600 milhões de reais, com previsão de aumento para R$ 660 milhões em 2025. O centro trabalha, desde 2006, em sinergia com o laboratório de pesquisas MonteResearch, na Itália. “Entre 40% e 50% do nosso desenvolvimento são inovações incrementais”, diz Carlos Alberto Fonseca de Moraes, diretor de P&D da EMS. Um exemplo é o anti-inflamatório com a ação gastroprotetora Nivux, desenvolvido 100% no Brasil pelas áreas de P&D e de pesquisa clínica da EMS. Moraes cita ainda o Bexai, um anti-inflamatório com nanopartículas.
Se no Brasil o foco da EMS é a inovação incremental, as parcerias com empresas nos Estados Unidos, que remontam a 2013, buscam a inovação radical. “Este tipo de inovação demora muito, eles estão na frente da gente em buscar novas drogas”, explica Moraes. Em Maryland, a empresa criou e mantém a Brace Pharma com objetivo de registrar terapias inovadoras em território americano e, posteriormente, submetê-las ao registro e aprovação de agências regulatórias. Em Atlanta está a Vero Biotech, com a qual a EMS conseguiu aprovação na FDA em 2019 e lançou, em 2020, o Genosyl® DS, um dispositivo portátil da nova geração de óxido nítrico inalatório para tratamento de pacientes pediátricos com hipertensão pulmonar.
Na Roche Farma Brasil, inovação vai além de novas moléculas. “Temos um olhar muito forte tanto para tecnologia como na forma, na administração e na aderência do paciente ao tratamento. Você tem de pensar no acesso da pessoa ao tratamento”, assinala Lorice Scalise, presidente da multinacional suíça. Neste ano, a Roche busca aprovação regulatória para terapias voltadas ao tratamento da hemoglobinúria paroxística (HPN), doença genética que aumenta o risco de trombose, à distrofia muscular de duchenne (DMD) — que marcará a entrada da Roche no mercado de terapias avançadas (ou terapias gênicas) no Brasil — e, na oncologia, visa ampliar a aprovação regulatória da molécula alectinibe, destinada ao tratamento do câncer de pulmão com mutação no gene ALK.
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Moraes, da EMS: parcerias com empresas nos Estados Unidos buscam inovação radical — Foto: Divulgação
No Brasil, a companhia tem 600 centros de pesquisa desenvolvendo 200 estudos que envolvem 1.400 pacientes para investigar diferentes áreas terapêuticas, como câncer, doenças raras, doenças respiratórias e oftalmologia. “É uma indústria de possibilidades e esperança, buscando alternativas e soluções. Pessoas têm expectativa de vida maior, porque achamos respostas”, destaca Scalise. No último ano, a Roche investiu cerca de R$ 540 milhões em pesquisa clínica no Brasil, 20% a mais que em 2022. “A Roche continua investindo muito em parcerias com o Instituto Vencer o Câncer e no desenvolvimento de centros de pesquisa fora do eixo Sul-Sudeste, como no Norte e Nordeste, porque estudo clínico também traz desenvolvimento para o país”, diz Scalise.
Os aportes do Aché Laboratórios Farmacêuticos também estão em alta. O investimento em P&D em 2023 somou R$ 250 milhões, um aumento de 60% sobre os R$ 156 milhões aplicados no ano anterior. Edson Antonio Bernes Junior, diretor para pesquisa e desenvolvimento no Aché, explica que o objetivo é identificar as necessidades não atendidas e traduzi-las em produtos. Cerca de 400 pessoas trabalham nessa área no Brasil.
No curto prazo, a empresa foca no lançamento de produtos similares; no médio prazo, está a inovação incremental e, no longo prazo, a inovação radical, que é o desenvolvimento de novas moléculas. São 12 projetos dentro da área de inovação radical em parceria com universidades e startups. “Em 2024, a participação na receita líquida de novos produtos é de 20% do nosso faturamento. Isso explica a questão de quão saudável é e de quão necessária é a renovação de portfólio”, diz Bernes Junior.
O processo de inovação no Aché ocorre em fases, começando com o mapeamento das necessidades não atendidas, a verificação da viabilidade do produto, aprovação interna para o desenvolvimento até a submissão para Anvisa, lançamento e acompanhamento do desempenho do produto. “O acesso da população a medicamentos está longe de ser ideal, mas já melhorou bastante do que era há dez anos. As empresas nacionais têm o papel de dar acesso a esta população”, aponta Bernes Junior.
Breno Oliveira, CEO da HyperaCotação de Hypera Pharma, reforça o coro de que a inovação é o principal caminho para a democratização do acesso a tratamentos. A empresa está focada na inovação incremental, introduzindo melhorias em produtos já existentes, como uma nova forma farmacêutica que facilite a administração do tratamento ou uma nova combinação de moléculas já conhecidas. “Nos próximos três anos, as moléculas que perderão patentes devem adicionar mais de R$ 10 bilhões ao nosso mercado. Estamos nos preparando para competir nessas novas áreas”, afirma.
Em 2023, os investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação foram de R$ 618,1 milhões e a companhia lançou 90 produtos. Como resultado, no primeiro trimestre de 2024, 21% da receita líquida teve origem nos produtos lançados nos últimos cinco anos. Nos últimos 12 meses, até março de 2024, os investimentos totais em P&D corresponderam a 7,4% da receita líquida. Cerca de 700 funcionários se dedicam à inovação no grupo.
A Hypera obteve financiamento de R$ 500 milhões com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que serão usados para lançamento de medicamentos e produtos para a saúde. Atualmente, o pipeline de inovação tem cerca de 500 produtos, que serão lançados nos próximos anos, principalmente nas categorias relacionadas a tratamentos crônicos e preventivos.
Fonte: Valor Econômico