11/08/2022
Mesmo com a projeção de perda de ritmo, a inflação deve seguir pressionada às vésperas das eleições de outubro, em um quadro ainda desconfortável para o bolso dos brasileiros, avaliam economistas.
Segundo eles, a expectativa é que o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) saia de uma alta de 10,07% em 12 meses até julho ?dado divulgado na terça pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)? para um avanço perto de 8% no acumulado até setembro.
?O cenário é ainda desconfortável para a população. É uma inflação pressionada, longe da meta do Banco Central?, diz o economista Luca Mercadante, da Rio Bravo Investimentos. Ele projeta IPCA de 8,32% no acumulado até setembro.
A carestia virou tema recorrente de manifestações de candidatos à Presidência. Para atenuar a perda do poder de compra dos brasileiros, fator que preocupa Jair Bolsonaro (PL) em sua tentativa de reeleição, o governo aposta em cortes de tributos e em um pacote turbinado de benefícios sociais, incluindo a ampliação do Auxílio Brasil.
O teto para cobrança de ICMS (imposto estadual) sobre combustíveis e energia, sancionado em junho por Bolsonaro, já provocou reflexos nos preços no mês passado.
Produtos e serviços como gasolina e luz caíram no país, levando o IPCA a registrar uma deflação (queda de preços) de 0,68% em julho.
?A redução do índice de inflação é uma boa notícia para um governo que precisa virar votos para vencer as eleições. É bem-vinda?, avalia Creomar de Souza, fundador da consultoria de risco político Dharma Politics.
?Essa diminuição se manifestou até agora em grupos segmentados. Não temos ainda uma queda tão abrupta nos alimentos, como vimos nos combustíveis?, diz. ?É a pedra no sapato do governo.?
A queda de preços em julho ficou mais associada a combustíveis e não alcançou a comida, que impacta mais o bolso da população pobre.
No mês passado, o grupo alimentação e bebidas acelerou para 1,30%, a maior alta dos nove segmentos pesquisados. Enquanto a gasolina caiu 15,48%, o leite longa vida saltou 25,46%. Os produtos foram destaques individuais no período.
?A deflação de julho veio com a canetada das desonerações?, afirma João Beck, economista e sócio do escritório de investimentos BRA. ?Em algum momento, isso vai ter de ser compensado.?
De acordo com economistas, é possível que o IPCA registre nova queda em agosto, menos intensa, ainda sob efeito da trégua nos combustíveis. Para setembro, a expectativa é que o índice volte a subir.
Sergio Vale, economistachefe da consultoria MB Associados, prevê IPCA acumulado de 8,4% até setembro. Apesar da provável desaceleração, ele pondera que a taxa ?é extremamente elevada? se comparada a patamares recentes.
?Entre a população mais pobre, o elemento que pode impactar é o Auxílio Brasil. Mas a sensação é de uma inflação ainda elevada?, diz Vale.
?A queda do IPCA é como uma vitória de Pirro. Há um esforço gigante, com uma renúncia fiscal gigante, e o efeito pode ser passageiro?, afirma André Perfeito, economista-chefe da corretora Necton.
Perfeito projeta inflação de 8,48% em 12 meses até setembro. Para ele, mesmo com a recente trégua das commodities agrícolas, a inflação de alimentos deve seguir pressionada nos próximos meses devido a fatores como os custos de produção elevados.
O primeiro turno das eleições acontecerá em 2 de outubro. Um eventual segundo turno, em 30 de outubro.
Os dados do IPCA até setembro serão divulgados entre as duas datas, em 11 de outubro, segundo o IBGE.
O professor Sérgio Praça, da Escola de Ciências Sociais da FGV (Fundação Getulio Vargas), avalia que o contexto econômico tende a pesar sobre as decisões dos eleitores, e o saldo para Bolsonaro ainda é incerto.
?As eleições presidenciais, não só no Brasil, são muito determinadas pela situação econômica. Quanto melhor a situação, maior a chance de reeleição de um presidente?, afirma.
?A inflação joga contra a reeleição do presidente Bolsonaro. O quanto vai impactar, não se sabe. O Auxílio Brasil de R$ 600 é uma medida com vistas a ter impacto eleitoral. Tem efeito, mas não se sabe o quão sustentável é?, completa.
Alex Agostini, economista-chefe da agência de classificação de risco Austin Rating, prevê uma trégua para a inflação acumulada em agosto e setembro. Isso, pondera, não elimina todo o quadro de pressões sobre bens e serviços.
?Não vamos nos enganar com os dados. A deflação em julho teve impacto de mudanças tributárias?, afirma Agostini, que projeta IPCA de 7,8% no acumulado de 12 meses até setembro.
?A gente ainda vai ter uma inflação pesando no bolso do consumidor?, acrescenta.
Fonte: Folha de S.Paulo
