Por Augusto Decker, Valor — São Paulo
30/01/2024 12h20 Atualizado há 16 horas
Os números de inflação no Brasil podem surpreender para baixo neste ano, o que abriria espaço, até mesmo, para que a Selic alcance o nível de equilíbrio, entre 7,5% e 8%, defende o CEO da SPX Capital, Rogério Xavier. No cenário base da gestora, a inflação deve ficar em 3,3% neste ano, mas há um cenário alternativo observado com atenção por Xavier, que pode levar o IPCA a 2,8%: a chance de decisões favoráveis ao consumidor pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em temas como tarifas de energia elétrica.
“Com a nossa projeção de inflação a 3,30%, achamos que os juros podem cair a até 8,5%”, disse Xavier em evento realizado pelo Andbank na manhã desta terça-feira, em São Paulo. “O mercado não está muito distante disso”, notou o executivo, ao se referir ao Focus, onde a mediana das projeções dos economistas aponta para uma Selic de 9% no fim deste ano.
Xavier considera altíssima a probabilidade de as decisões do STF serem favoráveis aos consumidores e, consequentemente, reduzirem a projeção de inflação da SPX para 2,8%. Nesse caso, ele vê possibilidade de a taxa Selic cair a 7,5% ou 8%, mas reforçou que essa possibilidade dependeria de a inflação realmente cair para os 2,8% projetados pela SPX. Outra condição estaria em uma aproximação maior das expectativas de inflação de 2025 da meta de 3% (hoje elas estão em 3,5%).
A visão construtiva da SPX em relação à inflação e aos juros também é vista nas expectativas para o câmbio. Xavier acredita que a taxa de câmbio que levaria a conta corrente do país para a média histórica de déficit de 2% do PIB seja próxima de 4,50 reais por dólar. Ele destacou, porém, que o comportamento do câmbio doméstico deriva de outros dois fatores relevantes: do afrouxamento monetário em países desenvolvidos; e de que a atividade econômica da China não piore.
Nesse sentido, para Xavier, apesar do cenário para o Brasil ser favorável, a China representa um risco relevante. As dificuldades chinesas e seus possíveis efeitos por aqui adicionam cautela ao gestor em relação aos ativos locais – ele tem se posicionado mais em outras teses, especialmente na queda de juros em países desenvolvidos e na valorização do dólar contra moedas de países desenvolvidos.
“A convicção na parte de juros é bem alta, principalmente entre os desenvolvidos. O caso da queda dos juros está bem fundamentado, acredito que seja uma questão de pouco tempo para se confirmar”, disse o executivo. A expectativa de Xavier é de que os bancos centrais dos Estados Unidos, da zona do euro e do Reino Unido comecem a cortar as taxas de juros em março. “Vejo a alocação na Europa e no Reino Unido mais clara porque a economia dos EUA está bem, enquanto no Reino Unido e na Europa está fraca.”
Ele acrescentou que, ao contrário da tese de investimentos no Brasil, a possibilidade de crise econômica na China não representa um risco para as posições em juros nos mercados desenvolvidos. “Se a economia mundial tiver um colapso por causa dos problemas da China, a inflação deve cair ainda mais, o que exige cortes ainda mais agressivos de taxas de juros. Vai na mesma direção da alocação que fazemos.”
Em relação ao dólar, Xavier acredita que Europa e Reino Unido devem precisar cortar mais os juros do que os EUA, ao mesmo tempo em que a economia americana deve registrar crescimento mais robusto. “Então o dólar tende a ser forte contra eles”, destacou. Ele acredita que, embora o real também seja forte candidato a se valorizar caso não haja uma forte crise da China, o risco que o país asiático representa é considerado grande demais.
O gestor disse, ainda, ter posições vendidas em commodities, principalmente as agrícolas, e que não tem posições em energia. “O petróleo depende muito do que a Opep vai fazer.”
Xavier também não demonstrou ter grandes preocupações com a geopolítica. Para ele, o conflito entre Rússia e Ucrânia tende a se aproximar de uma negociação. No Oriente Médio, ele também vê um acordo mais próximo.
Em relação à China, o executivo afirmou que países não costumam “comprar duas brigas ao mesmo tempo”. “Agora a China está na briga econômica. Essa briga deve ser perdida, então ela deve levar à geopolítica, porque quando os ditadores perdem apoio interno, costumam criar guerras para gerar união interna e fortalecer o ditador. Mas acho que esse evento geopolítico na China será posterior à crise econômica.”
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Fonte: Valor Econômico


