Por Isabel Filgueiras, Valor Investe — São Paulo
12/09/2022 18h18 Atualizado há 14 horas
Os bancos centrais estão tentando. Mas ela, a inflação, persiste. Está muito difícil de debelar desta vez, avalia Axel Christensen, estrategista-chefe de investimentos para América Latina da BlackRock.
De acordo com o especialista, a falta de suprimentos causada pela pandemia, que ainda hoje afeta diversos setores, fez com que a estratégia de investir no baixo custo de produção na Ásia fosse revista.
Será preciso diversificar os pontos de produção, com outros distribuidores globais, não só a China ou países adjacentes. Mas essa mudança terá um custo que, inevitavelmente, será repassado aos consumidores.
“Não ficaremos no pico, como vemos hoje, de 9%, 10% ao ano em países como os Estados Unidos. Mas também não voltaremos para o patamar de antes, talvez fique em torno de 3% ou 4% ao ano. Pode haver anos em que será de 5% ao ano”, diz.
Ele avalia que a guerra na Ucrânia, que fez com que os preços dos alimentos e dos combustíveis subisse, só acelerou uma inflação que já estava em curso, como resultado da pandemia.
Segundo ele, países emergentes, principalmente na América Latina, acabam saindo na frente diante desse “novo normal”, porque esta novidade, uma inflação nesses níveis, já é comum por aqui, enquanto em países desenvolvidos há dificuldade de entender o cenário e trabalhar em cima dele.
“Durante um período chamado de Grande Moderação (que começou na década de 1980), a inflação era contida. Mas agora a inflação está muito mais difícil. Os bancos centrais estão com mais dificuldade de lidar com ela. Vemos essa era da Grande Moderação acabando e estaremos numa era muito mais volátil e difícil de prever”, afirma.
No momento, os motivos da alta generalizada de preços no mundo todo dificultam o trabalho dos bancos centrais e tornam mais difícil de contornar a inflação. As autoridades monetárias têm um poder limitado de atuação.
“Eles não têm como controlar, porque tem a ver com combustível e preços da comida”, avalia.
Entretanto, para o economista, há um lado positivo nisso tudo. As pessoas vão procurar cada vez mais gestores habilidosos para obter ganhos reais.
O Brasil está em posição de vantagem porque, assim como seus pares na região e diferentemente de Europa e Estados Unidos, o ciclo de juros altos está mais perto do fim no país. A postura proativa diante da alta de preços beneficiou o país.
“Estamos mais cautelosos nos mercados dos países desenvolvidos porque eles estão menos acostumados a lidar com a inflação. Os bancos centrais na América Latina já estão mais perto de encerrar o ciclo”, comenta o estrategista.
Há ainda o fato de que o mercado brasileiro tem um potencial maior de ganhos com retomada da economia da China, que tenta voltar a crescer e não enfrenta inflação, apenas desafios na política “zero Covid”.
A BlackRock afirma que irá adotar uma estratégia mais cautelosa pelo menos até o fim do ano, com posições consolidadas na América Latina e menos arriscadas na Europa, onde o ciclo de aumento de juros está só começando.
Sobre as eleições, a gestora global evita tomar partido ou fazer comentários. Segundo Christensen, a questão política já está no preço na hora de analisar o portfólio global.
“Ciclos políticos fazem parte. O negócio segue como sempre. Mas para nós é parte de um portfólio global muito diverso. [O resultado da eleição] não é melhor ou pior, só diferente”, diz.
Fonte: Valor Econômico


