Influenciada pelos preços mais baixos dos alimentos e dos automóveis, a inflação dos EUA mostrou uma leve queda em abril, após três leituras elevadas, o que deve permitir um suspiro de alívio para as autoridades do banco central americano e para a equipe da campanha de reeleição do presidente do país, Joe Biden.
Os preços ao consumidor subiram 0,3% de março a abril, informou o Departamento do Trabalho nesta quarta-feira, uma ligeira queda em relação ao 0,4% do mês anterior. Na comparação anual, a inflação desacelerou de 3,5% para 3,4%. A alta do núcleo da inflação, que exclui os custos dos alimentos e fontes de energia, mais voláteis, caiu para o nível mais baixo em três anos.
Nos primeiros três meses do ano, a inflação havia surpreendido pelo alto patamar, após ter desacelerado de forma constante no segundo semestre de 2023. As leituras elevadas haviam enfraquecido as esperanças de que o pior surto de inflação em 40 anos seria controlado rapidamente.
Uma continuidade na desaceleração da inflação poderia ter impacto considerável na corrida presidencial. Críticos republicanos de Biden têm tentado atribuir ao presidente a culpa pelos altos preços e usado isso para tentar atrapalhar sua campanha de reeleição. Embora o número de contratações permaneça alto e o crescimento salarial, em média, saudável, os preços ao consumidor continuam, em termos gerais, bem acima dos níveis anteriores à pandemia da covid-19.
O relatório de quarta-feira traz certa dose de alívio de que o ritmo dos aumentos de preços pode estar retomando o caminho da desaceleração. Embora os novos números mostrem que a inflação ainda está bem acima da meta de 2% ao ano do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA), é a primeira vez em 2024 que a leitura anual diminui. Os aumentos de preços tiveram desaceleração em alguns setores de serviços, como os de hotéis, de saúde e de consertos de carros, que até então vinham mantendo a inflação elevada.
O indicador “foi um pequeno passo na direção certa”, disse Danielle Hale, economista-chefe do site de anúncios classificados de imóveis Realtor.com. “A luta contra a inflação ainda não acabou, mas a tendência de piora observada no primeiro trimestre de 2024 pode ter terminado.”
O presidente do Fed, Jerome Powell, respondeu às leituras altas da inflação no início do ano retirando as sinalizações anteriores de que havia probabilidade de cortes nos juros em 2024. Em vez disso, ele passou a enfatizar que as autoridades monetárias do Fed precisam de “maior confiança” de que a inflação está caindo para a meta de 2% antes de reduzirem os juros, hoje em patamares elevados.
Alguns economistas sinalizam que se a inflação, e a economia como um todo, continuarem a perder força, o Fed ainda poderia cortar os juros duas vezes em 2024, o que reduziria os custos dos financiamentos imobiliários, dos créditos para automóveis e dos cartões de crédito, entre outras formas de empréstimo.
Um indicador separado sobre as vendas no varejo, também divulgado na quarta-feira, mostrou que os gastos dos americanos em lojas e restaurantes ficaram inalterados em abril, após a alta significativa observada em março. Uma maior contenção dos consumidores poderia tranquilizar o Fed de que a inflação continuará em desaceleração.
Os dados de inflação de quarta-feira “mantêm viva a perspectiva de o Fed cortar as taxas em setembro”, disse Kathy Bostjancic, economista-chefe da empresa de seguros Nationwide Financial. “Os dados fracos de vendas no varejo também sustentam essa ideia.”
Entre os componentes do indicador, os preços dos alimentos caíram em abril, trazendo alívio para os consumidores. Os preços dos ovos, que têm se mostrado particularmente voláteis após um surto de gripe aviária, caíram 7,3%. Os dos carros novos e usados também caíram. Em contraste, os preços da gasolina e das roupas aumentaram.
Excluindo os custos voláteis dos alimentos e das fontes de energia, o chamado núcleo da inflação subiu 0,3% de março a abril após três meses consecutivos de aumentos de 0,4%. Na comparação anual, o núcleo da inflação foi de 3,6% em abril, abaixo dos 3,8% em março. O Fed acompanha de perto o núcleo da inflação, que tende a ser uma leitura melhor do rumo para onde a inflação se dirige.
Em comentários na quarta-feira, Biden reconheceu que “os preços ainda estão muito altos”. Ressaltou, contudo, que suas políticas reduzirão os preços dos medicamentos vendidos com receita e incentivarão a construção de casas para ajudar a diminuir os custos habitacionais. Também pediu às redes de supermercados que reduzam os preços dos alimentos para os consumidores.
Por sua vez, Donald Trump, o provável candidato presidencial republicano, disse em entrevista de rádio na quarta-feira que “é uma inflação grande quando somada à inflação que já sofremos, que foi tão ruim”.
Em uma tendência que tem frustrado a luta do Fed contra a inflação, os preços de aluguel de apartamentos teimaram em continuar altos em abril, com alta de 0,4% em relação a março. O preço médio dos aluguéis de apartamentos em abril foi 5,4% mais alto do que no mesmo mês de 2023. O aluguel e outros custos com moradia representaram cerca de 65% do aumento anual do núcleo da inflação.
O preço dos aluguéis foi às alturas durante a pandemia, uma vez que mais americanos optaram por morar sozinhos ou por espaços maiores para morar. Embora os preços dos novos contratos estejam subindo muito menos, mais alinhados ao ritmo anterior à pandemia, os aumentos prévios ainda estão elevando os números pesquisados pelo governo.
Powell, em declarações feitas em Amsterdã na terça-feira (14), chamou os aluguéis de “um certo enigma”, porque os novos contratos de locação mostram elevações ínfimas nos novos aluguéis. Ao que parece, esses dados mais fracos ainda não foram refletidos nas medições do governo, que cobrem todos os aluguéis, incluindo os de inquilinos que renovam seus contratos e sofrem aumentos maiores. Powell disse que as medições do governo, em algum momento, deverão mostrar um abrandamento na alta dos aluguéis.
Powell também reiterou que ainda prevê que a inflação acabe atingindo a meta de 2% do banco central. No entanto, admitiu que sua confiança nessa previsão havia perdido força após três meses consecutivos de leituras elevadas dos preços. A inflação caiu de forma drástica desde os 9,1% do terceiro trimestre de 2022, mas está mais alta agora do que em junho de 2023, quando chegou a 3% pela primeira vez.
Com 11 aumentos dos juros entre março de 2022 a julho de 2023, as autoridades monetárias do Fed elevaram sua taxa básica para o maior nível em 20 anos, 5,3%, como parte dos esforços para conter o aumento dos preços. Powell destacou na terça-feira que o Fed manterá os juros nesse nível pelo tempo que for necessário para derrotar totalmente a inflação, um sinal de que os cortes não começarão tão cedo quanto muitos imaginavam.
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Fonte: Valor Econômico
