A inflação da Argentina surpreendeu os analistas e desacelerou em maio para o menor índice desde janeiro de 2022. Esses analistas alertam, porém, que a tendência pode não se sustentar em junho, uma vez que o governo adiou para este mês aumentos programados nos preços de tarifas públicas.
O índice de preços ao consumidor subiu 4,2% no mês em maio, bem abaixo da taxa de 8,8% registrada em abril, segundo informou ontem o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec). Em termos anuais, a inflação tambpém desacelerou para 276,4%, de 289,4% em abril. No ano, a inflação acumulada é de 71,9%.
“O resultado surpreendentemente baixo para o mês se explica pela forte recessão, com a economia argentina ainda buscando o fundo do poço, e porque muitos ajustes de preços controlados foram adiados, como eletricidade, gás e transporte”, diz Juan Pablo Ronderos, da consultoria MAP.
Economistas estimam que os aumentos nos preços controlados — adiados no mês passado pelo governo Javier Milei para assegurar a consolidação da trajetória de desaceleração da inflação — deverá ter um impacto na taxa de junho, resultando em uma inflação ligeiramente superior a 5,5%. “Acreditamos que uma parte desse reajuste de preços [controlados] que não ocorreu em maio começará a vir em junho”, disse Ronderos.
Para José Lezama, economista e diretor da Fundação Geo de estudos econômicos, a inflação de junho pode ficar no mesmo nível que maio, uma vez que não se antecipa uma recuparação da atividade no curto prazo e a taxa de câmbio deve permanecer nos níveis atuais. “O impacto das tarifas, que até o momento também estão congeladas [nos serviços públicos], desempenhará um papel fundamental”, acrescentou.
A decisão do governo de acabar com a emissão monetária descontrolada para financiar o déficit do Tesouro é um dos fatores que contribuíram para reduzir o ritmo de crescimento da inflação. Mas economistas alertam que a manutenção das expectativas para a inflação continua sendo um aspecto-chave para a economia argentina.
“A credibilidade das políticas econômicas e a comunicação eficaz por parte do banco central e do governo são fundamentais para manter a confiança do público e dos mercados. O papel da política, seja através da promulgação da Lei de Bases, é fundamental para as expectativas”, diz Lezama.
A divulgação da inflação de maio acontece na mesma semana em que o governo Milei obteve uma importante vitória política, com a aprovação da Lei de Bases e do Pacote Fiscal no Senado.
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Mesmo que a redução da inflação ainda não represente estabilização macroeconômica suficiente para atrair investimento estrangeiro, a Lei de Base pode ser importante para alguns setores, especialmente para aqueles relacionados ao regime de incentivo a grandes investimentos — que poderá atrair anúncios em setores muito específicos, como energia, petróleo e mineração. “Não será generalizado”, diz Ronderos.
Porém, Ronderos ressalta que não haverá entrada de capital maciço na Argentina antes do fim dos controles cambiais no país — o chamado “cepo”. “Acreditamos que isso só acontecerá no fim do ano. Cerca de 90% das transações financeiras na Argentina são feitas hoje com dinheiro local e, na economia real, diria que praticamente não há movimento atualmente.“
Nesta semana, o governo de Milei também renovou uma parte de US$ 5 bilhões de sua linha de swap com a China. Ontem, o Fundo Monetário Internacional (FMI) informou que a sua diretoria-executiva aprovou o desembolso de US$ 800 milhões da última revisão do programa de crédito da Argentina. O governo Milei já anunciou que buscará junto ao Fundo um novo aporte financeiro. O presidente argentino viajou para a cúpula do G7 na Itália neste fim de semana, onde deve se reunir com os principais acionistas do FMI e com a diretora-gerente Kristalina Georgieva.
Segundo o Indec, os setores que sofreram as maiores altas em maio foram Comunicação (8,2%), devido aos aumentos nos serviços de telefonia e internet. Em seguida, vieram Educação (7,6%) e bebidas alcoólicas e tabaco (6,7%).
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Fonte: Valor Econômico
