Após quatro altas, produção cai em junho e primeira metade do ano termina 0,5% abaixo do encerramento de 2021
Por Lucianne Carneiro e Rafael Vazquez — Do Rio e de São Paulo
03/08/2022 05h02 Atualizado há 2 horas
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Mirella Hirakawa: principal fator que contribuiu para a queda foi a produção de remédios, com retração de 14,1% — Foto: Divulgação
A produção industrial caiu 0,4% em junho ante maio após quatro altas mensais consecutivas, segundo dados divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado veio levemente pior do que a expectativa apontada no Valor Data, que era recuo de 0,3%. Apesar da perda de ímpeto, o segundo trimestre terminou com crescimento de 0,9%.
No acumulado do primeiro semestre, houve queda de 2,2%, mas analistas reduziram a importância desse número devido ao efeito base, já que a performance foi alta no mesmo período do ano passado, quando o setor se recuperava fortemente dos efeitos da pandemia.
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O desempenho de junho, considerado bom por alguns economistas e fraco por outros, expõe um momento delicado para a indústria brasileira. A perspectiva para o segundo semestre é de desaceleração da atividade econômica em um ambiente de juros altos e perda do poder de compra da população.
“O resultado trimestral da Pesquisa Industrial Mensal (PIM-PF) é positivo diante do cenário, mas não estamos com a mesma perspectiva para o segundo semestre”, disse a economista do Itaú Unibanco Natália Cotarelli. “A gente espera a indústria mais de lado para o restante do ano. Até o carrego para o próximo trimestre já virou 0,2% negativo e vemos a perspectiva menos positiva para os próximos meses do ano.”
Três das quatro grandes categorias do setor pesquisadas pelo IBGE tiveram queda na atividade em junho frente a maio.
Mirella Hirakawa, economista da AZ Quest, destaca que o principal fator que contribuiu para a queda em junho foi a produção de remédios – farmaquímicos e farmacêuticos – que apresentou uma declínio de 14,1% ante maio. Outro fator que chamou a atenção foi a categoria de transportes que excluem automóveis, que caiu 5,5%. Do outro lado, ela pontuou a contribuição positiva pelo efeito rebote da indústria extrativista, com alta de 1,9% vindo de uma queda de 5,7% no mês de maio. No entanto, a indústria de transformação, que representa 55% do desempenho do setor todo, caiu 0,3%.
Já o gerente da pesquisa do IBGE, André Macedo, destacou o crescimento de 6,1% em junho contra maio do segmento de veículos automotores, reboques e carrocerias, o que ajudou na alta de 6,4% da categoria de bens duráveis – a única que cresceu no mês. Mas ele também ponderou que o desempenho reflete perdas do passado e não garante trajetória sustentável do crescimento.
Embora a queda da PIM não deva causar mudanças nas projeções de crescimento do PIB para 2022, os economistas estão em consenso sobre o cenário difícil para a indústria no restante do ano, com uma provável oscilação nos resultados. O principal fator negativo é a política monetária restritiva implementada pelo Banco Central para combater a inflação – a taxa básica de juros está atualmente em 13,25% e pode subir para perto de 14%, de acordo com as projeções.
“A perda de sustentabilidade da indústria atrelada a juros mais altos e menor demanda em função da renda comprimida das famílias trazem um cenário desafiador a frente, e que pode se estender em 2023, com expectativas de commodities alimentícias e metálicas a menores patamares de preço”, declarou o economista do banco Original, Eduardo Vilarim.
A Federação das Indústria do Estado de São Paulo (Fiesp) mencionou, em nota, que os resultados entre fevereiro e junho ajudaram a produção do setor a retomar o nível pré-pandemia, mas lamentou que o desempenho não foi suficiente para assegurar um ritmo de crescimento sustentado.
“Com o resultado de junho, há uma acentuação do saldo negativo no ano (-0,5%) quando comparado com o patamar de dezembro de 2021. Isso reflete as dificuldades que o setor industrial permanece enfrentando, como o aumento nos custos de produção e a restrição de acesso a insumos e componentes para a produção de bem final. Nesse sentido, o comportamento da atividade industrial tem sido marcado por paralisações das plantas industriais, reduções de jornada de trabalho e concessão de férias coletivas”, afirma André Macedo.
Luca Mercadante, economista da Rio Bravo Investimentos, lembra que a indústria ainda sofre com a alta de custos causada pela ruptura nas cadeias globais de suprimentos e reforça a visão de dificuldades para o setor adiante. “Já vemos os sinais de desaceleração”, comentou.
Em uma visão mais ampla sobre o passado e o futuro, o pesquisador do FGV-Ibre Claudio Considera diz que a indústria brasileira padece há bastante tempo e não vê possibilidade dessa trajetória começar a ser revertida no curto prazo. “Está indo mal há muito tempo, principalmente a indústria de transformação. Está perdendo não apenas participação em relação ao PIB está diminuindo e dando espaço para importações no mercado doméstico e também perdemos capacidade de exportar. Um mês fica melhor, outro vem pior, mas estamos nessa toada há algum tempo”, afirmou.
Para o pesquisador, elementos atuais como a crise da Argentina, mercado importante para veículos e autopeças fabricadas no Brasil, os juros altos e a inflação nublam as esperança para o setor no restante de 2022.
Fonte: Valor Econômico