Por Joe Wallace, Georgi Kantchev David Uberti e William Boston — Dow Jones Newswires
13/09/2022 05h02 · Atualizado
Durante décadas a indústria europeia prosperou graças ao suprimento constante de gás russo barato, que fluiu sem interrupções durante toda a Guerra Fria e em outros momentos de tensão entre Moscou e o Ocidente.
Desde que invadiu a Ucrânia, o presidente russo, Vladimir Putin, tem usado as vastas reservas de energia do país como arma para minar o apoio a Kiev. Neste mês ele fechou o maior gasoduto de gás natural, o Nord Stream.
O impacto levou a Europa à beira da recessão e ameaça causar danos duradouros no setor industrial. Ao contrário dos EUA, a Europa dependeu da indústria para manter o crescimento econômico nas últimas décadas. Uma fatia maior de sua economia vem de siderúrgicas e fabricantes de produtos químicos e de automóveis.
Poucas escaparam da crise de energia na Europa, que atingiu desde os setores de aço e alumínio até os de automóveis, vidro, cerâmica, açúcar e papel higiênico. Alguns deles, como o metalúrgico, que faz uso intensivo de energia, fecharam fábricas que analistas e executivos dizem que nunca conseguirão reabrir, colocando em risco milhares de empregos.
A questão é se a crise atual é temporária ou marca o início de uma nova era de desindustrialização na Europa. O bloco vasculhou o mundo em busca de fornecimentos alternativos de gás, e fechou acordos de compra com EUA, Catar e outros países. Mas o continente pode nunca mais ter acesso ao gás russo barato que o ajudou a competir com os EUA, ricos em recursos, e compensar os altos custos da mão de obra, as regras trabalhistas estritas e as regulamentações ambientais rigorosas.
Uma redução da capacidade industrial da Europa aprofundaria sua dependência de materiais e peças fabricados no exterior em um momento em que os governos se esforçam por trazer para mais perto as cadeias de fornecimento para energia renovável, veículos elétricos e armamentos militares.
Os fabricantes de metais, que precisam de muita energia para produzir, estão na linha de frente da crise. Os preços da eletricidade mais que dobraram neste ano, impulsionados pelos altos preços do gás, os problemas nas usinas nucleares da França e a baixa geração de energia das hidrelétricas.
A ArcelorMittal, uma das maiores siderúrgicas do mundo, fechará um alto-forno em Bremen e uma planta de redução direta em Hamburgo que produz ferro esponja, usado para fabricar aço bruto. Na Alemanha, a ArcelorMittal já tinha reduzido sua demanda de gás em 40%, ante o que planejava consumir no início do ano, e tem comprado ferro esponja dos EUA em vez de fabricá-lo localmente com o uso de gás.
Os estoques de zinco estão quase esgotados na União Europeia (UE), o que leva os clientes a importarem o metal da China, segundo o grupo de lobby do setor metalúrgico Eurométaux. Analistas dizem que a produção europeia de alumínio primário está em extinção e isso deixa o continente com operações de reciclagem que produzem metal adequado para embalagens, mas não para cubos de roda, freios ou peças para aviões.
As fundições de alumínio não têm conseguido renovar seus contratos de energia. As empresas precisam de 15 megawatts-hora de energia para produzir uma tonelada métrica de alumínio primário. Isso lhes custa € 9 mil com os preços atuais da eletricidade, enquanto a tonelada métrica pode ser vendida por menos de € 2.500, segundo a associação representativa do setor na Alemanha, a WV Metalle.
“Precisamos de um auxílio de emergência imediatamente, caso contrário estaremos ameaçados de desindustrialização na Alemanha”, disse a gerente geral da WV Metalle, Franziska Erdle.
A fábrica de alumínio San Ciprián da Alcoa, na Espanha, a fundição de zinco Portovesme da Glencore, na Itália, e as fábricas de zinco do Grupo Trafigura na Holanda, França e Bélgica reduziram ou suspenderam sua produção. Em uma carta dirigida a autoridades da UE neste mês, a Eurométaux informou que metade da capacidade de produção de alumínio e zinco do bloco está desativada, em adição aos cortes nos setores de fabricação de silício e ligas de ferro.
Tom Price, chefe de estratégia de commodities da Liberum, comparou o choque à explosão dos preços da energia que acabou com a indústria de alumínio do Japão nos anos 1970. “Este é um acontecimento muito grave e a base industrial da Europa tornou-se extremamente dependente da Rússia para insumos de energia baratos”, disse ele. “Ela pode não ser capaz de se recuperar.”
A produção reduzida das fábricas da Europa ameaça se estender para as cadeias de fornecimento. As montadoras de automóveis foram afetadas tanto diretamente, por sua dependência do gás para fornecer energia e calor, quanto indiretamente, por causa de problemas de oferta. A Volkswagen informou que tem estocado produtos de vidro, como janelas e para-brisas, pois teme que a escassez de gás atinja os fabricantes de vidro.
Uma porta-voz da Safran, fabricante francesa de motores de aeronaves e equipamentos relacionados à área da defesa, disse que uma cadeia de fornecimento frágil limitou a capacidade da empresa de aumentar a produção. Ela acrescentou que por enquanto a Safran ainda consegue comprar metal dos fornecedores que já tem, mas continua a monitorar a situação.
Na área de produção de alimentos, as fábricas de açúcar dependem de gás natural para funcionar. Neste mês, a autoridade federal da concorrência da Alemanha anunciou que os quatro produtores do país terão autorização para cooperar se o fornecimento for cortado, por exemplo, cada um poderá disponibilizar sua capacidade para os demais. Se as fábricas de açúcar pararem, é provável que grande parte da colheita de beterraba apodreça e os preços subam para os consumidores, que já sofrem com a inflação dos alimentos.
As empresas correm para encontrar fontes alternativas de energia e assim manter a produção de açúcar. Segundo a Südzucker, uma das quatro empresas da área, garantir isso é difícil porque exige novas logísticas e instalações de armazenamento.
Algumas fábricas, como as de zinco, podem retomar as atividades rapidamente quando a economia volta a crescer. Para outras, como as de vidro e alumínio, a retomada é um processo demorado e caro que pode não fazer sentido do ponto de vista financeiro.
Até os fabricantes de papel higiênico foram afetados pela crise. Neste mês a Hakle, fabricante alemã de papel higiênico e produtos de higiene, se declarou insolvente e pediu concordata porque não conseguia mais elevar seus preços o suficiente para compensar os custos mais altos do papel por causa dos preços da energia.
Fonte: Valor Econômico


