A Índia lançou um plano ambicioso para construir portos de grande porte e abrir novas rotas marítimas, buscando aproveitar a realocação de empresas que estão se afastando da China devido às disputas geopolíticas com os Estados Unidos.
O Porto Jawaharlal Nehru — também conhecido como Porto Nhava Sheva — é o segundo maior da Índia em volume de contêineres movimentados. Localizado próximo a Mumbai, está sendo renovado com um empréstimo de US$ 131 milhões do Banco Asiático de Desenvolvimento e outros parceiros.
Portos existentes como esse têm espaço limitado para expansão. Em fevereiro, o governo e o setor privado — incluindo o operador do Nhava Sheva — anunciaram planos para construir um novo porto em Vadhavan, ao norte de Mumbai.
Com um investimento de 210 bilhões de rúpias (cerca de US$ 2,43 bilhões na cotação atual), a Índia pretende transformá-lo em um dos dez maiores portos do mundo, à medida que o comércio global se volta para a região do Oceano Índico, que abriga quase um terço da população mundial.
A maior parte do transporte global de contêineres segue rotas que conectam a Ásia aos EUA e à Europa. Navios que partem de portos asiáticos normalmente passam por centros internacionais como Xangai — o maior porto do mundo em volume de contêineres — e Cingapura, o segundo maior, seguindo depois diretamente para os EUA ou Europa.
Até agora, os portos indianos funcionavam como “ramificações” de portos centrais. No entanto, em maio de 2024, a MSC (Mediterranean Shipping Company), maior empresa de transporte de contêineres do mundo, atracou um navio de grande porte com capacidade para 19.200 TEUs (Twenty-foot Equivalent Unit, unidade equivalente a um contêiner de 20 pés) no Porto de Mundra, no oeste da Índia. No ano passado, um navio ultragrande de 24.000 TEUs fez escala no Porto de Vizhinjam, no sul do país.
Atualmente, a MSC opera uma rota principal de Qingdao (China), passando por Busan (Coreia do Sul) e Xangai até Barcelona (Espanha), com navios de 20.000 TEUs, tendo adicionado temporariamente Vizhinjam como escala. A empresa continua usando Vizhinjam em outra rota de retorno da Europa para a Ásia. Incluir uma escala regular para navios de 20.000 TEUs é um grande passo para uma companhia de transporte.
“Até agora, navios ultragrandes de 20.000 TEUs só podiam partir diretamente de Xangai ou Cingapura para a Europa ou América do Norte,” disse Gentaro Hara, vice-diretor do grupo de pesquisa da empresa japonesa NYK Line. “Agora, uma nova rota foi aberta para a Índia.”
“No futuro, pode ser criada uma rota direta da Índia para a costa leste dos EUA para navios de 20.000 TEUs,” acrescentou Hara.
As exportações do Leste e Sudeste Asiático para a Índia e o Oriente Médio em 2024 chegaram a cerca de 9,61 milhões de TEUs, um aumento de 40% em relação a 2022. “O crescimento da movimentação de cargas é notável, especialmente em bens de consumo,” afirmou Hara.
Empresas japonesas estão buscando aproveitar a transformação da Índia em um centro logístico. A Ocean Network Express — uma joint venture entre NYK, Mitsui O.S.K. Lines e Kawasaki Kisen Kaisha — inaugurou no ano passado sua primeira rota própria ligando a Índia à costa leste dos EUA.
Neste mês, os portos de escala dessa rota foram ajustados para facilitar a cobertura de portos importantes em ambos os países, como Mundra, Nhava Sheva e Nova York.
Empresas de transporte e logística esperam que os negócios originados na Índia se expandam para outras regiões e setores. As companhias já começam a enxergar a Índia como um polo de exportação.
A exportação de veículos de passeio da Índia no ano fiscal de 2024 foi de aproximadamente 770.000 unidades, um aumento de 15% em relação ao ano anterior, segundo a Sociedade de Fabricantes de Automóveis da Índia.
A Suzuki lançou o SUV Fronx no Japão em outubro passado como modelo reimportado fabricado na Índia. A Nissan começou a exportar o compacto Magnite este ano a partir do porto de Kamarajar, na Índia.
“Estamos considerando o Oceano Índico como uma região estratégica para nosso negócio de transporte de veículos como nunca antes,” afirmou Yutaka Ikeda, chefe regional da MOL (Índia), subsidiária da Mitsui O.S.K., que atua em parceria na operação do porto de Kamarajar.
A Índia também deve se tornar uma porta de entrada para a África. A Associação do Arco do Oceano Índico tem 23 países-membros, incluindo Índia, Austrália e África do Sul. As nações do grupo somam 2,7 bilhões de habitantes, cerca de 30% da população global.
O PIB da Índia deve crescer 6,2% este ano, superando a média global de 2,8%. Tanzânia e Quênia também têm projeções acima da média, com 6% e 4,8%, respectivamente.
“Se houver um hub na Índia, será mais fácil entender o que está acontecendo no Oriente Médio e na África,” disse Koichiro Hayashi, líder do grupo de pesquisa da NYK Line. A diáspora indiana tem presença forte na África, especialmente em ex-colônias britânicas como Quênia e África do Sul.
A Yusen Logistics Global Management, subsidiária da NYK, estabelecerá uma unidade no Quênia até março de 2026. A operação vai instalar uma sede regional para o Leste da África, levando à expansão da logística para o interior do continente.
“Usaremos o Quênia como base para expandir nossos negócios na Índia e na África,” afirmou Takeshi Kondo, executivo da Yusen Logistics Global Management.
A empresa começará oferecendo serviços de frete para cargas importadas por via aérea e marítima da Índia e de outras partes da Ásia, captando a crescente demanda africana por bens de consumo como autopeças, medicamentos e vestuário.
Depois, a Yusen Logistics passará a operar instalações logísticas próprias. No exercício fiscal que termina em março de 2027, a empresa planeja retornar ao mercado sul-africano, do qual havia se retirado temporariamente.
“O arco do Oceano Índico é um território completamente inexplorado,” afirmou Kondo. “Queremos transformá-lo em uma nova região prioritária.”
Fonte: Valor Econômico