A crise imobiliária na China pesa sobre a economia, já causou demissões em grande escala e levou empresas multibilionárias à beira do colapso. Só que muitos economistas acreditam que ainda vai ficar pior.
As vendas de novas moradias no país caíram 6% no ano passado, retornando a um patamar não visto desde 2016, segundo a Agência de Estatísticas da China. Os preços das moradias usadas nas quatro cidades mais ricas do país — Pequim, Xangai, Guangzhou e Shenzhen — caíram entre 11% e 14% em dezembro ao ano, segundo a corretora Centaline Property.
As incorporadoras estão iniciando menos projetos. Os proprietários estão quitando seus financiamentos imobiliários antecipadamente e contraindo menos empréstimos. Empresas imobiliárias antes prósperas estão agora presas em longas negociações com investidores estrangeiros, após calotes em cerca de US$ 125 bilhões em bônus emitidos no exterior entre 2020 e o fim de 2023, segundo números da S&P Global Ratings.
As incorporadoras chinesas e os governos locais estão tão desesperados para atrair compradores de moradias que alguns estão recorrendo a estratégias de marketing bizarras.
Uma companhia imobiliária de Tianjin veiculou um vídeo com o slogan “compre uma casa e ganhe uma esposa de graça”. Foi um jogo de palavras que usou os mesmos caracteres chineses da frase “compre uma casa e a dê para sua esposa” — mas apresentado em uma estrutura gramatical geralmente usada para oferecer brindes aos compradores de residências. Em setembro, a companhia foi multada em US$ 4.184 pelo comercial.
Um complexo residencial na província de Zhejiang, no leste da China, prometia no ano passado dar aos compradores de moradias uma barra de ouro de 10 gramas.
Este mês, Sheng Songcheng, ex-chefe do departamento de estatísticas do Banco do Povo da China (o banco central chinês), disse em uma conferência local que a crise imobiliária vai durar mais dois anos. Ele acredita que as vendas de novas moradias cairão mais de 5% em 2024 e 2025.
Economistas de Wall Street também alertam sobre a persistência da crise imobiliária na China. “Poucas pessoas estão comprando, podem comprar ou querem comprar”, diz Raymond Yeung, economista-chefe da ANZ para a China. Ele diz que houve uma mudança fundamental no modo como a população chinesa vê o setor imobiliário, com a habitação não sendo mais vista como um investimento seguro.
O setor imobiliário da China e as indústrias relacionadas já responderam por cerca de 25% do PIB e a crise no setor vem sendo um obstáculo significativo para a segunda maior economia do mundo. Isso aumentou os pedidos para que Pequim se esforce mais para apoiar o setor, mas até agora as autoridades chinesas vêm se limitando a políticas isoladas, em vez de implementar um grande pacote de estímulo.
Vários economistas estão fazendo comparações com o Japão, que passou décadas tentando se recuperar de um colapso no setor imobiliário e nos preços das ações. O mercado de ações de China está em queda há anos.
O BC chinês pode ajudar a tornar a situação menos dolorosa, mas terá de ser agressivo, diz Li-gang, chefe de análises econômicas da Citi Global Wealth Investments para a Ásia-Pacífico. O BC ainda tem espaço para manobras e pode dar um grande passo para causar um impacto significativo, acrescenta ele.
Liu Yuan, chefe de análises imobiliárias da Centaline, diz que sem a ajuda do governo, os preços das novas moradias terão de cair outros 50% em relação aos atuais níveis, antes de atingirem o fundo do poço. Isso é baseado na suposição de que o ponto de inflexão só virá quando estiver mais barato comprar casas do que alugar, segundo Liu.
A crise imobiliária na China já fez dezenas de vítimas. Mais de 50 incorporadoras — a maioria privada — não estão conseguindo pagar suas dívidas. Elas ainda possuem milhões de moradias não concluídas que foram vendidas, mas não entregues. As autoridades chinesas separaram bilhões de dólares para ajudar as construtoras a concluir apartamentos, mas o acúmulo continua crescendo.
A crise drenou os cofres de alguns dos governos locais chineses, que antes dependiam as vendas de terrenos como principal fonte de receitas. Economistas estimam que eles tenham dívidas ocultas avaliadas em algo entre US$ 400 bilhões a mais de US$ 800 bilhões. Para acalmar os rumores de possíveis calotes, o governo central estabeleceu programas de swap de dívida para ajudar algumas delas a refinanciar suas obrigações.
Alguns economistas estão otimistas. Os compradores de imóveis residenciais usados vão retornar gradualmente neste semestre, estimulando o setor, afirma Helen Qiao, economista-chefe do Bank of America para a China. “As coisas lentamente vão melhorar daqui em diante.”
Mas a maioria ainda prevê problemas e os investidores estão pessimistas. Um índice referencial do setor de ações imobiliárias em Hong Kong caiu por quatro anos seguidos antes do começo deste ano. Desde 1º de janeiro ele desvalorizou outros 15%.
Fonte: Valor Econômico


