Como qualquer operador de câmbio da velha guarda lhe dirá: compre dólares, use diamantes. Certamente a moeda parece no rumo de se tornar uma aposta decente este ano, e de uma forma que está provocando focos de estresse ao redor do mundo. Mas se você está à espera de um exercício do tipo choque e pavor para reverter isso, é provável que vá esperar por muito tempo.
À primeira vista, a moeda de reserva dominante no mundo está bastante parada neste momento. O índice do dólar DXY, que monitora sua cotação comparada com uma cesta de outras moedas importantes, subiu mais ou menos 4% em 2024 – um aumento decente, mas nada espetacular. O índice ainda está cerca de 7% abaixo do nível histórico máximo a que chegou em setembro de 2022.
Mas para muitos analistas e investidores, isso só abre espaço para que o dólar continue a subir, enquanto os mercados recalibram suas expectativas quanto às taxas de juro dos EUA. “O dólar ainda tem mais para dar”, escreveram os analistas de câmbio do UBS Shahab Jalinoos e Vassili Serebriakov. Uma certa tensão já contamina a Ásia e os mercados emergentes, e não é difícil imaginar que se torne uma fonte de volatilidade mais geral dos mercados ainda este ano.
A razão para tudo isto, claro, é que, embora pareça mais ou menos provável que os EUA reduzam as taxas de juros este ano, isso não acontecerá antes de setembro, no mínimo. E a expectativa é que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) tome essa medida apenas uma vez, ou duas quando muito, ao passo que outros grandes bancos centrais de mercados desenvolvidos estão no rumo de fazer cortes muito mais cedo ou, no caso do Japão, presos a um cenário de relaxamento. Essa diferença é uma receita clássica para o vigor do dólar. No fim de abril, o Goldman Sachs informou que trabalhava com a previsão de que o dólar ficasse “mais forte por mais tempo”, por causa de alguns elementos “desestabilizadores”. A melhor chance para reverter isso é que dados fracos sobre emprego nos EUA, como os divulgados na sexta-feira, continuem assim.
Neste momento, o ponto de maior tensão é a taxa de câmbio do dólar em relação ao iene japonês, como ficou comprovado pelo que se parece muito com uma intervenção oficial das autoridades do país na semana passada. O iene tem caído de modo consistente desde início de 2022. A moeda perdeu um terço do seu valor desde então, o que elevou a cotação do dólar para níveis que não se viam desde meados dos anos 1980. Mas o último tombo, em que o câmbio passou de 160 ienes por dólar, foi seguido por uma rápida recuperação.
Não teremos certeza sobre se isso foi reflexo de uma venda de dólares pelo Banco do Japão (BoJ) até que dados de suas reservas sejam divulgados nas próximas semanas, mas participantes do mercado não têm dúvidas de que a fonte seja essa. De qualquer forma, isso de fato não surtiu efeito. Intervenções unilaterais raramente funcionam. O dólar recuou, sim, para uma cotação de cerca de 155 ienes, portanto houve uma espécie de redutor de velocidade. Mas isso é tudo. Na verdade, os analistas traçaram metas mais altas, e não mais baixas, para o dólar em relação ao iene, depois da sacudida da semana passada.
“Isto é o que acontece quando um banco central adota uma configuração de política monetária completamente inadequada”, disse Peter Fitzgerald, diretor de investimentos para multiativos e macro da Aviva Investors (para evitar dúvidas, ele se referia à taxa de juro de 0% do BoJ, e não à do Fed, de pouco mais de 5%).
“A válvula de pressão é a moeda, e a única forma de resolver isso é por meio da política monetária”, afirmou Fitzgerald. Para ele, a intervenção, supondo-se que foi isso o que aconteceu, não mudará a situação.
O Japão não está sozinho nisso. No mês passado, o país manifestou sua preocupação sobre o assunto à secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, juntamente com a Coreia do Sul. Também no fim de abril, o BC da Indonésia surpreendeu o mercado ao elevar as taxas de juro, em um esforço para sustentar a rupia.
A fraqueza de moedas fora dos EUA não é algo totalmente ruim. Ela pode, por exemplo, ajudar as exportações. O irônico é que, nas duas últimas décadas, o Japão passou anos tentando empurrar o iene para baixo, e não para o alto. Mas o tráfego de mão única e declínios rápidos são mais preocupantes e podem causar inflação ao aumentar o custo de artigos importados.
A Europa pode estar no rumo desse tratamento. O euro já oscila em torno de seus níveis mais fracos em duas décadas, cotado a US$ 1,07, em grande parte por causa dessa diferença nos perfis das taxas de juro. Mas o Barclays está entre os que advertem que quedas mais acentuadas podem acontecer daqui para frente. Ele argumenta que um segundo mandato de Donald Trump nos EUA, que envolva novas tarifas comerciais, poderia empurrar a taxa de câmbio para baixo, em direção à paridade.
É quase certo que, nesse momento, os apelos para que as principais autoridades se unam e enfraqueçam o dólar se tornariam mais estridentes. Na verdade, durante seu mandato o próprio Trump era veementemente contra a fraqueza do euro. Mas até o momento todos esses riscos são apenas hipotéticos. Analistas do UBS dizem que a barreira para uma intervenção multilateral no estilo das que ocorreram no fim dos anos 1980 – o único tipo que funciona – continua “muito alta”. Para o banco, a intervenção coordenada “não está completamente fora de questão”, mas exigiria força do dólar e volatilidade do mercado muito mais pronunciadas. Talvez fosse necessário “um novo choque externo suficientemente urgente e abrangente para tornar palatável a ideia de coordenação das políticas internas, que costuma ser bastante controversa”.
É difícil argumentar que os EUA têm necessidade urgente de cortar juros. Até que isso mude, países que sentem a pressão gritarão no vazio.
fonte: valor econômico


