Por Liane Thedim — Do Rio
12/06/2023 05h02 Atualizado há 5 horas
Enquanto no Brasil os gestores já se sentem mais seguros para começar a adicionar risco às carteiras, diante do cada vez mais provável início do ciclo de cortes da Selic, gestores de fortunas e de grandes fundos com investimentos no exterior estão imprimindo um perfil mais conservador na escolha dos ativos. O cenário incerto nos Estados Unidos, em que parte aposta em mais uma elevação de juros e outros veem o fim das altas e risco de recessão mais à frente, vem levando a uma alocação acima da média em Treasuries – os títulos do Tesouro, considerados de risco zero -, que estão pagando em torno de 5% ao ano, e a posições tímidas em bolsa americana, considerada cara diante do recente rali de empresas de tecnologia, as “big techs”. O Federal Reserve (o banco central americano) anuncia sua próxima decisão no dia 14.
“Não vale a pena entregar uma rentabilidade ruim nesse período em que não estamos vendo grandes oportunidades. Eu prefiro ter um pouco de paciência e, quando o cenário se definir melhor, fazer operações com risco maior e mais confiança”, afirma Marcos Mollica, gestor do fundo Opportunity Total, criado em 2003, que tem metade do patrimônio de R$ 4 bilhões formado por recursos dos sócios do banco.
Na reunião de maio, os formuladores de política monetária dos EUA disseram que não estavam certos em relação à necessidade de aperto adicional. Eles apontaram o progresso mais lento que o esperado no controle da inflação e no esfriamento do mercado de trabalho, mas citaram a possibilidade de uma crise de crédito após a recente turbulência bancária. Por outro lado, autoridades do Fed sugeriram nas últimas semanas que, embora possa haver motivos para uma pausa em junho, provavelmente seria apenas temporária.
Mollica diz que “é impressionante” a similaridade entre os quadros macroeconômicos dos 20 países cobertos pelo banco. “A gente vê queda da inflação cheia, puxada pelos bens, ligada à normalização das cadeias de produção e à queda de commodities pós-pandemia, mas o núcleo se mostra resistente, em patamares muito acima da meta dos bancos centrais. É o que está trazendo tom de cautela ao mercado”, acrescenta.
Em Treasuries, a opção da maioria é pelos vencimentos curtos, até dois anos, já que na curva de 10 anos já está projetado um futuro corte dos juros para enfrentar uma possível recessão, o que puxa o rendimento para baixo. É o caso da Vita Investimentos, multifamily office com R$ 2,5 bilhões sob gestão. O sócio Arthur Mello afirma que a gestora está no menor patamar histórico em ações no Brasil e, no exterior, acredita que os juros vão ficar mais altos por mais tempo. “Então não alongamos o prazo.”
No Brasil, a alocação em NTN-Bs (Notas do Tesouro Nacional Série B, indexadas ao IPCA) cresceu este ano. “Em ações a gente vê chance de ganhos nos Estados Unidos. Aqui no Brasil é por oportunidade. Estamos sem apetite ao risco, vamos esperar para ver dados se consolidarem.” O executivo conta que o cenário mais instável, a partir das eleições em 2022, levou a um aumento na procura por parte dos clientes. “Diante de tantas incertezas, não precisamos mais nos esforçar para convencer clientes de que é bom ter uma parcela alocada no exterior”, diz.
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José Robazzi, diretor da Arton Gestão de Recursos, confirma o movimento rumo a ativos estrangeiros, e o consequente aumento de posição em Treasuries, influenciada também pela queda do dólar frente ao real. “A sensação de ‘dólar barato’ é importante para provocar um realinhamento de portfólio para o exterior”, avalia o executivo da butique de investimentos especializada em “wealth management” e sócia do BTG, com cerca de R$ 4,5 bilhões sob aconselhamento e 220 famílias.
Na TAG Investimentos, que oferece gestão de patrimônio, fortunas, planejamento sucessório e produtos estruturados e tem R$ 12 bilhões sob administração, a opção também é pela segurança. Segundo o sócio Marco Bismarchi, a posição está acima da média em Treasuries, e abaixo da média em bolsa americana, onde veem preços das ações como “esticados”. Em renda fixa, a aposta é em títulos “high grade” (de empresas bem avaliadas, com baixo risco de crédito), sobretudo de grandes bancos, mas também com vencimento curto.
No Brasil, Bismarchi diz que o cenário é nebuloso, mas os riscos de cauda começaram a se dissipar, o que levou a gestora a aumentar a parcela de crédito privado na carteira para aproveitar a alta dos spreads entre março e abril. Ele conta que normalmente a alocação no exterior é de 20% a 30%, mas neste ano cresceu a demanda de clientes por uma fatia maior.
Na Oikos Wealth Management, que tem R$ 6 bilhões sob gestão, sendo mais da metade offshore, a opção também é por títulos de curto prazo. “Treasuries são um ativo sem risco e de alta liquidez. Não vemos motivo para ganho na bolsa americana. Temos um rali de tecnologia forte, mas não podemos esquecer de 2022, quando as ‘big techs’ despencaram. Frente a 2022, os papéis de tecnologia ainda caem 17%. Voltamos a ter bolsa em dezembro de 2022, mas em fevereiro reduzimos bastante”, comenta Renato Mendes, sócio-fundador da gestora.
Segundo ele, os efeitos da manutenção dos juros altos e da fragilidade dos bancos regionais na economia americana preocupam. “A renda fixa projeta cortes de juros já no fim do ano, e vencimentos mais longos já precificam queda. A Treasury com vencimento em agosto deste ano tem taxa de 5,25% ao ano. Já a de agosto de 2024, 4,5%”, afirma Mendes. “Cerca de 50% dos índices que compõem a inflação estão acima de 4% ao ano. Portanto, a briga para combater a inflação parece longa por lá.” No Brasil, a maior exposição da Oikos é à NTN-B: “Quando começarem os cortes da Selic, voltamos para a bolsa”.
No Parcitas, multimercado criado em 2018 e com patrimônio de R$ 500 milhões, o gestor Thomaz Callado diz que o fundo está com risco de pequeno a médio e concentrado no exterior. “No Brasil temos alocado 20% do risco hoje. Gostamos de carregar risco de bolsa americana, mas estamos subalocados”, afirma. Mas, em carteira, as apostas estão em Treasuries de dez anos, já que eles acreditam que o Fed corte os juros mais à frente por risco de recessão. “Esse papel sofre menos agora.” Ele diz que a gestora vê o cenário macro com “uma pitada de receio”, mas mantém posição em ações de Amazon, Google, Microsoft e Salesforce. “Na história americana, sempre que o aperto foi forte para segurar a inflação, desembocou em recessão. Então, acho difícil que esse ciclo de elevações acabe de forma tranquila e serena”, diz Callado.
Mollica, do Opportunity, compartilha as mesmas preocupações. “A dúvida é se os bancos centrais vão continuar subindo ou se há efeitos defasados que vão bater nos próximos meses”, afirma. A situação dos bancos regionais americanos – Silicon Valley Bank, Signature Bank, Silvergate e First Republic Bank faliram neste ano, já como reflexo da forte puxada nos juros básicos do país – é outra fonte de incertezas. “Achamos que seria um catalisador da política monetária para a economia real, mas o quadro se estabilizou. Não sabemos se melhorou ou se é calmaria momentânea e voltará a piorar.”
Segundo ele, com o mercado “em suspensão”, o nível de risco do fundo está baixo, com posições no mercado futuro nas bolsas europeia e americana, além de juros no México e no Brasil. Em Treasuries, é mais uma gestora a dar preferência a um horizonte mais curto, com concentração em vencimentos em meados do ano que vem. “Quando o Fed anunciar oficialmente que parou de subir os juros, o mercado vai se antecipar e precificar um ciclo de cortes mais fortes.” Mollica acredita que as grandes oportunidades agora virão do mercado de juros, para quem acertar o “timing” dos cortes, quando a economia dos EUA começar a mostrar fragilidade. “A bolsa vai demorar mais a reagir, porque a economia global estará apontando recessão”, prevê.
Do Brasil, afirma, a visão estrutural é negativa, mas, no curto prazo, o avanço do arcabouço fiscal no Congresso, a queda da inflação e a manutenção da meta (vem ganhando força a expectativa de que o objetivo do IPCA não mudará, apenas o horizonte para o BC cumpri-lo) criam uma janela mais otimista de curtíssimo prazo. “Estamos aplicados em juros. Em bolsa, aproveitamos o momento ruim, com preços distorcidos, para comprar ativos de alta qualidade e mais sensíveis ao aperto monetário, caso do varejo, por exemplo.” Para Mollica, os cortes da Selic devem começar em setembro e podem acelerar em 2024, levando a uma melhora do mercado de ações, mas o cenário estrutural não é bom.
A Western Asset vai na contramão e já começou a remontar posições em bolsa americana. A gestora global tem no Brasil R$ 43 bilhões sob gestão e mais de 200 fundos diferentes, sendo 65% dos clientes de investidores institucionais e 35% do varejo. “A gente entende que boa parte do que tinha que se deteriorar já passou, ou seja, a maior parte do ciclo de alta nos EUA e das perdas no mercado acionário, então vem aumentando a exposição”, afirma Maurício Lima, superintendente de produtos da gestora.
Segundo ele, a exposição a risco no Brasil estava muito baixa em razão do cenário incerto, e agora também as apostas em juros no médio prazo começam a ser refeitas. Em renda variável local, a posição é quase neutra, com setores que podem se beneficiar da queda dos juros com consumo ou mercado de capitais. “A diferença desse ciclo de altas de juros globais para os outros vistos no passado são os enormes estímulos fiscais dados pelos governos na pandemia. Dessa forma, os efeitos em vários países têm demorado mais que o esperado. O mundo ainda está se reacomodando em termos de fundamentos econômicos”, avalia.
Fonte: Valor Econômico