Por Victor Rezende e Gabriel Roca — De São Paulo
29/06/2022 05h02 Atualizado há 5 horas
O temor de que haja uma piora ainda mais acentuada na situação fiscal brasileira se somou ao ambiente externo mais avesso a risco e pesou sobre os ativos brasileiros no pregão de ontem. O movimento mais agudo foi visto no mercado de juros, onde houve uma disparada das taxas futuras. No câmbio, o dólar alcançou o maior nível desde 4 de fevereiro, ao mesmo tempo em que o risco Brasil, medido pelos contratos de CDS de cinco anos, se aproximou de 300 pontos.
Mais sensíveis às discussões sobre os rumos das contas públicas, os juros futuros exibiram forte alta ao longo de todo o pregão de ontem. As incertezas em torno da PEC dos Combustíveis, que deve incluir, ainda, um aumento do Auxílio Brasil, ampliação do vale-gás e o “voucher” para caminhoneiros, têm afetado o sentimento dos agentes nos pregões recentes.
Ontem na B3 a taxa do DI para janeiro de 2025 saltou 0,295 ponto percentual, para 12,89%, e a do DI para janeiro de 2027 também subiu 0,295 ponto, para 12,84%.
A ansiedade em torno do parecer do senador Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE) da PEC afetou os ativos. O parecer estava previsto para ser apresentado às 11h de ontem, mas, depois, houve um adiamento para o fim da tarde. Agora, a expectativa é a de que o texto seja apresentado hoje, às 9h30, com entrevista coletiva do senador.
Na avaliação do gestor de renda fixa da Sicredi Asset, Cássio Andrade Xavier, o cenário atual tem sido marcado por um aumento dos riscos fiscais e políticos, o que adiciona prêmios de risco aos ativos domésticos. “O jogo ainda não foi vencido e a inflação não começou a ceder. Acho que essa injeção fiscal faz o mercado precificar um cenário de juros mais altos no curto prazo e de cortes de juros ainda mais distantes”, afirma o gestor.
Além de se materializar nos juros mais altos, o aumento dos riscos também se reflete no câmbio, com o dólar negociado a R$ 5,2649 no encerramento dos negócios, em alta de 0,60%, enquanto o Ibovespa recuou 0,17%, aos 100.591 pontos. Já o risco Brasil medido pelo CDS de cinco anos, de acordo com a IHS Markit, chegou a 296 pontos na tarde de ontem, no maior nível desde maio de 2020.
O diretor de tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, destaca que houve uma depreciação de boa parte das moedas de mercados emergentes ante o dólar e que o real até se comportou melhor. Ele, porém, observa que, no mês, o dólar sustenta alta de 10% contra o real, movimento mais expressivo do que nos pares, o que denota um aumento dos riscos domésticos.
“Tem muita coisa rolando aqui dentro em relação à situação fiscal e aos auxílios”, diz Weigt, ao citar, ainda, a queda forte das bolsas em Nova York e a demanda fraca do mercado por NTN-Bs, títulos atrelados ao IPCA, em leilão de títulos públicos ontem. O Tesouro Nacional emitiu R$ 1,85 bilhão ao vender apenas 57% do lote de 800 mil NTN-Bs para três vencimentos.
Apesar dos movimentos recentes de depreciação do real, Weigt enxerga espaço para que o real exiba, à frente, um desempenho melhor que outras moedas de mercados emergentes. “A taxa de juros está muito alta e vai aumentar mais um pouco, e as commodities ainda estão em preços excelentes. O real deveria ter uma performance melhor que as outras moedas”, defende o profissional do Travelex.
O movimento do câmbio, inclusive, tem sido destacado por participantes do mercado. O dólar ainda sustenta queda de 5,56% no acumulado deste ano, mas já abandonou boa parte dos ganhos, na medida em que o fortalecimento generalizado da moeda americana tem se somado aos riscos fiscais.
Os estrategistas para mercados emergentes do J.P. Morgan acreditam que o real deve enfrentar desafios adicionais na segunda metade do ano. Eles, inclusive, esperam um cenário “mais desafiador” à frente, diante da proximidade das eleições presidenciais de outubro. Os estrategistas projetam que o dólar chegará ao fim de setembro negociado a R$ 5,10 e que terminará o ano cotado a R$ 5,30.
“Enquanto os mercados parecem ter se conformado com a ideia do [ex-presidente] Lula chegar à Presidência, medidas cada vez mais populistas do atual governo, que pesam ainda mais sobre a delicada situação fiscal, podem ter impacto negativo sobre o real no segundo semestre do ano”, afirmam os profissionais do J.P. Morgan.
O estrategista Brendon McKenna, do Wells Fargo, por sua vez, mantém uma visão ainda mais cautelosa em relação aos rumos do câmbio brasileiro. O banco americano projeta o dólar a R$ 5,30 no fim de setembro e a R$ 5,40 no fim deste ano. Em relação a dezembro de 2023, o Wells Fargo acredita que o dólar subirá a R$ 5,80.
“Temos algumas preocupações sobre o potencial retorno de Lula [à Presidência] no Brasil, bem como sobre as decisões políticas do presidente Jair Bolsonaro no período que antecede a eleição”, afirma McKenna. Para ele, caso Bolsonaro introduza novos gastos sociais e desconsidere a regra do teto de gastos, “a dívida e as preocupações fiscais podem ser uma força motriz da depreciação do real”.
O estrategista do Wells Fargo acredita, ainda, que o retorno de Lula ao Planalto poderia ser uma fonte de depreciação de longo prazo do real, “porque acreditamos que ele também poderia tentar aumentar o endividamento do Brasil e acabar com as limitações constitucionais de gastos”.
O cenário do Wells Fargo para o câmbio compreende uma Selic que chega ao fim deste ano em 13,75% e que tem um processo de cortes bastante lento, ao encerrar o próximo ano em 11,75%.
Fonte: Valor Econômico


