Um ano que começou com o escândalo da Americanas, a recuperação judicial da Light, crise no mercado de crédito privado, Selic alta e países ricos em pleno ciclo de aperto monetário seria difícil terminar diferente: estudo do J.P. Morgan prevê que os títulos externos brasileiros fecharão 2023 com inadimplência de 8,8%. Segundo o relatório, será a mais alta desde o período de 2015/2016, quando o Brasil vivia o auge da Lava-Jato, que atingiu vários papéis negociados no exterior, e o mundo se deparava com forte queda nos preços do petróleo, que chegou a ser negociado abaixo de US$ 30.
Para 2024, porém, tanto o banco americano quanto especialistas ouvidos pelo Valor esperam melhora. Na previsão do J.P. Morgan, o índice cairá para 1,7%, abaixo, portanto, dos 2,6% registrados em 2022 mas ainda bem acima do 0,6% de 2021.
Além da melhora da inadimplência, bancos que atuam na estruturação de ofertas de títulos de dívida acreditam no aumento dos volumes captados por empresas brasileiras no exterior.
“Estamos acabando o ano melhor do que começamos no mercado de crédito local e internacional”, diz Alexandre Castanheira, chefe da área de mercado de dívida corporativa do Citi para o Brasil.
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Eduardo Alhadeff: “Não vimos este ano empresas menos conhecidas ou estreantes” — Foto: Silvia Zamboni/Valor
Após meses de incertezas, o quadro macroeconômico internacional parece dar sinais de estabilização, o que é benigno para emissões externas de emergentes. “Nas últimas semanas, a gente ouviu do Federal Reserve [o banco central dos EUA] que a economia mostrou sinais de desaquecimento e, com isso, a curva de juros dos Estados Unidos, que ainda está lá em cima, começa a cair”, diz Samy Podlubny, chefe da área de dívida do UBS BB.
As previsões para 2024 variam de mais a menos otimistas. Castanheira, por exemplo, vê chance de o total chegar a US$ 20 bilhões. O Bank of America (BofA) não tem projeções específicas para o Brasil, mas, considerando todos os países da América Latina, a expectativa é de aumento de 20% no volume de emissões, com as brasileiras representando parte considerável das operações. “Há algum tempo vemos o Brasil como o porto seguro dos emergentes, quando comparado a outros países da América Latina ou do Leste Europeu”, diz Caio de Luca Simões, chefe do mercado de capitais de dívida do BofA no Brasil. “Vamos abrir o ano de forma muito positiva.”
Podlubny, do UBS BB, diz acreditar que o volume de operações de brasileiras terá avanço superior ao da América Latina. Na região, as emissões de dívida devem somar cerca de US$ 80 bilhões em 2023, segundo os cálculos do banco, e, no próximo ano, o montante deve crescer entre 25% e 30%. “A tendência é de um crescimento brasileiro acima desses níveis”, afirma. Mesmo assim, pondera, o esperado é que as emissões ainda fiquem abaixo da média dos últimos anos.
A emissão mais recente foi da CSN, que aproveitou a melhora do cenário para captar US$ 500 milhões no dia 30 de novembro com títulos de sete anos. A taxa ficou em 8,875%, cerca de 4,5 pontos percentuais acima do Treasury (título do Tesouro americano comparável). A maior parte dos recursos teve como destino a recompra de outros papéis da siderúrgica.
Com a operação, o volume captado por brasileiras neste ano no exterior se aproxima dos US$ 12 bilhões, superando com folga o de 2022, quando as empresas começaram a sentir o início do aperto monetário nos EUA e na Europa. Segundo a Associação Brasileira de Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), foram, no total, US$ 5,5 bilhões movimentados no ano passado com títulos em dólar. O resultado de 2023, no entanto, fica muito aquém da média anual de US$ 30 bilhões, segundo bancos.
No total, 11 companhias levantaram recursos no mercado internacional em 2023. As maiores operações foram da JBS, de US$ 2,5 bilhões, seguida por Braskem, que obteve US$ 1,85 bilhão com duas ofertas ao longo do ano. No consolidado, foi desconsiderada uma emissão da Abra, holding que reúne a Gol e a colombiana Avianca. “Foi um ano de janelas mais ligadas ao nível dos juros americanos. O apetite dos investidores abriu ou fechou conforme o gráfico dos títulos de dez anos”, resume Castanheira. Para se ter uma ideia da montanha-russa, o ano começou com o Treasury de dez anos a 3,87% ao ano, em abril caiu a 3,3%, em outubro foi a 5% e agora está em 4,2%.
Em relação à inadimplência, os títulos que engordaram em 2023 o índice de default são casos bem conhecidos no mercado interno. Americanas, Light, Oi, Atento e Unigel estão entre eles. Segundo o relatório do J.P. Morgan, a taxa de inadimplência de títulos brasileiros vai superar neste ano até mesmo a da Argentina (7%), que sofre grave crise econômica.
“Em ambiente de liquidez restrita, com crédito mais caro, como o que tivemos desde 2022, empresas que eram muito alavancadas e precisavam rolar dívida têm situação mais desafiadora a enfrentar”, explica Eduardo Alhadeff, sócio e CIO (diretor de investimentos) da área de crédito da Ibiuna Investimentos.
De acordo com ele, entre investidores externos houve um forte aumento da seletividade. “Não vimos este ano empresas menos conhecidas ou estreantes, como em 2020 e 2021.” Alhadeff ressalta que 2023 foi uma espécie de teste de resistência: companhias que mostraram resiliência vão aproveitar o cenário mais tranquilo em 2024.
Castanheira, do Citi, vê se consolidando para o ano que vem um período de menor volatilidade para os títulos americanos. É a estabilidade que move as empresas a emitirem, inclusive pela percepção de que vai demorar a melhorar, ou seja, que não adianta esperar. “Mais do que taxa alta ou baixa, precisamos de estabilidade. Hoje consigo enxergar alguma constância num intervalo de 4% a 4,25%”, afirma.
No ano que vem, a expectativa é de um grande número de rolagens de dívidas, já que há muitas vencendo até 2028, segundo Alhadeff, da Ibiuna. O total brasileiro a expirar em 2024 é de US$ 3,4 bilhões, de acordo com o J.P. Morgan. “Devemos ter uma onda de refinanciamento para esses bonds de 2026”, diz Castanheira. Algumas, afirma o executivo do Citi, já foram antecipadas, caso da CSN.
Algumas das que têm “bonds” a vencer em 2024 – Votorantim, Marfrig e Klabin, entre elas – parecem estar aguardando a melhora do mercado. Segundo o advogado Rodrigo Carvalho, sócio do Winston & Strawn, especializado em operações nos Estados Unidos, companhias com situação confortável podem esperar, por estar prontas para captar rapidamente quando considerarem adequado.
Ele lembra que, historicamente, quem queria prazo e valores maiores tinha de recorrer ao mercado internacional, mas, hoje, consegue boas condições internamente. “Vejo hoje as emissões externas como parte de uma decisão estratégica maior, como aproximação de investidores estrangeiros e diversificação do perfil da dívida”, avalia.
Castanheira ressalta, porém, que emissões de valores mais altos, como US$ 1 bilhão, não são corriqueiras no mercado interno. “O mercado de bonds ainda tem seu valor. Tem execução rápida, taxa fixa e prazos longos.”
Fonte: Valor Econômico


