María Corina Machado lidera protesto no sábado contra os resultados da eleição proclamados pelo Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela — Foto: AP/Matías Delacroix
Uma semana depois das eleições na Venezuela, não há sinais de que a tensão e o impasse causados pela crise de legitimidade de Nicolás Maduro, proclamado vencedor, vai se dissipar tão cedo.
No domingo, a União Europeia aumentou o coro internacional por mais transparência dos resultados eleitorais de 28 de julho, dizendo que os números oficiais publicados na sexta não podem ser reconhecidos sem divulgação das atas e verificação independente. O Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela declarou Maduro reeleito com 52% dos votos contra 43% de Edmundo González, com 97% das urnas apuradas. Protestos contestando os resultados oficiais continuaram no fim de semana.
O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva viajou no domingo ao Chile para uma visita de dois dias em que as eleições venezuelanas devem ser tema central de conversas com o presidente chileno, o também esquerdista Gabriel Boric. Diplomatas chilenos foram expulsos da Venezuela por Maduro depois que Boric levantou dúvidas sobre o resultado do pleito.
O Brasil, único país da região que teve um representante de alto nível em Caracas no dia do pleito, vem procurando “liderar um espaço de mediação” entre o chavismo de Maduro e a oposição, e para isso prioriza manter canais de diálogo com os dois lados, segundo reporta Janaína Figueiredo, da Agência O Globo. É uma aposta arriscada, num cenário no qual surgem cada vez mais dúvidas sobre a legitimidade do resultado proclamado pelo CNE, e o governo brasileiro está ciente disso, dizem as fontes oficiais consultadas.
No domingo, o papa Francisco também se pronunciou sobre a situação venezuelana, pedindo às partes que evitem a violência e fazendo um apelo ao diálogo. “Faço um apelo sincero a todas as partes para que busquem a verdade, atuem com moderação, evitem qualquer tipo de violência, resolvam as controvérsias por meio do diálogo e tenham no coração o verdadeiro bem da população e não os interesses partidários”, disse o pontífice de 87 anos após a oração dominical no Vaticano.
O comunicado da União Europeia pede que haja uma verificação independente dos registros eleitorais, “se possível por uma entidade de reputação internacional”, e veio depois que sete de seus membros – Alemanha, França, Espanha, Holanda, Itália, Portugal e Polônia – emitiram uma declaração conjunta pedindo transparência dos dados.
“Relatos de missões internacionais de observação da eleição deixam claro que as eleições presidenciais de 28 de julho não cumpriram padrões internacionais de integridade”, diz o comunicado da UE. “Qualquer tentativa de atrasar a publicação plena dos registros oficiais de voto apenas levantará mais dúvidas sobre a credibilidade dos resultados oficiais.”
Algumas nações, como Estados Unidos, Uruguai e Argentina, reconheceram González como o vencedor. Entre os países que reconheceram a reeleição de Maduro estão Cuba, Nicarágua, Honduras, Rússia e China.
O vice-conselheiro de segurança nacional dos Estados Unidos, Jon Finer, reafirmou à rede de TV CBS a posição americana de considerar que González “obteve a maior quantidade de votos” na eleição, mas admitiu que os EUA trabalham “muito de perto com países chave da região que têm influência na Venezuela” para formar uma “coalizão” que conduza o país a uma transição democrática, entre os quais mencionou o Brasil.
Segundo os números divulgados pela oposição, com base nesses 80% das atas, González teria 67% dos votos, contra 33% de Maduro. O regime venezuelano alegou não ter publicado as atas por causa de um ataque hacker.
No sábado, a oposição a Maduro voltou às ruas para mais um dia de protestos. A líder da oposição, María Corina Machado, que estava escondida depois que Maduro disse que ela e o candidato González “deveriam estar atrás das grades”, compareceu a uma concentração na capital Caracas. “Foram seis dias de repressão brutal, de tentativas de nos silenciar, amedrontar or paralisar”, disse ela à multidão.
O governo também convocou seus seguidores a realizar no mesmo dia a “mãe de todas as marchas” na capital venezuelana para festejar a reeleição de Maduro para um terceiro mandato. Nos últimos dias, o presidente endureceu os ataques contra a oposição, responsabilizando-a pelos protestos que deixaram 11 mortos e mais de 1.200 detidos, segundo organizações não governamentais.
Maduro disse no sábado que “não será aceito” que a oposição tente “usurpar” a Presidência do país. Ele comparou o candidato da oposição, Edmundo González, ao líder político Juan Guaidó, que era o chefe do parlamento em 2019 quando foi reconhecido como “presidente interino” por Washington e alguns governos latino-americanos e europeus que consideraram a reeleição de Maduro no ano anterior fraudulenta.
A diferença desta vez é que Maduro sentiu-se forçado a intensificar a repressão como forma de garantir poder. “Maduro fez um grave erro de cálculo”, disse Ryan Berg, diretor do Programa Américas do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais em Washington, à Bloomberg. “Para continuar no poder, Maduro colocou o país na direção da Nicarágua, que é um Estado policial total.” Aumentar a repressão a um nível ainda mais extremo na Venezuela põe o futuro de seu povo e de sua recuperação econômica em risco, disse.
Embora a economia tenha conseguido sair de seus piores dias de hiperinflação e escassez, a atual situação política pode levar empresas e investidores que recentemente fizeram acordos petrolíferos com a Venezuela a pausar os negócios, pelo menos por ora. E com a perspectiva de alívio das sanções quase certamente eliminada, aquela atividade é crucial para aumentar a produção de petróleo de maneira a ampliar exportações e obter dólares.
Fonte: Valor Econômico